Há pessoas que chegam a uma cidade trazendo apenas uma mala. Outras chegam trazendo uma presença.
Irmã Alessandra chegou a Bacabal vinda de Minas Gerais, membro da Congregação das Servas do Amor Misericordioso, fundada por Madre Esperança. Trouxe consigo o hábito, a fé, algumas lembranças da terra mineira e aquilo que talvez fosse o mais importante: a disposição para servir.
Bacabal, porém, não demorou a descobrir que aquela mulher não tinha vindo apenas para morar entre nós. Tinha vindo para caminhar conosco.
E caminhar, para ela, nunca significou apenas atravessar ruas. Significou entrar nas histórias das pessoas, sentar-se ao lado de quem precisava ser ouvido, estender a mão a quem já não encontrava mãos disponíveis.
Foi assim que Irmã Alessandra foi se tornando parte da cidade Fez amigos. Criou afetos. Conheceu histórias. Aprendeu os caminhos de Bacabal e, sobretudo, aprendeu os caminhos invisíveis que levam até aqueles que quase ninguém procura.
Nas Pastorais Sociais, encontrou uma espécie de altar sem paredes. Ali estavam os pobres, os esquecidos, os que dormiam nas ruas, os que carregavam no corpo as marcas de uma sociedade que muitas vezes passa apressada diante da dor.
E Alessandra parava. Talvez essa tenha sido uma de suas maiores lições Num mundo que corre, ela aprendeu a parar.
Parar diante de alguém.
Parar para escutar.
Parar para oferecer comida, abraço, palavra, cuidado ou simplesmente presença.
Porque há momentos em que a pessoa não precisa de uma explicação para a própria dor. Precisa apenas descobrir que alguém ainda se importa. E ela se importou. Muito.
Por isso, quando chegou a notícia de que Irmã Alessandra partiria para a Mãe África, Bacabal sentiu aquela estranha mistura de orgulho e saudade que acompanha as despedidas verdadeiras.
Mas havia algo de profundamente simbólico naquela partida. Uma mulher negra, freira, discípula de Madre Esperança, atravessando o oceano em direção ao continente de seus ancestrais.
A África que tantas vezes aparece nos livros como passado, origem ou memória tornava-se, para ela, destino. Não iria simplesmente conhecer a África. Iria servir. Talvez exista algo de profundamente bonito nisso.
Uma filha da diáspora retornando ao continente ancestral não para buscar tesouros, mas para oferecer aquilo que aprendeu a carregar: fé, cuidado, esperança e amor.
E há ainda outra ironia na história. Ela vai para um país onde se fala inglês.
A língua que chegou ao continente acompanhada das feridas do colonialismo, da exploração e da opressão. Mas Alessandra chegará levando outra linguagem. A linguagem que não precisa de tradução. O abraço. O cuidado. A solidariedade. A escuta. O pão repartido. A mão estendida. O amor.
Essa linguagem, ninguém coloniza. Talvez seja justamente por isso que sua missão tenha tanta força simbólica. Ela não leva apenas palavras.
Leva uma experiência de vida construída entre pessoas simples, nas ruas de Bacabal, nas pastorais, nas comunidades e junto daqueles que tantas vezes foram tratados como invisíveis
Leva consigo um pouco de Maranhão.
Leva amigos.
Leva histórias.
Leva saudades.
E leva também uma cidade que aprendeu a reconhecer nela uma presença especial.
Irmã Alessandra é dessas pessoas que parecem compreender o Evangelho antes mesmo de pronunciá-lo. Porque há quem fale sobre Jesus. E há quem tente viver como Jesus. Ela escolheu a segunda opção. A opção pelos pobres. Sua fé nunca pareceu interessada apenas em templos. Procurou pessoas.
E talvez esse seja o verdadeiro sentido de uma pastoral social: descobrir que, antes de qualquer estatística, existe um rosto; antes de qualquer problema social, existe uma história; antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa esperando que alguém não passe indiferente.
Madre Esperança certamente reconheceria nessa caminhada uma de suas discípulas. Porque esperança não é esperar que alguma coisa aconteça. Esperança é caminhar em direção àquilo que ainda precisa acontecer. E Alessandra caminha. Agora, para longe. Mas não para longe da missão. Apenas para outro pedaço do mundo.
Bacabal ficará com a saudade, mas também com a certeza de que algumas pessoas não pertencem inteiramente ao lugar onde vivem. Pertencem à missão que escolheram.
Por isso, não diremos apenas adeus. Diremos: vá.
Vá para a Mãe África.
Vá com a coragem das mulheres que vieram antes de você.
Vá com a fé que trouxe de Minas Gerais.
Vá com as histórias que Bacabal colocou dentro da sua bagagem.
Vá com o rosto daqueles que você ajudou.
Vá com o Evangelho no coração e com as mãos disponíveis para continuar servindo.
E, quando a saudade apertar, lembre-se de que existe uma cidade maranhense que também ficou um pouco africana depois que você passou por aqui. O Maranhão agradece. Bacabal agradece. Seus amigos agradecem.
Aqueles que um dia encontraram abrigo na sua presença talvez nem saibam escrever uma carta de despedida, mas certamente levarão consigo a lembrança de uma mulher que parou quando todos pareciam ter pressa.
E nós pedimos a Deus que abençoe seus novos caminhos. Que Madre Esperança continue sendo luz sobre sua missão. Que a África a receba com braços abertos. E que você continue fazendo aquilo que sempre fez tão bem:levando esperança a quem precisa de amor.
Porque algumas pessoas passam por uma cidade. Outras deixam a cidade melhor depois que passam. Irmã Alessandra é dessas.E é por isso que, para nós, ela será sempre Alessandra: a grande.
José Casanova











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