sexta-feira, 3 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Célia Sampaio – A Voz da Liberdade

O apresentador demorou alguns segundos antes de dizer seu nome. Não foi esquecimento. Certos títulos precisam de silêncio para serem acreditados. As luzes do palco começam a piscar. As cores da bandeira da Etiópia davam  ao evento um om rastafári.

— Com vocês... a Voz da Liberdade, a Dama do Reggae!

Os aplausos vieram antes mesmo que Célia Sampaio aparecesse. Ela entrou devagar, sem o gesto espalhafatoso de quem precisa convencer alguém de sua importância. Sabia que o palco não faz uma cantora. Apenas ilumina a caminhada que ela já percorreu.

Quem olhava daquela plateia talvez enxergasse apenas o vestido estampado com tecidos africanos, os brincos grandes balançando ao ritmo da música e a mulher negra e segura diante do microfone. Quase ninguém imaginava quantas ruas do Bairro da Liberdade ainda caminhavam com ela.

Antes de subir o palco, uma jovem cantora conseguira com ajuda de um amigo, vencer o bloqueio da segurança e chegar perto de Célia.

— Dona Célia... posso fazer uma pergunta?

Ela sorri.

— Pode.

— Como é que a gente vira uma dama do reggae?

Célia ri, um riso baixo.

— Primeiro, esquece essa história de dama. Aprende a sobreviver.

A menina fica sem entender.

— Sobreviver?

— É. Cantar quando dizem que reggae não é música de mulher. Continuar quando dizem que mulher negra só serve para cantar num cantinho da festa. Trabalhar o dia inteiro e ainda encontrar voz para subir num palco à noite. Depois disso, o povo inventa os títulos.

— Eu moro na Liberdade e também quero ser cantora. – Disse a jovem e depois de uma pausa curta concluiu. — Eu me inspirei em você...

— Célia, chegou a hora, vamos! – Chamou um produtor.

Agora no palco de frente para a plateia não conseguia esquecer o que dissera aquela jovem cantora. Lembrou da infância na Liberdade, onde ela aprendeu cedo que algumas pessoas nascem precisando provar o próprio valor três vezes. Uma por serem pobres. Outra por serem negras. Outra por serem mulheres.

Não cumprimentou o público, começou logo com uma canção que levou a plateia ao delírio cultural. Lembrou do tempo passado quando no hospital, segurava mãos marcadas pela dor. À noite, segurava o microfone. Em um lugar ajudava a cuidar dos corpos. No outro, tentava aliviar feridas que não apareciam nos exames. As dores da alma da nação regueira.

Sempre tivera as mãos habilidosas para trabalhar a arte. Enquanto alinhavava um vestido inspirado nas estampas africanas, Célia dizia que roupa também fala. Durante muito tempo disseram ao povo negro que escondesse sua história. Ela preferia vesti-la.

O show transcorreu na maior normalidade. Uma música, Um refrão faz a Jamaica brasileira reagir com alegria.


“Pedra de salão
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira

Pedra de salão
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira

Natty-Natty Nayfson
Eric Donaldson
Itamaraty, Estrela do Som
Reggae, Jimmy London

Tribo de Jah
O Reggae Raiz
Deixa rolar
Essa pedra, São Luís!”

Uma senhora cantava. Um Casal dançava agarradinho. Uma criança acompanhava o ritmo.
Só a presença da jovem cantora na frente do palco mexeu com seu psicológico. Ela quase erra um verso. Demora para começar outra música. Olha novamente para a menina. Ao final Célia foi ovacionada pelo público.

 Após o show. Um homem se aproximou dizendo ser repórter:

— Célia, você canta reggae desde quando?

Ela responde:

— Desde antes de saber que era reggae.

Ele ri.

Ela continua:

— Minha mãe já cantava esperança dentro de casa quando a esperança ainda não tinha melodia.

— Por que continuar cantando reggae depois de tantos anos?

— Porque ainda existe meninas na plateia precisando descobrir que pode chagar até aqui. Reggae não é só música. Para muita gente, ele foi a primeira voz dizendo que a nossa cor, a nossa história e o nosso lugar neste mundo merecem respeito. Toda vez que eu canto, a menina que saiu da Liberdade sobe ao palco comigo. E eu nunca quis deixa-la para trás.

Outras pessoas chegavam para cumprimentá-la.  Não era apenas respeito pela cantora. Era gratidão por alguém que transformou o reggae em endereço, profissão, identidade e memória. O título de Dama do Reggae não parecia uma homenagem. Parecia apenas a maneira mais curta de dizer quem Célia Sampaio havia se tornado para gerações inteiras de maranhenses.

Quando deixou o palco, Célia ainda procurou a menina entre a multidão. Não a encontrou. Sorriu. Talvez fosse esse o destino das grandes referências: um dia deixam de reconhecer quem ajudam a levantar. Mas continuam sendo o primeiro acorde na história de alguém.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Universidade

 

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