O ônibus, uma carcaça de lata que parecia ter sobrevivido a eras de poeira e descaminhos, era o útero metálico daquela família numerosa e barulhenta. Quando o motor estalava para a partida, muitas vezes auxiliado pelo empurrão coletivo dos mutucas e brincantes, o cheiro de diesel misturava-se ao aroma inconfundível de perfume barato, suor de expectativa e o farelo de biscoito que insistia em cair do banco traseiro.
Ali dentro, não havia Mestre, nem vaqueiro, nem índia; havia um coletivo de corpos exaustos que buscavam o próximo arraial. A estrada serpenteava pelo interior do Maranhão, era o palco onde o bumba-meu-boi se revelava na sua versão mais humana e despojada, longe dos brilhos cênicos e das luzes dos grandes palcos.
As horas de viagem eram sentidas na espinha, especialmente para quem carregava a estrutura do boi desmontada pelas fileiras de poltronas ou sobre o teto, amarrada com cordas de náilon que pareciam prontas para arrebentar ao primeiro solavanco.
O ônibus chacoalhava com uma violência que faria qualquer objeto moderno sucumbir, mas aquele veículo, tal como a tradição que transportava, era feito de teimosia. No fundo, alguém começava a cantar uma toada baixinha, um lamento sobre o "boizinho que correu a estrada", e, em questão de minutos, o que era um silêncio cansado tornava-se um coro potente.
As mãos começavam a bater nas laterais dos bancos, no encosto dos bancois, na lataria da janela, transformando o transporte em um estúdio improvisado onde se testavam versos que seriam apresentados a poucos quilômetros dali.
Imprevistos eram a única certeza da agenda. Havia o pneu que estourava exatamente no trecho de estrada de terra onde o sinal do celular era um mito; havia o motor que superaquecia e obrigava todos a descerem e ficarem esperando ao relento o ferro esfriar enquanto a lua subia e o desespero de perder o horário da apresentação batia no coração do Mestre.
Nessas horas, o improviso virava lei. Reuniam-se ao redor da guarnição, decidiam o que cortar da apresentação, como redobrar o passo caso chegassem atrasados, e sempre, sem exceção, alguém tirava uma comida embrulhada em folha de bananeira para partilhar. A fome, no ônibus itinerante, era combatida com o coletivismo. Ninguém comia nada se não houvesse o suficiente para o companheiro do banco ao lado.
Quando o ônibus atravessava as cidades menores, a recepção era um rito à parte. A chegada de um batalhão, por mais atrasada que fosse, transformava o ânimo do lugarejo. As crianças corriam atrás do gigante de ferro, gritando e aplaudindo como se o ônibus fosse, por si só, uma extensão da magia do boi.
Os brincantes, ao descerem com as pernas dormentes e o corpo pedindo descanso, precisavam de uma injeção de adrenalina quase instantânea. Era o momento em que a cara de cansaço era substituída pelo sorriso de quem sabe que a sua arte é o oxigênio de quem habita aquelas terras distantes. O improviso de trocar de roupa atrás de uma cortina ou no fundo de um armazém de venda era feito com uma naturalidade que beirava a santidade cotidiana.
Havia, no entanto, algo de poético naquelas estradas de terra, sob um céu que se abria como um abismo estrelado. O ônibus, cruzando as sombras das veredas, parecia um espectro transportando a alma do Maranhão. O vaqueiro, cochilando com o chapéu sobre o rosto, sonhava com passos que ainda daria; o cantador, rabiscando um novo verso no verso de um recibo velho, buscava a rima perfeita para o público que os esperava; o miolo, encolhido em um canto, já ensaiava na mente o giro que faria a multidão vibrar.
A viagem itinerante era o filtro que separava os curiosos dos verdadeiros devotos. Quem suportava o sol, a poeira, o atraso e o aperto do ônibus era quem, na verdade, mantinha o boi vivo.
Quando o motor parava finalmente no destino, com um ranger de freios que parecia um suspiro de alívio, a energia no ônibus mudava. A exaustão evaporava no instante em que o primeiro par de matracas era retirado do compartimento de bagagens.
Eles montavam a estrutura com a agilidade de quem faz o trabalho há gerações, e o boi, que há pouco era apenas um amontoado de veludo e madeira escondido nas entranhas do veículo, começava a ganhar forma, a exibir suas fitas e a reclamar o seu território.
O couro voltou a respirar. A primeira matraca estalou na noite. Quem tivesse visto apenas a viagem juraria que aquele povo já não tinha forças. Bastou o boi levantar a cabeça para ninguém mais lembrar do cansaço da estrada.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Munidal de Letras da Humanidade







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