O aroma do incenso, denso e doce, disputava espaço com o cheiro da pólvora dos buscapés que explodiam à distância e com o perfume da erva-doce que emanava das pequenas garrafas de mel de engenho. No altar improvisado, montado no canto mais reservado do galpão, a imagem de São João Batista, com seu olhar severo e ao mesmo tempo protetor, era o foco de uma devoção que não conhecia meio-termo.
Velas de sete dias ardiam sem parar, suas chamas dançando conforme o vento que entrava pelas frestas, enquanto os brincantes, um a um, aproximavam-se em silêncio. Ali, atrás dos bastidores do espetáculo, a hierarquia era suspensa. O dono do boi, o miolo, o vaqueiro campeador e a mais jovem das índias tornavam-se iguais perante aquele altar, todos buscando no santo a mesma moeda de troca: a proteção para o couro, o fôlego para o peito e a benção para que o cortejo saísse e voltasse sob o manto da paz.
O sincretismo ali não era uma teoria acadêmica; era a própria carne da sobrevivência. As orações misturavam o terço católico com invocações que pareciam vir de eras mais antigas, pedidos de licença aos encantados das matas e das águas para que o boi pudesse reinar em terra alheia.
Mestre Benedito, com seu chapéu posto sobre o peito, ajoelhou-se diretamente no cimento frio. Ele não pedia bênçãos para o brilho do espetáculo, mas para a segurança de seus brincantes.
- Que o boi não seja esquecido, que a matraca não falhe e que a inveja de quem não brinca não cruze o caminho de quem trabalha. - . Sussurrava, enquanto aspergia um pouco de água benta sobre a carcaça do boi pousada como um animal adormecido ao lado do altar.
É impossível separar o Bumba-meu-boi dessa camada espiritual. Muitos veriam apenas a festa, a dança e a indumentária, mas para quem vive dentro do barracão, cada fita amarrada, cada miçanga costurada e cada ensaio de madrugada é, em essência, uma promessa cumprida.
São promessas de cura, de gratidão pela vida de um filho que escapou de uma enfermidade, ou pelo emprego que surgiu quando o prato parecia vazio. O boi é um veículo de ex-voto. Ao dançar, o brincante está pagando o que prometeu ao santo, e a religiosidade é o combustível que permite que o corpo suporte a exaustão que, por vias puramente biológicas, já teria levado todos ao desfalecimento.
Lá fora, a voz do folguedo já se fazia ouvir na rua, a orquestra aquecendo os instrumentos e o público clamando pela saída da atração. Mas ali dentro, o tempo corria em outra zona. Era o momento em que a fé era conferida. O óleo bento era passado nas mãos dos tocadores de matraca, como se untassem as armas de uma guerra santa onde não se mata ninguém, mas se celebra a própria existência contra o olvido.
Parecia que nenhuma proteção lhes parecia mais importante do que aquela. Eles acreditavam e essa crença era o que lhes dava uma postura inabalável que, enquanto São João estivesse no comando, nenhuma intempérie, seja ela a chuva forte que ameaçava o veludo ou o desânimo que rondava os ombros dos mais jovens, teria poder para encerrar o cortejo.
Uma das bordadeiras mais antigas trouxe um escapulário e o prendeu com um alfinete de segurança na parte interna da saia do boi, no lugar onde o miolo apoiaria a testa durante o giro final.
- Para que o peso não pese. - Ela disse, e aquela frase simples continha toda a teologia daquele povo.
O excesso de realismo do mundo, que muitas vezes desmorona sobre os ombros de quem trabalha duro, tornava-se leve quando transformado em fé. Eles sabiam que a proteção transcendia a madeira e o tecido; era uma união de almas que, protegidas pelo orago junino, sentiam-se invencíveis na hora de enfrentar a arena.
Antes da ordem final para a saída, houve um instante de silêncio absoluto. Todos se deram as mãos em uma corrente que circulava o recinto, tocando a estrutura do boi. Não havia mais diferenças entre o miolo suado e a índia enfeitada.
Havia apenas uma unidade, um organismo pronto para ser lançado nas ruas. O sinal de cruz foi feito com a mão que, instantes depois, empunharia a matraca com força de trovão.
- Que o boi caminhe nos trilhos da benção. - Ecoou o coro baixinho, uma reza despojada que soava como um trovão abafado pelas paredes de zinco.
Quando as portas se abriram e a luz do arraial invadiu o barracão, o rosto de cada um ali estava mudado. Não carregavam apenas a alegria da festa, mas a serenidade de quem já tinha entregado a responsabilidade daquela noite a alguém maior.
Eles entraram no mundo das luzes e dos aplausos não como exibicionistas, mas como peregrinos. E o boi, ornado pela fé e abençoado pelo fogo de São João, começou então a sua caminhada, com a certeza absoluta de que, sob a guarda dos santos juninos, ele não seria apenas um motivo de admiração, mas uma oração que, movida a couro, madeira e devoção, se espalharia por toda a cidade feito luz que não se apaga, vencendo a noite e renovando, mais uma vez, o pacto de vida que o Maranhão renova todos os anos com o divino.
José Casanova
Professsor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras de Bacabal











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