No silêncio que se segue ao cansaço dos ensaios, quando o terreiro finalmente se esvazia e apenas o cheiro da lenha queimada paira no ar, as bordadeiras assumem o comando. Enquanto o mundo exterior vê o boi reluzente sob os refletores de um arraial lotado, o verdadeiro nascimento dessa criatura ocorre no avesso da agulha, num cantinho abafado da casa de Dona Zefa, onde a luz de um foco solitário ilumina o que é pouco menos que um milagre têxtil.
Suas mãos, marcadas pelos sulcos da idade e pela aspereza de quem lavou tanta roupa e moldou tanto barro na vida, possuem uma delicadeza que desafia a lógica. Entre os dedos calejados, o canutilho parece dançar, encontrando seu lugar preciso no veludo pesado que serve de pele para o boi.
Não se trata de apenas costurar. O ato de bordar um boi é um exercício de cartografia espiritual. Dona Zefa não seguia desenhos impressos ou moldes de papel industrializado; ela seguia o mapa guardado em sua própria memória, um acervo de décadas de tradição que fluía de seu pensamento direto para a ponta do dedo que tensionava o fio de nylon.
O boi precisa de estrelas, luas, santos e corações bordados, mas, acima de tudo, ele precisa de histórias. Cada miçanga que ela fixava era um voto, uma tentativa de ancorar no tecido a proteção que o grupo tanto precisava para enfrentar a maratona dos festivais. Se o ponto ficasse frouxo, a história desmancharia; se o ponto fosse forte demais, o veludo rasgaria. É um equilíbrio feito na ponta de agulha.
Ao lado dela, a neta Paolla, uma jovem que ainda aprendia a lidar com o ritmo frenético daquelas mãos experientes, observava o processo como quem assiste a um feitiço. O esforço é colossal: horas a fio sentada na mesma posição, costurando detalhes que, para a plateia que olha de longe, podem passar despercebidos. Mas Dona Zefa sabia a verdade: o boi é visto de perto.
- Menina, nunca puxe o nylon de uma vez. O veludo guarda mágoa. – Alertou dona Zefa .
- Vó, veludo não tem sentimentos! – Respondeu Paolla quase a sorrir.
- Você que pensa minha neta. Boi tem ciência...
- Hum, Armaria Vó, lá vem a senhora essas histórias de outro mundo! – Retrucou Paolla. – E esse santo a senhora vai aplicar no peitoral dos vaqueiros?
- Fica aqui– Respondeu dona Zefa indicando um local de destaque no couro do boi. – Ano passado foi ele que segurou nosso couro.
Dona Zefa cortou o fio com os dentes. Conferiu o brilho contra a luz. Virou o tecido e voltou ao trabalho.
A qualidade do bordado é a assinatura da honra do grupo. Um conjunto desleixado denotaria uma orquestra sem alma, uma matraca sem eco. O brilho excessivo, o efeito cegante que tanto buscavam não era ostentação, era a tentativa de imitar o firmamento, de trazer para o chão de terra o brilho do que está acima de nós, inacessível.
Os materiais, latão, canutilho, lantejoula e contas pareciam ter vida própria.
À medida que as mãos o costuram, o peso da fantasia aumenta, mudando a própria textura do veludo. Transformar um pedaço de tecido inerte em um tesouro que será carregado aos ombros sob o calor causticante requer uma compreensão técnica profunda.
Elas sabem, por experiência, onde o brilho precisa nascer para que o boi acenda quando encontra a luz. É uma engenharia do óbvio escondida na paciência do invisível.
Enquanto as agulhas passavam por dentro e por fora, Dona Zefa murmurava preces pelos que já se foram pedindo que a costura resistisse não apenas ao transporte, mas também à vibração dos tambores que, dali a poucos dias, sacudiriam o boi até a exaustão.
Ali, naquele atelier improvisado, o tempo flui ao ritmo da respiração. Não há a pressa do batuque, nem o nervosismo da arena. Há a calma de quem compreende que a riqueza não se compra em armazéns, mas se constrói com tempo e devoção.
Quando o sol começa a raiar e o tecido finalmente revela a imagem bordada: um santo, uma flor de lótus, um rosto de caboclo, São João, a sensação é de dever cumprido. Aquelas mãos, que durante o dia suportaram o peso da lide urbana ou o desdém dos patrões, tornam-se, à noite, mãos de artistas que sustentam a própria identidade do Maranhão no fio de uma agulha.
Elas não recebem aplausos da multidão. O boi entra e o povo delira com o miolo, com o som das matracas e com o brilho da criatura, sem nunca perceber que aquele sucesso tremendo depende milimetricamente do nó que Dona Zefa deu às quatro da manhã, enquanto o mundo, do lado de fora, tenta apenas apagar as luzes.
O seu orgulho é silencioso, íntimo, uma estrela tecida que ela vê brilhar intensamente quando o boi passa pela primeira vez sob a luz dos refletores. Ela sabe que ali, entre canutilhos e miçangas, ficou preso um pedaço da própria vida. Cada vez que o boi atravessa o terreiro iluminado, é aquele pedaço que volta a respirar.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade










0 comments:
Postar um comentário