sexta-feira, 26 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cantadores da Ópera Maranhense



O ar no barracão está carregado de um pó fino, misto de terra seca e partículas de veludo, que parece entrar nos pulmões e assentar na garganta de quem ousa desafiar o silêncio. No centro do batalhão, sentados em bancos de madeira desgastada ou de pé, com os rostos voltados para cima, estão os cantadores. Eles não se entregam à dança; o seu movimento é interno, uma contração constante do diafragma, uma disciplina ferrenha das cordas vocais que já não reconhecem a própria fadiga. Mestre Olhinho e Mestre Zé de Ribamar, com décadas de estrada, tem os lábios naturalmente entreabertos e a pele do pescoço marcada pelas artérias que saltam a cada frase entoada com força.

As mãos dos cantadores contam histórias de trabalho bruto. São dedos calejados pelo manejo das ferramentas, pelas horas sob o sol causticante, mas, quando repousam sobre o corpo do pandeiro ou quando ajustam a empunhadura do microfone, transformam-se em seda.

O calo não atrapalha; ele serve como uma espécie de couro natural, uma proteção para quem precisa extrair som, música, lamento e denúncia de um instrumento que já viu muitas luas. Entre uma toada e outra, eles mal bebem água. Um gole rápido, quase furtivo, para não interromper o fôlego acumulado. O tempo da festa não permite pausas longas; a multidão que cerca o tablado espera o fluxo ininterrupto, pois, para eles, a música é a única barreira contra a dureza da realidade.

Mestre Olhinho, sentado numa cadeira improvisada segura seu pandeiro de couro de cobra . Na terceira toada a voz falha. Ele tosse discretamente, vira o rosto, toma um gole d'água e volta antes que alguém perceba

A garganta seca torna-se, então, uma metáfora da própria vida do cantador. É um esforço que beira o sacrifício. Quando o sol começa a baixar e a madrugada se instala, a voz de um cantador muda de textura; ela fica rouca, mais grave, impregnada com o cansaço do tempo e com a própria umidade do sereno. Esse timbre rouco, longe de ser um defeito, é o que a comunidade mais valoriza. É a "voz de boi", a voz que cheira a fogueira e história.

É o som do homem que não arredou o pé, que cantou por todos aqueles que perderam seus entes queridos, que louvou as colheitas que vieram e chorou as que fracassaram.

Eles conhecem centenas de versos. São improvisadores natos, capazes de ler o ânimo do povo na arena e adaptar a estrofe para incluir um nome, uma saudação, uma pequena vingança poética ou uma homenagem. O cantador é o cronista da comunidade. Se algo aconteceu na semana, se um amor nasceu ou uma promessa foi feita, o cantador saberá transformar isso em verso antes que o sol nasça.

De repente, açguém na plateia faz um pedido inusitado:

- Ei canta ‘È tchun é tchan”!!!

O velho Guerreiro Valente sente que a resistência física é apenas a fachada; o que os mantém de pé é a necessidade vital de dizer quem são. Sem o cantador, a toada se perde no vento e o boi torna-se apenas uma peça de madeira inanimada.

O velho sorri de lado. Sem interromper a toada, encaixa o pedido dentro do próprio verso. O povo ri. O boi também sabe brincar com o tempo.

Há um momento, lá pelas três da manhã, em que o ambiente se torna quase espectral. O brilho dos figurinos parece mais opaco, os movimentos dos dançarinos ficam mais lentos, mas o cantador continua. Ele encara o batalhão, espreme os olhos para focar em algum rosto conhecido na multidão e solta o refrão com uma potência que desafia a lógica.

Ele sabe que a energia do grupo depende de sua própria resiliência. Se ele parar, a matraca perde o sentido e o caboclo perde o passo. Ele tosse. A garganta trava. O povo espera. Ele respira. Recomeça. O barracão inteiro responde nem perceber quando o mestre sem entender o motivo esquece um verso antigo, o coração acelera, mas o espetáculo continua.

Ao final, quando as primeiras luzes da manhã tocam o zinco do barracão, o cantador está fisicamente esvaziado, quase oco. O corpo é um conjunto de músculos em espasmo e a voz, agora quase um sussurro arrastado, busca o ar que falta. Mas, ao observar o batalhão ainda vibrante, alimentado por sua própria tenacidade, ele sente um contentamento silencioso.

Ele não precisa de aplausos estrondosos, tampouco de nome estampado em cartaz. O seu pagamento está no ar que vibra e na consciência de que, por mais uma noite, a tradição não morreu em sua garganta. Ele levanta, sacode a poeira das calças, recolhe o instrumento com aquela reverência de quem protege um filho e caminha para casa, andando um pouco mais devagar, sabendo que, na noite seguinte, a voz voltará a pedir passagem, e que, enquanto houver um boi, o cantador jamais precisará encontrar o silêncio.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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