Eles não usam veludo bordado, nem chapéus de fitas, nem máscaras que assustam ou encantam. As roupas dos mutucas são o que houver à mão: camisetas desgastadas, shorts velhos, calçados firmes para cruzar o terreno irregular. Nos batalhões mais organizados, vestem camisetas da brincadeira, únicas marcas que os distinguem da multidão. O nome, derivado da mosca insistente que zune e pica, é um título de coragem. No universo hierárquico do Bumba-meu-boi, se o boi é o coração e os tocadores o peito, os mutucas são os pulmões, os guardiões silenciosos que garantem que o oxigênio, a água, o espaço e o apoio físico nunca falte quando o espetáculo ameaça o sufocamento.
Enquanto a multidão se perde na euforia da toada e os brincantes perdem o sentido do tempo sob o peso das fantasias, os mutucas estão em perpétuo movimento. Eles são as sombras do terreiro. É comum ver um mutuca, com um galão de água de vinte litros nos ombros ou pilhas de canecas plásticas, atravessando a barreira humana como se conhecesse o fluxo da maré.
Eles sabem exatamente a quem a sede está consumindo antes mesmo do brincante pedir. Um olhar de canto de olho de uma índia, um gesto mudo de um tocador de matraca, e o mutuca já está lá, oferecendo o frescor necessário para que a máscara não se torne um túmulo.
O trabalho de um mutuca não termina na hidratação. Eles são os pacificadores de primeira linha. Quando o movimento do boi se torna perigoso na multidão, quando o empurra-empurra dos curiosos ameaça desmantelar uma ala inteira, é o mutuca que abre o corredor.
Com braços fortes e uma voz que se impõe sem precisar gritar, eles gerenciam o espaço, mantendo a "corda" que protege a integridade do grupo. Existe uma técnica quase invisível em como eles se colocam entre o público e o brincante: um ombro posicionado de lado, uma mão gentil mas firme no braço de quem se esqueceu dos limites. É uma coreografia própria, um passo de balé bruto que exige sensibilidade e uma ausência total de vaidade.
Havia algo de visceral em ver Beto, um mutuca veterano da região da Ilha, observando a movimentação. Ele conhecia cada viga do barracão e cada ponto cego do terreiro. Para ele, o sucesso da festa não se media pela qualidade da toada, mas pelo fato de nenhum brincante ter caído por desidratação ou ter se ferido no aperto.
Certa vez, ao ver um jovem caboclo de pena quase desfalecendo por baixo da carga de adereços após um giro violento, Beto não hesitou. Ele não chamou ninguém; ele mesmo se colocou por trás do rapaz, servindo de calço humano para que ele respirasse por dez segundos, enquanto com a outra mão segurava uma caneca de água que o caboclo tomou sem tirar a máscara. O rapaz voltou à dança como se nada tivesse acontecido, e Beto recolheu o copo vazio, sumindo novamente na penumbra das barracas de comida.
Beto embora tivesse a postura, não era um super-herói sem capa. Quantas vezes sentia-se cansado, chegando a perder a paciência por um instante, chego a esquecer de beber água porque está servindo demais.
Eles não figuram nas fotografias quando o boi parece triunfal em sua chegada ao arraial. Ninguém escreve toadas sobre a agilidade dos mutucas em reparar uma fita que se soltou ou em recolher os instrumentos caso uma chuva rápida de junho tente estragar a pele dos pandeirões.
São os heróis anônimos porque a sua invisibilidade é o sinal de que seu trabalho está perfeito. Quando o público não percebe que alguém está cuidando dos detalhes, significa que a magia está protegida. O mutuca não quer o foco; ele quer a continuidade.
Ao final da jornada, quando a última matraca para e o boi é devolvido ao barracão, os mutucas são sempre os últimos a deixar o terreiro. Eles recolhem o que sobrou, limpam os copos espalhados, conferem se ninguém ficou para trás. Estão sempre com os pés mais pesados, a garganta tão seca quanto a dos cantadores e as costas reclamando o descanso merecido. Mas, ao verem o "seu" boi guardado e em segurança, há um brilho específico nos olhos que não vem da fantasia, mas da dignidade de quem sabe o quanto custa manter de pé um sonho tão grande em um mundo que tenta, a cada passo, empurrar a tradição para o esquecimento.
As Mutucas não aparecem no brilho, mas são os que garantem que o brilho nunca se apague. Enquanto as luzes do arraial se apagam, um mutuca ainda cruza o terreiro vazio. Não procura aplausos. Apenas confere, pela última vez, se o boi ficou bem guardado. Só então vai embora...
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade








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