Maria não precisava de espelho para saber quem era quando subia no tablado improvisado na lateral do barracão. O espelho era o rosto das outras mulheres que a observavam da plateia; o espelho era o brilho nos olhos daquelas que, durante o ano inteiro, escondiam seus próprios desejos sob o avental de cozinha ou a jornada exaustiva nas casas de família. Quando ela ajustava o vestido colorido, as fitas que pendiam de sua cintura e o lenço que prendia o cabelo, ela não estava apenas se fantasiando de Catirina. Ela estava invocando uma força ancestral, um tipo de autoridade sobre a própria vontade que, no cotidiano árduo da periferia, era-lhe sistematicamente negada.
Catirina, aos olhos de Maria, nunca foi apenas a mulher grávida com desejos excêntricos e um marido complacente. Para ela, a personagem era a única voz que se permitia romper o silêncio da submissão. O desejo pela língua do boi, aquele pedaço de carne nobre, reservado apenas para as mesas dos que mandavam e desmandavam no mundo dos homens, era o manifesto mais antigo e, ao mesmo tempo, o mais subversivo de todo o enredo do Bumba-meu-boi. Ao exigir aquela iguaria, Catirina não estava pedindo apenas um alimento; estava reivindicando o direito de possuir, de consumir e de ser satisfeita, sem pedir desculpas.
Enquanto caminhava para o centro da roda, Maria sentia seus pés tocarem o solo com uma firmeza que ela não experimentava na vida real. Em casa, o mundo exigia que ela fosse a mediadora, a que se cala para evitar o conflito, a que divide o pão entre os filhos e finge estar satisfeita com as migalhas. Mas, ali, sob a luz dos refletores, ela era mulher que não se contentava. Quando ela olhava para Pai Francisco, o seu parceiro Mateus, via nele a ferramenta necessária para a sua vontade. Ela não roubava; ela ordenava. E a beleza do folguedo estava justamente na obediência cega daquele homem que, por amor ou medo, se lançava aos pastos do coronel para extrair o objeto de seu capricho.
Algumas das meninas mais novas, sentadas em caixotes próximos ao terreiro, observavam Maria com uma veneração que quase a fazia sorrir. Elas viam em seus movimentos, na mão posta sobre a barriga, que simulava a gravidez, e nas mãos postas nos quadris, um tipo de poder que ninguém lhes ensinava na escola ou no catecismo. Maria sabia que aquele desejo pela língua do boi não era sobre comida. Era sobre a necessidade visceral de experimentar o que era proibido, de provar o que a hierarquia do campo tentava manter fora do alcance dos braços dos trabalhadores.
— Tu tem certeza que quer mesmo essa língua? — Pergunta Tião durante um breve intervalo no ensaio, mantendo o personagem mesmo longe das matracas.
Maria o olhou fundo nos olhos, e por um instante, a fronteira entre Maria e Catirina se dissolveu completamente. A pergunta de Mateus não era apenas para o roteiro; era, talvez, o reconhecimento da ousadia que ela representava.
— O boi é do patrão, Francisco .— Respondeu ela, a voz firme, num tom de desafio que fez até os tocadores de tambor pararem por um segundo. — Mas o gosto é meu. E se a gente não provar o que é deles, a gente nunca vai saber o que a gente tá perdendo aqui na terra.
Aquela frase ecoou na sede do boi. Parecia uma sentença, um credo que ela carregava para além das festas juninas. Enquanto ela se movia, simulando um mal-estar falso mas convicto, ela sabia que estava ensinando algo para todas aquelas mulheres ao redor: que o desejo, quando reprimido, definha, mas quando é posto à mesa, mesmo com o risco do roubo, ele se torna o tempero da própria existência. A língua do boi era o símbolo da partilha injusta, e ela, como Catirina, era o instrumento de correção daquela balança.
No instante em que começou a dança final da cena, Maria fechou os olhos. O som das matracas parecia, para ela, o barulho do próprio coração disparado, a batida do sangue que corria ansioso pelo gosto daquela vitória. Ela levava as mãos à boca, rindo com uma malícia que não combinava com a Maria de segunda a sexta-feira. Era um riso catártico. Ela viu, nas sombras das fogueiras, as outras mulheres acompanharem seus gestos, imitando a sua altivez. Catirina não pedia licença para existir, e ela, Maria, também não faria.
Ao final do ensaio, quando o boi, aquele simulacro de riqueza e poder, repousava derrotado no canto do terreiro, Maria sentia uma paz estranha. O esforço físico a deixava exaurida, mas a alma estava leve. O desejo pela língua tinha sido satisfeito, não porque ela havia comido o boi, mas porque ela tinha construído, por meio daquela brincadeira, um espaço onde o desejo feminino não era apenas aceito, mas celebrado como o motor da história.
Ela se sentou em um banco de madeira, o lenço úmido de suor na testa, observando o barracão que começava a silenciar. Ali, ela não era mais a dona da casa ou a serva do cotidiano. Ela era a figura central, a portadora da vontade que movia os homens para a floresta e as matracas para os céus. Olhou para o próprio reflexo na vitrine de um armário velho ali perto e, pela primeira vez na temporada, viu que o olhar de Catirina não era apenas um acessório da performance. Era, na verdade, o seu próprio olhar, destemido e faminto pela vida, finalmente em liberdade diante dos olhos de sua gente. Ali, o gosto daquele desejo inexistente era mais real do que qualquer comida que ela já houvesse preparado, um banquete de dignidade que ela finalmente se permitia saborear, pedaço a pedaço, através daquela tradição que a mantinha viva.
José Casanova
professor, Jornalista escritor e Cro nista
Membro da Academia Bacablense de Letras
Academia Mundial de letras da humanidade







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