quinta-feira, 25 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Pandeiro de Viana


Na Baixada Maranhense, o tempo não se mede pelo relógio da cidade grande, mas pela cadência lenta das águas que sobem e descem conforme as estações. Em Viana, o Bumba-meu-boi não chega como um estrondo de matracas, mas como uma brisa que traz consigo um segredo antigo. O sotaque da Baixada é um bálsamo, um lamento suave que se entranha nos ouvidos e descansa a alma fatigada pela lida do campo. Enquanto na Ilha o som é de urgência, em Viana o som é de memória; o pandeiro, geralmente feito de couro de animal é o protagonista soberano, um instrumento que não apenas marca o ritmo, mas conta os dias de uma vida inteira de sol e terra.

Mestre Totó tinha o pandeiro como extensão do próprio braço. O aro de madeira, gasto por anos de atrito, guardava a voz de centenas de toadas que nasceram nas margens dos campos alagados. Diferente de outros sotaques, onde a percussão é um chicote, na Baixada o pandeiro é um convite ao afeto.

Totó dizia que pandeiro não se aprende olhando.

- Tem que gastar couro! - Repetia. E gastou. Passou a vida inteira batendo naquele mesmo aro de madeira até a mão criar um jeito próprio de conversar com o instrumento.

O polegar de Totó corria pela pele do instrumento com uma leveza que parecia carícia, criando um som aveludado que flutuava sobre o terreiro de terra batida. Aquele ritmo não exigia que o corpo saltasse em frenesi; ele pedia que o corpo se movesse com o balanço de quem caminha pelas veredas, um gingado manso, porém, inabalavelmente constante.

Mas nem sempre foi fácil manter o boi de pé.

Todo ano aparecia alguém dizendo que aquele sotaque era calmo demais, que o povo queria coisa mais animada, mais alta, mais cheia de efeito. Outros diziam que bastava trocar o couro por material industrial, colocar caixas de som maiores e acelerar o ritmo. Totó escutava tudo calado. Depois respondia do jeito dele:

- Se eu mudar o pandeiro, deixo de tocar o boi da Baixada para tocar o boi dos outros.

Era uma teimosia que custava caro. Faltava dinheiro, faltavam brincantes, alguns rapazes preferiam ir embora atrás de trabalho. Havia noites em que ele olhava a roda e percebia mais cabelos brancos do que jovens segurando pandeiro. Aquilo doía mais do que qualquer dificuldade.

As toadas de Viana carregam o peso do lamente do trabalhador. Não são raras as letras que falam do boi que se perdeu nas veredas, da saudade que a seca deixa no pasto ou do amor que se cultiva nas pausas da colheita. É um canto que preserva a oralidade dos homens que não tiveram papel onde escrever sua história, mas que a guardaram intacta nas entrelinhas de cada verso que o pandeiro embala.

Quando o grupo começa a cantar, a melodia sobe como uma fumaça de candeeiro, unindo a voz do solista ao coro num abraço que inclui todos os presentes: o velho que se lembra da mocidade, a mãe que carrega seu filho ao colo, o jovem que ainda descobre o peso da tradição.

Ali, o boi dança de uma forma que parece flutuar. A indumentária é rica em veludo, mas os adornos são discretos, preferindo o brilho contido das miçangas a uma explosão de penas e fitas exageradas. Tudo em Viana é feito para não assustar o horizonte.

O brincante, ao dançar, não busca o delírio da arena; ele busca a comunhão com o saber do seu povo. Há nos olhos de um brincante da Baixada uma serenidade que só quem vive da terra consegue compreender. Eles sabem que o boi é o ciclo; se o rio enche, o boi brinca; se a chuva falha, o boi reza. A festa nunca é um fim em si mesma, mas uma resposta ao que a vida entrega.

Ao cair da noite, sob o céu vasto da baixada, o som dos pandeiros ganha uma harmonia que parece confundir-se com o canto dos grilos e o coaxar dos sapos que pontuam a vida nos campos alagados. É uma música que, apesar de simples na estrutura, possui uma profundidade tectônica.

Cada batida no pandeiro é um segundo que se agrega à história daquele lugar. O Mestre, num intervalo entre uma toada e outra, ergue os olhos para os homens e mulheres que formam a roda: ali não há a hierarquia do palco, há a igualdade da oração. Todos conhecem o verso seguinte, todos sabem quando é a hora de baixar a voz para que o lamento ganhe vez.

Senti a magia daquele sotaque é entender que a força nem sempre é o que faz mais barulho. A Baixada Maranhense ensinou que o boi, para ser sagrado, precisa ter a elegância do campo e a ternura do pandeiro. É na suavidade daquelas mãos que, durante a semana, domam o arado e agora domam a pele do instrumento, que reside a verdadeira resistência cultural.

Quando o último pandeiro se cala e o sereno da noite começa a baixar sobre o capim, o eco daquela toada permanece por dias nos ouvidos da comunidade, Totó passava a mão sobre a pele gasta do pandeiro como quem agradece a um velho companheiro. Depois sorria, mas não escondia a preocupação.

- O difícil não é tocar. Difícil é deixar alguém querendo tocar quando eu não estiver mais aqui.

É um som que não te deixa esquecer de onde você vem e para onde, no final de todos os ciclos, você sempre há de retornar: para o chão fértil, para o ritmo calmo da existência e para a sabedoria contida no couro do pandeiro que, com tanta paciência, aprendeu a narrar a vida como se ela fosse, por fim, a mais bela de todas as toadas.

Talvez seja esse o verdadeiro som da Baixada. Não é só o couro respondendo ao toque da mão. É um povo inteiro tentando fazer com que a última batida nunca seja, de fato, a última.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


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