Wladimir desconfiava de certas
palavras. Democracia era uma delas. Parecia
uma palavra grande demais para caber na boca de um estudante que ainda
precisava pedir autorização para sair da sala. Havia também cidadania,
igualdade, oportunidade, futuro. Palavras bonitas, algumas com cheiro de
discurso de formatura, mas que ganhavam outro peso quando atravessavam o portão
da escola e encontravam a vida como ela era. Na semana do Dia do Estudante, a
diretora pediu que cada turma apresentasse uma sugestão para a comemoração.
A maioria sugeriu música. Alguns
pediram campeonato. Um grupo queria liberar o uniforme. Wladimir levantou a
mão.
— E se a gente fizer uma
assembleia?
A sala ficou em silêncio. Não
porque a ideia fosse ruim. Talvez porque assembleia fosse uma palavra que
assustasse mais do que prova surpresa. Vinícius, sentado na última carteira,
levantou os olhos do celular.
— Assembleia para quê?
— Para os estudantes dizerem o
que pensam.
Vinícius riu.
— E desde quando estudante pensa?
Alguns riram, a turma toda. Wladimir não.
— Desde antes de você aprender a
rir.
A gargalhada morreu pela metade. A
professora tentou esconder o sorriso. Foi assim que começou. Não com uma bandeira.
Não com um discurso. Começou com uma provocação.
Wladimir tinha dezoito anos e uma coleção de
inquietações que não cabia na mochila. Morava longe da escola Padre João Mohana,
dividia o quarto com dois irmãos e aprendera cedo que alguns sonhos precisam
fazer hora extra para sobreviver.
Queria cursar Direito, mas não lhe
agradava a ideia de usar terno . Gostava da ideia de conhecer as leis que
tantas vezes pareciam escritas para pessoas que nunca haviam conhecido sua rua Naquela
época, ele ainda acreditava que bastava estudar muito. Depois descobriria que
estudar muito ajuda. Mas nem sempre basta. Foi Jéssica quem lhe ensinou isso.
Ela era uma das melhores alunas
da turma. Lia rápido, escrevia melhor ainda e tinha uma mania de guardar
palavras difíceis num caderno como quem colecionava pequenas ferramentas para o
futuro.
Um dia, porém, apareceu na escola
com os olhos vermelhos.
— Vou sair.
Wladimir pensou que ela estivesse brincando.
— Sair da escola? — Quis saber
Wladimir.
— Minha mãe precisa que eu
trabalhe.
Naquela noite, Jéssica chegou em
casa e encontrou a mãe sentada à mesa, separando algumas moedas ao lado de uma
conta de energia vencida. Havia outras contas dobradas debaixo de um copo, como
se esconder o papel pudesse esconder também a dívida. A televisão estava
ligada, mas ninguém prestava atenção.
Jéssica deixou a mochila no canto
e ficou alguns segundos olhando para o uniforme pendurado atrás da porta. A
camisa branca ainda guardava uma pequena mancha de tinta da aula de Português.
Passou a mão sobre o tecido.
— Mãe...
A mulher levantou os olhos.
— O que foi?
Jéssica hesitou.
— Acho que vou procurar trabalho.
A mãe não respondeu
imediatamente. Continuou separando as moedas, empurrando umas para perto das
outras como quem tentava fazer o pouco parecer suficiente.
— E a escola?
Jéssica olhou novamente para o
uniforme.
— A escola pode esperar.
A mãe parou de contar.
— O problema é que a vida também
não espera.
Jéssica baixou os olhos, o
uniforme pareceu pesar mais do que a mochila.
Não houve discurso. Nenhuma frase
bonita seria capaz de pagar uma conta.
Wladimir ficou sabendo do Pé-de-Meia naquela tarde.
Pesquisou, perguntou, levou informações para Jéssica e descobriu que uma
política pública pode parecer abstrata até chegar ao quarto de uma estudante
que está prestes a abandonar os livros para ajudar a pagar as despesas de casa.
Jéssica continuou estudando. Não
porque o dinheiro tivesse resolvido sua vida. Mas porque, por alguns instantes,
o futuro deixou de parecer tão caro.
Na semana seguinte, Wladimir levou outro assunto para a reunião do grupo
que pretendia formar o Grêmio Estudantil. Cotas universitárias. Vinícius quase
caiu da cadeira.
— Lá vem essa história de
privilégio.
— Privilégio para quem?
— Para quem entra pelas cotas. —
Afirmou Vinícius.
Wladimir olhou para ele.
— Você sabe como funciona?
Vinícius hesitou e respondeu:
— Mais ou menos.
— Então vamos discutir depois que
você souber.
Foi uma frase simples. Mas a
escola descobriu que discutir com informação dá mais trabalho do que discutir
com preconceito.
Vieram gráficos. Vieram
histórias. Vieram perguntas. Vieram também brigas.
Um estudante dizia que todos
deveriam competir em condições iguais. Esses não compreendiam ainda que os
ancestrais dos jovens negros e pardos , não receberam nenhuma indenização por
terem construído o Brasil com o trabalho escravo, que a alforria os jogou nas
ruas e pendurados nos morros sem acesso à educação e moradia.Cota é reparação.
Uma menina respondeu:
— O problema é que nem todos
começam do mesmo lugar.
Outro perguntou:
— Então igualdade não serve?
Wladimir respondeu:
— Serve. Mas, às vezes, tratar
desigualmente quem vive em desigualdade é justamente o caminho para produzir
igualdade.
A sala ficou quieta. Vinícius não
concordou. Mas, pela primeira vez, não teve uma resposta pronta. E talvez fosse
exatamente aí que começasse a educação. Não quando alguém aprende a repetir uma
resposta. Mas quando descobre que precisa fazer outra pergunta.
A eleição do Grêmio foi marcada
para uma sexta-feira. Houve duas chapas.
Uma queria organizar festas,
torneios e eventos. A outra, liderada por Wladimir, queria discutir também
biblioteca, inclusão, permanência escolar, racismo, transporte, saúde mental,
acesso à universidade e participação dos estudantes nas decisões da escola.
Um colega disse:
— Vocês estão transformando o
Grêmio em política.
Wladimir respondeu:
— O Grêmio sempre foi política.
Só não perceberam porque confundiram política com partido.
A eleição foi apertada. Wladimir venceu
por poucos votos. Na segunda-feira, descobriu a parte menos romântica da
democracia. As pessoas cobravam. Uma turma queria ar-condicionado. Outra queria
mais livros. Os estudantes do turno da noite reclamavam da iluminação na saída.
Uma aluna cadeirante apontou dificuldades de acessibilidade. Uma menina
denunciou que era interrompida pelos colegas sempre que tentava falar Um grupo
queria discutir racismo. Outro queria discutir violência contra as mulheres. Wladimir
anotava tudo. A folha foi ficando cheia. Percebeu, então, que representar
pessoas era carregar problemas que não eram apenas seus. Naquela noite, chegou
em casa cansado.
A mãe perguntou:
— E aí, presidente?
Wladimir largou a mochila.
— Não sei se quero mais ser
presidente.
Ela sorriu.
— Por quê?
— Porque todo mundo quer alguma
coisa.
— Isso é ruim?
Wladimir pensou antes de responder:
— Não. Só é pesado.
A mãe colocou o café na mesa.
— Então você está aprendendo.
Ele olhou para ela.
— Aprendendo o quê?
— A saber como se sente o filho
de dona Lundu. Que liderança não é mandar nos outros. É aguentar o peso de
ouvir.
Wladimir não respondeu. Guardou
aquela frase. Algumas mães ensinam sem abrir livro.
O Dia do Estudante chegou. A
escola estava cheia. No pátio, havia música, cartazes, apresentações e uma
faixa enorme produzida pelo Grêmio:
“NENHUM
FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.”
A diretora chamou Wladimir para
falar. Ele subiu ao pequeno palco. Olhou para os colegas. Não tinha discurso
pronto. Tinha apenas algumas folhas amassadas.
Começou:
— Ser estudante é uma coisa
estranha.
Alguns riram.
— A gente é cobrado como adulto
e, muitas vezes, tratado como criança. Dizem que somos o futuro, mas nem sempre
perguntam o que precisamos no presente.
O pátio silenciou.
— Falam de educação de qualidade
como se qualidade fosse apenas ter uma boa nota. Mas educação de qualidade
também é ter professor valorizado, escola estruturada, biblioteca funcionando,
acessibilidade, alimentação, permanência e condições para aprender.
Jéssica estava na primeira Wladimir
continuou:
— Falam em igualdade. Mas
igualdade de oportunidade não significa fingir que todos começam do mesmo
lugar. Significa criar condições para que aqueles que historicamente ficaram
para trás também possam chegar.
Vinícius levantou os olhos.Wladimir
o viu.
— As cotas não são o fim da
discussão. São parte de uma tentativa de corrigir desigualdades que não
nasceram ontem. O Pé-de-Meia também não resolve todos os problemas. Mas ajudar
um jovem a permanecer estudando pode significar impedir que uma necessidade de
hoje mate um sonho de amanhã.
Uma professora enxugou
discretamente os olhos. Wladimir respirou.
— E existe uma coisa que ninguém
pode nos dar de presente: a democracia.
Dessa vez, ninguém se mexeu.
— Democracia precisa ser
praticada. Na escola, no Grêmio, na assembleia, na sala de aula, na rua. Ela
começa quando aprendemos a discordar sem transformar o outro em inimigo. Quando
conseguimos ouvir uma ideia que não é nossa. Quando entendemos que o direito de
falar também inclui o direito de ouvir.
Vinícius levantou-se. Alguns
acharam que ele fosse interromper. Ele apenas bateu palmas. Depois vieram os
outros. Wladimir desceu do palco sem saber se havia feito um bom discurso. Talvez
tivesse falado demais. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Mas percebeu uma
coisa. Ninguém havia saído dali pensando exatamente igual. E isso, de certa
maneira, era uma vitória.
No final da tarde, ele encontrou
Vinícius sentado sozinho na arquibancada da quadra.
— Ainda acha que cotas são
privilégio?
Vinícius demorou a responder.
— Ainda tenho dúvidas.
Wladimir sorriu.
— Então estamos avançando.
— Como assim?
— Antes você tinha certeza.
Vinícius soltou uma gargalhada e
falou:
— Você é insuportável.
— Um insuportável Presidente do
Grêmio. — Falou Wladimir.
— Exatamente.
Riram juntos e depois os dois
ficaram em silêncio.
No pátio, Jéssica ajudava a
recolher os cartazes. A faixa da democracia começava a se soltar de uma parede.
Uma ponta caiu sobre o chão e ficou ali, dobrada, cobrindo parcialmente a
palavra futuro.
Wladimir se abaixou. Pegou a
faixa Alisou o papel e depois tornou a prendê-la.
Talvez fosse isso que os
estudantes precisassem aprender. Que algumas coisas não permanecem no lugar
sozinhas. Democracia precisa ser presa novamente quando o vento arranca. Direitos
precisam ser defendidos quando alguém tenta apagá-los. Oportunidades precisam
ser ampliadas quando a desigualdade fecha as portas. E educação precisa ser
muito mais que uma passagem para o mercado de trabalho. Precisa ser passagem
para a dignidade.
Wladimir colocou a última fita
adesiva na parede. Deu dois passos para trás.
Leu novamente:
NENHUM
FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.
Pensou na Jéssica. Pensou em
Vinícius. Pensou nele mesmo. E compreendeu que talvez o Dia do Estudante não
devesse ser apenas uma data para lembrar que existem estudantes. Deveria servir
para lembrar que existem sonhos esperando condições para crescer. Porque
estudante não é apenas aquele que senta numa carteira, copia uma lição e
responde à chamada. Estudante é aquele que aprende a ler o mundo depois de
aprender a ler as palavras. E, quando aprende de verdade, começa a perceber uma
coisa perigosa: o mundo não é uma coisa pronta.
Pode ser questionado. Pode ser
transformado. Pode ser reescrito. Às vezes, a primeira palavra dessa reescrita
é apenas o nome de um estudante.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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