segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Dia do Estudante

 

Wladimir desconfiava de certas palavras.  Democracia era uma delas. Parecia uma palavra grande demais para caber na boca de um estudante que ainda precisava pedir autorização para sair da sala. Havia também cidadania, igualdade, oportunidade, futuro. Palavras bonitas, algumas com cheiro de discurso de formatura, mas que ganhavam outro peso quando atravessavam o portão da escola e encontravam a vida como ela era. Na semana do Dia do Estudante, a diretora pediu que cada turma apresentasse uma sugestão para a comemoração.

A maioria sugeriu música. Alguns pediram campeonato. Um grupo queria liberar o uniforme. Wladimir levantou a mão.

— E se a gente fizer uma assembleia?

A sala ficou em silêncio. Não porque a ideia fosse ruim. Talvez porque assembleia fosse uma palavra que assustasse mais do que prova surpresa. Vinícius, sentado na última carteira, levantou os olhos do celular.

— Assembleia para quê?

— Para os estudantes dizerem o que pensam.

Vinícius riu.

— E desde quando estudante pensa?

Alguns riram,  a turma toda. Wladimir não.

— Desde antes de você aprender a rir.

A gargalhada morreu pela metade. A professora tentou esconder o sorriso. Foi assim que começou. Não com uma bandeira. Não com um discurso. Começou com uma provocação.

Wladimir  tinha dezoito anos e uma coleção de inquietações que não cabia na mochila. Morava longe da escola Padre João Mohana, dividia o quarto com dois irmãos e aprendera cedo que alguns sonhos precisam fazer hora extra para sobreviver.

Queria cursar Direito, mas não lhe agradava a ideia de usar terno . Gostava da ideia de conhecer as leis que tantas vezes pareciam escritas para pessoas que nunca haviam conhecido sua rua Naquela época, ele ainda acreditava que bastava estudar muito. Depois descobriria que estudar muito ajuda. Mas nem sempre basta. Foi Jéssica quem lhe ensinou isso.

Ela era uma das melhores alunas da turma. Lia rápido, escrevia melhor ainda e tinha uma mania de guardar palavras difíceis num caderno como quem colecionava pequenas ferramentas para o futuro.

Um dia, porém, apareceu na escola com os olhos vermelhos.

— Vou sair.

Wladimir  pensou que ela estivesse brincando.

— Sair da escola? — Quis saber Wladimir.

— Minha mãe precisa que eu trabalhe.

Naquela noite, Jéssica chegou em casa e encontrou a mãe sentada à mesa, separando algumas moedas ao lado de uma conta de energia vencida. Havia outras contas dobradas debaixo de um copo, como se esconder o papel pudesse esconder também a dívida. A televisão estava ligada, mas ninguém prestava atenção.

Jéssica deixou a mochila no canto e ficou alguns segundos olhando para o uniforme pendurado atrás da porta. A camisa branca ainda guardava uma pequena mancha de tinta da aula de Português. Passou a mão sobre o tecido.

— Mãe...

A mulher levantou os olhos.

— O que foi?

Jéssica hesitou.

— Acho que vou procurar trabalho.

A mãe não respondeu imediatamente. Continuou separando as moedas, empurrando umas para perto das outras como quem tentava fazer o pouco parecer suficiente.

— E a escola?

Jéssica olhou novamente para o uniforme.

— A escola pode esperar.

A mãe parou de contar.

— O problema é que a vida também não espera.

Jéssica baixou os olhos, o uniforme pareceu pesar mais do que a mochila.

Não houve discurso. Nenhuma frase bonita seria capaz de pagar uma conta.

Wladimir  ficou sabendo do Pé-de-Meia naquela tarde. Pesquisou, perguntou, levou informações para Jéssica e descobriu que uma política pública pode parecer abstrata até chegar ao quarto de uma estudante que está prestes a abandonar os livros para ajudar a pagar as despesas de casa.

Jéssica continuou estudando. Não porque o dinheiro tivesse resolvido sua vida. Mas porque, por alguns instantes, o futuro deixou de parecer tão caro.

Na semana seguinte, Wladimir  levou outro assunto para a reunião do grupo que pretendia formar o Grêmio Estudantil. Cotas universitárias. Vinícius quase caiu da cadeira.

— Lá vem essa história de privilégio.

— Privilégio para quem?

— Para quem entra pelas cotas. — Afirmou Vinícius.

Wladimir olhou para ele.

— Você sabe como funciona?

Vinícius hesitou e respondeu:

— Mais ou menos.

— Então vamos discutir depois que você souber.

Foi uma frase simples. Mas a escola descobriu que discutir com informação dá mais trabalho do que discutir com preconceito.

Vieram gráficos. Vieram histórias. Vieram perguntas. Vieram também brigas.

Um estudante dizia que todos deveriam competir em condições iguais. Esses não compreendiam ainda que os ancestrais dos jovens negros e pardos , não receberam nenhuma indenização por terem construído o Brasil com o trabalho escravo, que a alforria os jogou nas ruas e pendurados nos morros sem acesso à educação e moradia.Cota é reparação.

Uma menina respondeu:

— O problema é que nem todos começam do mesmo lugar.

Outro perguntou:

— Então igualdade não serve?

Wladimir  respondeu:

— Serve. Mas, às vezes, tratar desigualmente quem vive em desigualdade é justamente o caminho para produzir igualdade.

A sala ficou quieta. Vinícius não concordou. Mas, pela primeira vez, não teve uma resposta pronta. E talvez fosse exatamente aí que começasse a educação. Não quando alguém aprende a repetir uma resposta. Mas quando descobre que precisa fazer outra pergunta.

A eleição do Grêmio foi marcada para uma sexta-feira. Houve duas chapas.

Uma queria organizar festas, torneios e eventos. A outra, liderada por Wladimir, queria discutir também biblioteca, inclusão, permanência escolar, racismo, transporte, saúde mental, acesso à universidade e participação dos estudantes nas decisões da escola.

Um colega disse:

— Vocês estão transformando o Grêmio em política.

Wladimir respondeu:

— O Grêmio sempre foi política. Só não perceberam porque confundiram política com partido.

A eleição foi apertada. Wladimir venceu por poucos votos. Na segunda-feira, descobriu a parte menos romântica da democracia. As pessoas cobravam. Uma turma queria ar-condicionado. Outra queria mais livros. Os estudantes do turno da noite reclamavam da iluminação na saída. Uma aluna cadeirante apontou dificuldades de acessibilidade. Uma menina denunciou que era interrompida pelos colegas sempre que tentava falar Um grupo queria discutir racismo. Outro queria discutir violência contra as mulheres. Wladimir anotava tudo. A folha foi ficando cheia. Percebeu, então, que representar pessoas era carregar problemas que não eram apenas seus. Naquela noite, chegou em casa cansado.

A mãe perguntou:

— E aí, presidente?

Wladimir largou a mochila.

— Não sei se quero mais ser presidente.

Ela sorriu.

— Por quê?

— Porque todo mundo quer alguma coisa.

— Isso é ruim?

Wladimir pensou antes de responder:

— Não. Só é pesado.

A mãe colocou o café na mesa.

— Então você está aprendendo.

Ele olhou para ela.

— Aprendendo o quê?

— A saber como se sente o filho de dona Lundu. Que liderança não é mandar nos outros. É aguentar o peso de ouvir.

Wladimir não respondeu. Guardou aquela frase. Algumas mães ensinam sem abrir livro.

O Dia do Estudante chegou. A escola estava cheia. No pátio, havia música, cartazes, apresentações e uma faixa enorme produzida pelo Grêmio:

“NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.”

A diretora chamou Wladimir para falar. Ele subiu ao pequeno palco. Olhou para os colegas. Não tinha discurso pronto. Tinha apenas algumas folhas amassadas.

Começou:

— Ser estudante é uma coisa estranha.

Alguns riram.

— A gente é cobrado como adulto e, muitas vezes, tratado como criança. Dizem que somos o futuro, mas nem sempre perguntam o que precisamos no presente.

O pátio silenciou.

— Falam de educação de qualidade como se qualidade fosse apenas ter uma boa nota. Mas educação de qualidade também é ter professor valorizado, escola estruturada, biblioteca funcionando, acessibilidade, alimentação, permanência e condições para aprender.

Jéssica estava na primeira Wladimir continuou:

— Falam em igualdade. Mas igualdade de oportunidade não significa fingir que todos começam do mesmo lugar. Significa criar condições para que aqueles que historicamente ficaram para trás também possam chegar.

Vinícius levantou os olhos.Wladimir o viu.

— As cotas não são o fim da discussão. São parte de uma tentativa de corrigir desigualdades que não nasceram ontem. O Pé-de-Meia também não resolve todos os problemas. Mas ajudar um jovem a permanecer estudando pode significar impedir que uma necessidade de hoje mate um sonho de amanhã.

Uma professora enxugou discretamente os olhos. Wladimir respirou.

— E existe uma coisa que ninguém pode nos dar de presente: a democracia.

Dessa vez, ninguém se mexeu.

— Democracia precisa ser praticada. Na escola, no Grêmio, na assembleia, na sala de aula, na rua. Ela começa quando aprendemos a discordar sem transformar o outro em inimigo. Quando conseguimos ouvir uma ideia que não é nossa. Quando entendemos que o direito de falar também inclui o direito de ouvir.

Vinícius levantou-se. Alguns acharam que ele fosse interromper. Ele apenas bateu palmas. Depois vieram os outros. Wladimir desceu do palco sem saber se havia feito um bom discurso. Talvez tivesse falado demais. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Mas percebeu uma coisa. Ninguém havia saído dali pensando exatamente igual. E isso, de certa maneira, era uma vitória.

No final da tarde, ele encontrou Vinícius sentado sozinho na arquibancada da quadra.

— Ainda acha que cotas são privilégio?

Vinícius demorou a responder.

— Ainda tenho dúvidas.

Wladimir sorriu.

— Então estamos avançando.

— Como assim?

— Antes você tinha certeza.

Vinícius soltou uma gargalhada e falou:

— Você é insuportável.

— Um insuportável Presidente do Grêmio. — Falou Wladimir.

— Exatamente.

Riram juntos e depois os dois ficaram em silêncio.

No pátio, Jéssica ajudava a recolher os cartazes. A faixa da democracia começava a se soltar de uma parede. Uma ponta caiu sobre o chão e ficou ali, dobrada, cobrindo parcialmente a palavra futuro.

Wladimir se abaixou. Pegou a faixa Alisou o papel e depois tornou a prendê-la.

Talvez fosse isso que os estudantes precisassem aprender. Que algumas coisas não permanecem no lugar sozinhas. Democracia precisa ser presa novamente quando o vento arranca. Direitos precisam ser defendidos quando alguém tenta apagá-los. Oportunidades precisam ser ampliadas quando a desigualdade fecha as portas. E educação precisa ser muito mais que uma passagem para o mercado de trabalho. Precisa ser passagem para a dignidade.

Wladimir colocou a última fita adesiva na parede. Deu dois passos para trás.

Leu novamente:

NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.

Pensou na Jéssica. Pensou em Vinícius. Pensou nele mesmo. E compreendeu que talvez o Dia do Estudante não devesse ser apenas uma data para lembrar que existem estudantes. Deveria servir para lembrar que existem sonhos esperando condições para crescer. Porque estudante não é apenas aquele que senta numa carteira, copia uma lição e responde à chamada. Estudante é aquele que aprende a ler o mundo depois de aprender a ler as palavras. E, quando aprende de verdade, começa a perceber uma coisa perigosa: o mundo não é uma coisa pronta.

Pode ser questionado. Pode ser transformado. Pode ser reescrito. Às vezes, a primeira palavra dessa reescrita é apenas o nome de um estudante.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

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