terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Telas de Sangue e Cores


O cheiro de terebintina impregnava as paredes do minúsculo ateliê nos fundos de uma garagem, um aroma que, para Cecília, era o único suspiro de liberdade em sua rotina sufocante em Fortaleza.

Debaixo de luz pobre da tarde, ela aplicava uma camada generosa de carmim sobre uma tela que já estava quase inteiramente coberta por um emaranhado de formas orgânicas. Não eram apenas flores ou silhuetas femininas; eram vísceras, eram cicatrizes transformadas em paisagens, eram o grito contido de gerações de mulheres cujas histórias haviam sido reduzidas a notas de rodapé nas narrativas da cidade.

Cecília limpou as mãos em um pano encardido e recuou. Seus olhos percorreram a obra, procurando a harmonia que faltava. O rosto na pintura não era belo no sentido acadêmico; era um rosto que carregava a geologia da dor, com traços fundos como erosões e um olhar que parecia enxergar através das normas formais que o curador da Galeria Vanguarda tanto prezava. Naquela manhã, ela havia levado seu portfólio pela terceira vez ao mesmo espaço. O homem por trás da mesa, um sujeito de óculos de armação grossa e um descaso polido, sequer olhara para as telas. Disse-lhe que o seu trabalho era "emocional demais", que faltava "desapego comercial", que Fortaleza estava buscando algo "clean", mais minimalista, menos carregado com o que ele chamava de "perturbação".

Cecília permaneceu alguns segundos em silêncio. Não discutiu. Sabia que certas portas se fechavam antes mesmo de serem abertas.

Abaixou-se e começou a recolher as telas, uma por uma, tomando cuidado para que as tintas ainda úmidas não se tocassem.

Do outro lado da mesa, o curador já voltara os olhos para a tela do computador.

Os dedos corriam pelo teclado. Uma notificação piscou. Depois outra. Ele respondia e-mails como se aqueles quadros nunca tivessem atravessado a porta da galeria.

— Obrigada pelo seu tempo. — Disse Cecília.

Ele apenas inclinou a cabeça, sem levantar os olhos. Nenhuma despedida. Ela ajeitou as telas contra o peito e caminhou em direção à saída. Quando já alcançava a porta de vidro, ouviu uma voz baixa atrás do balcão da recepção. Era a jovem que organizava catálogos e servia café aos visitantes. A moça esperou o curador atender ao telefone. Então falou quase num sussurro:

— Moça...

Cecília voltou-se. A funcionária sorriu com certa timidez.

— Eu gostei daquela mulher dourada.

Por um instante, ninguém disse mais nada. Cecília apenas sorriu de volta. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Depois saiu para o calor da rua. Lá fora, Fortaleza continuava indiferente. Dentro dela, porém, uma certeza acabava de nascer. Nem toda obra precisa convencer quem vende arte. Às vezes, basta encontrar alguém que realmente a veja.

Ele não via as telas; ele via o risco que o feminino, em sua forma mais crua, representava naquele ambiente asséptico.

Cecília mergulhou o pincel no azul-cobalto. O desdém do galerista, em vez de feri-la, servia como combustível. Resistir, para ela, não era apenas segurar o pincel; era recusar-se a pintar o que eles queriam consumir. Enquanto a cidade lá fora fritava sob um sol branco, o ateliê mantinha a temperaturade um santuário.

Ela aplicava camadas de tinta com a intensidade de um duelo. Cada pincelada era uma resposta a um mundo que insistia em ignorar a profundidade da ferida feminina, tentando sempre transformar a complexidade em um objeto decorativo, inofensivo e mudo para pendurar em salas de estar de luxo.

O feminino em sua arte não era uma ode à fragilidade, mas uma arqueologia da sobrevivência.

Ela pintava o sangue que escorre no cotidiano, a beleza que brota na resistência, a urgência de ser vista sem precisar ser domesticada. Se a galeria insistia em ignorá-la, ela pintaria telas ainda arte impossível de não ser notada, uma presença que incomodasse pela verdade que carregava.

Quando a noite caiu, e o calor da capital finalmente cedeu espaço a uma brisa salobra vinda do porto, Cecília terminou o detalhe final: linhas finas de um dourado quase incandescente que percorriam o rosto da figura central, como se a própria ferida estivesse sendo selada com luz.

Cecília largou o pincel dentro do copo de vidro já manchado por dezenas de misturas antigas. Deu dois passos para trás. Observou a tela em silêncio.

As linhas douradas capturavam a luz da única lâmpada do ateliê e pareciam respirar sobre a tinta ainda úmida.

Foi então que alguém bateu de leve na porta de madeira. Três toques curtos.

Ela sorriu consigo mesma. Por um instante, imaginou que pudesse ser alguém interessado em comprar um quadro. Enxugou rapidamente as mãos no avental e abriu a porta. Era apenas a menina da casa vizinha. Devia ter uns nove anos. Segurava uma boneca sem um dos braços e olhava para dentro do ateliê com uma curiosidade sem vergonha.

— Posso ver?

Cecília abriu mais a porta. A menina entrou devagar e caminhou até a tela permanecendo alguns segundos completamente imóvel. Seus olhos percorriam o vermelho, o azul profundo e, por fim, as delicadas linhas douradas que atravessavam o rosto da mulher pintada. Sem desviar o olhar, perguntou:

— Foi você quem fez?

Cecília sorriu.

— Foi.a

A menina ficou mais um instante em silêncio. Depois abriu um sorriso largo.

— Quando eu crescer, quero pintar gente assim.

Ela apontou para a tela. Não esperou resposta. Apenas saiu correndo de volta para a rua, onde a noite já espalhava o cheiro salgado trazido pelo vento. Cecília permaneceu parada à porta. Olhou outra vez para a pintura. Depois para o caminho por onde a menina desaparecera.

Talvez o primeiro reconhecimento verdadeiro de uma obra não acontecesse diante das paredes brancas de uma galeria. Talvez começasse exatamente ali, num pequeno ateliê escondido nos fundos de uma garagem, quando alguém descobria que a arte também podia lhe ensinar um sonho.

Ela apagou a luz. Mesmo na penumbra, o dourado da tela ainda parecia aceso.

José Casanova

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