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domingo, 23 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Tijolo por Tijolo

O entardecer ainda tingia Fortaleza de dourado quando o fogo rompeu o silêncio. As labaredas ergueram-se rápidas, alaranjadas e impiedosas, engolindo, uma a uma, as paredes da casa de dona Zilda e tudo o que nelas ainda respirava em memória. A estrutura de madeira compensada e telhas de fibrocimento, que ela levara uma vida inteira para erguer, torceu-se e cedeu em menos de uma hora, deixando apenas um amontoado de brasas e o cheiro insuportável de borracha e madeira queimada. Quando o fogo finalmente silenciou, o que sobrou foi o desamparo total: Zilda sentada no chão de terra batida, o rosto pintado de fuligem, segurando apenas um retrato de família que escapara por milagre.

Não houve tempo para luto. A notícia correu a favela com a velocidade das fofocas, mas não veio acompanhada de piedade,  veio com a urgência da ação.

Em menos de vinte minutos, o pátio da comunidade estava cheio de mulheres. Não havia cargos oficiais, nem diretórios, nem planos de governo; havia ali uma rede viva, forjada no convívio diário das filas do posto de saúde e na partilha da mesma carência.

— Levanta, Zilda. Chorar não põe telhado em cima da cabeça ! — Disse Tereza, mulher de braços fortes que, sem pedir licença, tomou o retrato das mãos da amiga e o colocou num lugar seguro.

A reconstrução começou antes mesmo de os bombeiros encerrarem o rescaldo. A solidariedade, naquele recanto de Fortaleza, nunca foi uma teoria abstrata; era uma necessidade mecânica de sobrevivência. Naquela mesma noite, enquanto os homens da vila ainda discutiam como salvar os restos dos móveis, as mulheres já haviam montado uma força-tarefa. Maria, a dona do armazém da esquina, abriu o estoque e liberou tijolos e sacos de cimento que mantinha como reserva. Joana, cuja casa já era pequena demais para seus seis filhos, trouxe metade de sua própria estrutura de madeira para garantir que Zilda tivesse onde se abrigar até a alvenaria subir.

O mutirão seguiu pelos dias seguintes sob um calor que parecia tentar puni-las por ousar desafiar a miséria. Cada tijolo colocado era um exercício de partilha. Elas se revezavam no comando da mistura de argamassa, sob o comando da voz firme de dona Zilda, que, apesar da dor, agora dirigia a obra com a autoridade de quem sabia que sua dignidade estava sendo restaurada tijolo por tijolo. Não era uma construção profissional, mas era a mais sólida das estruturas: cada liga de cimento ali continha o suor emprestado de vizinhas que sacrificavam o pouco tempo de descanso após jornadas duplas de trabalho braçal.

Enquanto empilhavam os blocos, as conversas não eram sobre a tragédia da perda, mas sobre o futuro.

Elas falavam da merenda dos filhos, dos preços da feira, da próxima reunião da associação de moradores. A reconstrução da casa era, na verdade, a reconstrução do tecido social que as mantinha de pé. Ali, em meio ao pó e ao barulho das colheres de pedreiro, elas reafirmavam a premissa de sua existência naquele território: ali, ninguém cai sozinho, porque a queda de uma é o chamado para que todas se ergam.

No fim da tarde do penúltimo dia de trabalho, quando as últimas fiadas de tijolos começavam a ganhar altura, o céu de Fortaleza escureceu de repente. Um vento quente atravessou o terreno, levantando a poeira e espalhando sacos vazios de cimento pelo quintal.

— A chuva vem forte! — Gritou Joana, olhando para o horizonte.

As primeiras gotas caíram pesadas, abrindo pequenas crateras na argamassa ainda fresca. Por um instante, ninguém falou. Bastaria um temporal para desfazer em poucos minutos o esforço de vários dias. Foi Tereza quem reagiu primeiro.

— Não deixem essas paredes caírem!

Sem hesitar, as mulheres correram. Umas seguravam lonas sobre a alvenaria recém-erguida; outras escoravam as paredes com tábuas improvisadas. Maria empilhava tijolos na base dos plásticos para impedir que o vento os arrancasse. Encharcadas, cobertas de barro e cimento, elas formaram uma barreira humana em torno da casa, protegendo cada parede como quem protege alguém da própria família.

Quando a chuva finalmente cessou, a estrutura permanecia de pé. Ninguém comemorou.

Apenas voltaram ao trabalho, como se vencer tempestades também fizesse parte da rotina de quem aprendera a reconstruir a vida muitas vezes.

Quando o último tijolo foi posicionado e o telhado básico foi finalmente fixado, não houve cerimônia.

Zilda entrou no espaço nu, ainda cheirando a cimento fresco. Ela olhou para as paredes feitas com tijolos doados, cimento emprestado e tempo roubado das fadigas diárias. O espaço não era luxuoso, não tinha reboco, mas era o lugar mais seguro do mundo.

Caminhou devagar pelo pequeno cômodo ainda vazio. Em um canto, envolvido por um pano para protegê-lo da poeira da obra, estava o retrato de família que escapara das chamas. Ela o segurou com cuidado, como quem reencontra um pedaço de si que o fogo não conseguira alcançar.

Procurou um prego esquecido entre os restos de madeira, apoiou uma pequena banqueta contra a parede recém-erguida e, com movimentos lentos, pendurou o retrato acima da porta.

Afastou-se alguns passos. As paredes ainda estavam ásperas, sem reboco, e o cheiro do cimento fresco dominava o ambiente. Mas aquele retrato devolvia à casa algo que nenhum mutirão seria capaz de construir: a memória.

Zilda sorriu discretamente. Naquele instante, compreendeu que elas não haviam levantado apenas paredes. Haviam devolvido um endereço às lembranças e um futuro à esperança.

Tereza aproximou-se, limpando o rosto sujo de pó, e entregou a Zilda uma xícara de café quente. Elas se olharam, e não foi preciso agradecer. O agradecimento ali seria uma formalidade inútil, quase uma ofensa àquela aliança. Elas sabiam que, caso o fogo visasse a próxima porta, o resultado seria exatamente o mesmo.

 Naquele momento, sob aquela estrutura que haviam erguido com a força do coletivo, elas compreenderam que a pobreza pode até levar o patrimônio, mas nunca será párea para a solidariedade de mulheres que entendem que, quando a vida as desafia à destruição, a resposta mais potente é sempre a construção  tijolo por tijolo, mão por mão, irmandade fortalecida na certeza de que a moradia, assim como a amizade, é algo que se mantém de pé não apenas pela liga do cimento, mas pelo laço indestrutível de quem decide ser o arrimo alheio quando o mundo inteiro, lá fora, prefere ignorar que ali existe gente tentando sobreviver.

José Casanova 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA:O Jaleco e o Coração


O corredor do setor de oncologia do hospital em Fortaleza tinha um cheiro peculiar, uma mistura de antissépticos cítricos e o odor metálico e seco da esperança que se esgota. Dra. Clara ajustou o jaleco, prendendo o estetoscópio ao redor do pescoço com um gesto mecânico. Havia uma linha tênue, quase  invisível, entre o profissionalismo que a ciência exigia e o abismo emocional que cada prontuário carregava. Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, processando o protocolo que estava prestes a entregar para a paciente do leito 402: um estágio avançado, uma metástase que rastejava pelo corpo com a crueldade que só o câncer conhecia.

Entrar naquele quarto era entrar em um território onde as palavras de ordem não eram "cura" ou "dose", mas "acolhimento". Dona Vilma, uma professora aposentada que ainda guardava o hábito de corrigir a gramática dos enfermeiros, aguardava com o olhar fixo na janela por onde se via o sol estalando nos coqueiros da orla.

— Doutora. — Disse ela, com a voz embargada pela secura dos quimioterápicos.  — Eu não quero saber quanto tempo me resta. Quero saber se vou conseguir ir ao aniversário da minha neta no próximo sábado.

Clara sentou-se na cadeira de plástico, ignorando a postura ereta que a medicina a ensinara a manter para impor autoridade. Ela não era autoridade ali; era uma testemunha.

— Nós vamos ajustar a medicação de suporte para controlar a dor e o edema, Dona Vilma. Não vou mentir: o esforço é grande. Mas se o seu desejo é estar lá, nós faremos desse seu desejo o nosso objetivo clínico para esta semana.

Ciência e empatia não eram polos opostos no consultório de Clara; eram, na verdade, as duas pernas sobre as quais caminhava sua prática. Havia quem dissesse que se envolver demais era um erro fatal para o médico, um desgaste que levava ao esgotamento. Clara, contudo, achava o oposto: era a frieza que exauria. O custo de ser humano não era nada comparado ao custo de se tornar um autômato de jaleco branco, ignorando as cicatrizes na alma de quem enfrentava o fim.

O dia seguiu num fluxo de decisões técnicas: protocolos de infusão, ajustes de morfina, pedidos de exames. Em cada etapa, ela era confrontada com a finitude. Fortaleza, lá fora, seguia seu passo frenético, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, o tempo tinha uma régua diferente. Ela viu mulheres que, diante da sentença de morte, redescobriram artes, perdões e vozes que haviam calado por décadas.

Certa manhã, ao entrar em um dos quartos, Clara encontrou sobre a mesa de cabeceira uma folha de papel coberta por pinceladas de aquarela. Era um desenho simples: um jardim, uma casa de janelas azuis e duas crianças correndo de mãos dadas. Ao lado, repousava um pincel ainda úmido.

— Foi a senhora quem pintou? — Perguntou Clara, aproximando-se.

A paciente sorriu com um brilho sereno nos olhos.

— Voltei a pintar depois de quarenta anos. Achei que nunca mais teria tempo. Engraçado... precisei descobrir que o tempo era curto para lembrar do que eu amava fazer.

Clara permaneceu alguns instantes olhando o desenho. Não havia ali qualquer técnica extraordinária. Havia vida. Havia memória transformada em cor.

Antes de deixar o quarto, a paciente acrescentou, quase num sussurro:

— Se eu não conseguir terminar este quadro, minha filha termina por mim. O importante é que ele já começou.

Clara saiu em silêncio, levando consigo a certeza de que existiam curas que não apareciam nos exames nem cabiam nos prontuários. Viu famílias se despedaçarem e outras se unirem com uma força que nenhuma tomografia era capaz de captar.

Já ao fim da tarde, Clara encontrou um momento de paz na copa do setor. O cansaço físico era uma torrente, mas sua mente estava voltada para uma paciente jovem, cujo diagnóstico chegara na semana anterior. O dilema era constante: quanto da dor do outro ela devia carregar para casa? Havia um limite para a humanização quando os recursos da ciência se mostravam insuficientes?

Ela lembrou-se das palavras de uma preceptora, anos atrás: "A medicina cura às vezes, alivia frequentemente e consola sempre". Consolar, percebeu ela, não era dar respostas, mas simplesmente estar presente quando as respostas já não existiam mais. Não era sobre prolongar a vida por um mês a qualquer preço, mas sobre dar qualidade ao sopro que restava.

Ao sair do hospital, o sol de Fortaleza já descia, pintando o céu em tons de brasas. Clara caminhou até o estacionamento sentindo o peso do jaleco, que parecia mais pesado do que quando chegara pela manhã. Era o peso das histórias que ela abrigava, das lágrimas que secou e das mãos que segurou nos instantes finais. Ela percebeu que sua profissão não era apenas sobre deter a morte; era sobre garantir que, durante o tempo que houvesse, a dignidade fosse a norma.

Ela entrou no carro e, por um momento, permaneceu parada, olhando para a estrutura do hospital que se espelhava no vidro.

Ela acomodou a bolsa no banco do passageiro, colocou a chave na ignição e girou-a apenas o suficiente para acender o painel. O motor, porém, permaneceu em silêncio. Seus olhos pousaram sobre uma folha de papel presa sob o para-sol.

Era um desenho antigo, já um pouco amassado nas bordas pelo tempo.  Uma casa de telhado vermelho, um sol enorme ocupando quase metade da folha e, ao lado de uma mulher de jaleco branco, uma criança de mãos dadas com ela. No canto, escrito com letras irregulares, havia apenas:

"Para a doutora Clara."

Ela retirou o papel com cuidado, como quem toca uma lembrança que ainda respira. Observou o desenho durante alguns segundos. Um sorriso discreto lhe atravessou o rosto. Não havia fotografias, notícias ou qualquer outra lembrança que explicasse o destino daquela criança. Apenas aquele pedaço de papel que o tempo insistira em preservar.

Clara passou delicadamente os dedos sobre a dobra da folha, respirou fundo e tornou a guardá-la no mesmo lugar. Só então ligou o carro. Enquanto o motor despertava, ela compreendeu que alguns pacientes deixavam o hospital levando parte do tratamento. Outros, sem perceber, deixavam com ela pequenos fragmentos de humanidade que nenhuma faculdade ensinava a acolher e que nenhum jaleco conseguia esconder.

A ciência era a ferramenta, o bisturi, o fármaco, a tecnologia de ponta; mas o coração era o único instrumento capaz de traduzir aquela técnica em conforto. Amanhã haveria outros leitos, outros nomes, outros diagnósticos. Mas, por hoje, ela fizera o seu melhor, não apenas como oncologista que monitorava células malignas, mas como alguém que entendia que, no delicado limiar entre o jaleco e o coração, a medicina atingia seu ápice não quando derrotava a morte, mas quando conseguia, finalmente, olhar nos olhos de quem partia e validar a beleza do que foi vivido.

José Casanova 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Telas de Sangue e Cores


O cheiro de terebintina impregnava as paredes do minúsculo ateliê nos fundos de uma garagem, um aroma que, para Cecília, era o único suspiro de liberdade em sua rotina sufocante em Fortaleza.

Debaixo de luz pobre da tarde, ela aplicava uma camada generosa de carmim sobre uma tela que já estava quase inteiramente coberta por um emaranhado de formas orgânicas. Não eram apenas flores ou silhuetas femininas; eram vísceras, eram cicatrizes transformadas em paisagens, eram o grito contido de gerações de mulheres cujas histórias haviam sido reduzidas a notas de rodapé nas narrativas da cidade.

Cecília limpou as mãos em um pano encardido e recuou. Seus olhos percorreram a obra, procurando a harmonia que faltava. O rosto na pintura não era belo no sentido acadêmico; era um rosto que carregava a geologia da dor, com traços fundos como erosões e um olhar que parecia enxergar através das normas formais que o curador da Galeria Vanguarda tanto prezava. Naquela manhã, ela havia levado seu portfólio pela terceira vez ao mesmo espaço. O homem por trás da mesa, um sujeito de óculos de armação grossa e um descaso polido, sequer olhara para as telas. Disse-lhe que o seu trabalho era "emocional demais", que faltava "desapego comercial", que Fortaleza estava buscando algo "clean", mais minimalista, menos carregado com o que ele chamava de "perturbação".

Cecília permaneceu alguns segundos em silêncio. Não discutiu. Sabia que certas portas se fechavam antes mesmo de serem abertas.

Abaixou-se e começou a recolher as telas, uma por uma, tomando cuidado para que as tintas ainda úmidas não se tocassem.

Do outro lado da mesa, o curador já voltara os olhos para a tela do computador.

Os dedos corriam pelo teclado. Uma notificação piscou. Depois outra. Ele respondia e-mails como se aqueles quadros nunca tivessem atravessado a porta da galeria.

— Obrigada pelo seu tempo. — Disse Cecília.

Ele apenas inclinou a cabeça, sem levantar os olhos. Nenhuma despedida. Ela ajeitou as telas contra o peito e caminhou em direção à saída. Quando já alcançava a porta de vidro, ouviu uma voz baixa atrás do balcão da recepção. Era a jovem que organizava catálogos e servia café aos visitantes. A moça esperou o curador atender ao telefone. Então falou quase num sussurro:

— Moça...

Cecília voltou-se. A funcionária sorriu com certa timidez.

— Eu gostei daquela mulher dourada.

Por um instante, ninguém disse mais nada. Cecília apenas sorriu de volta. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Depois saiu para o calor da rua. Lá fora, Fortaleza continuava indiferente. Dentro dela, porém, uma certeza acabava de nascer. Nem toda obra precisa convencer quem vende arte. Às vezes, basta encontrar alguém que realmente a veja.

Ele não via as telas; ele via o risco que o feminino, em sua forma mais crua, representava naquele ambiente asséptico.

Cecília mergulhou o pincel no azul-cobalto. O desdém do galerista, em vez de feri-la, servia como combustível. Resistir, para ela, não era apenas segurar o pincel; era recusar-se a pintar o que eles queriam consumir. Enquanto a cidade lá fora fritava sob um sol branco, o ateliê mantinha a temperaturade um santuário.

Ela aplicava camadas de tinta com a intensidade de um duelo. Cada pincelada era uma resposta a um mundo que insistia em ignorar a profundidade da ferida feminina, tentando sempre transformar a complexidade em um objeto decorativo, inofensivo e mudo para pendurar em salas de estar de luxo.

O feminino em sua arte não era uma ode à fragilidade, mas uma arqueologia da sobrevivência.

Ela pintava o sangue que escorre no cotidiano, a beleza que brota na resistência, a urgência de ser vista sem precisar ser domesticada. Se a galeria insistia em ignorá-la, ela pintaria telas ainda arte impossível de não ser notada, uma presença que incomodasse pela verdade que carregava.

Quando a noite caiu, e o calor da capital finalmente cedeu espaço a uma brisa salobra vinda do porto, Cecília terminou o detalhe final: linhas finas de um dourado quase incandescente que percorriam o rosto da figura central, como se a própria ferida estivesse sendo selada com luz.

Cecília largou o pincel dentro do copo de vidro já manchado por dezenas de misturas antigas. Deu dois passos para trás. Observou a tela em silêncio.

As linhas douradas capturavam a luz da única lâmpada do ateliê e pareciam respirar sobre a tinta ainda úmida.

Foi então que alguém bateu de leve na porta de madeira. Três toques curtos.

Ela sorriu consigo mesma. Por um instante, imaginou que pudesse ser alguém interessado em comprar um quadro. Enxugou rapidamente as mãos no avental e abriu a porta. Era apenas a menina da casa vizinha. Devia ter uns nove anos. Segurava uma boneca sem um dos braços e olhava para dentro do ateliê com uma curiosidade sem vergonha.

— Posso ver?

Cecília abriu mais a porta. A menina entrou devagar e caminhou até a tela permanecendo alguns segundos completamente imóvel. Seus olhos percorriam o vermelho, o azul profundo e, por fim, as delicadas linhas douradas que atravessavam o rosto da mulher pintada. Sem desviar o olhar, perguntou:

— Foi você quem fez?

Cecília sorriu.

— Foi.a

A menina ficou mais um instante em silêncio. Depois abriu um sorriso largo.

— Quando eu crescer, quero pintar gente assim.

Ela apontou para a tela. Não esperou resposta. Apenas saiu correndo de volta para a rua, onde a noite já espalhava o cheiro salgado trazido pelo vento. Cecília permaneceu parada à porta. Olhou outra vez para a pintura. Depois para o caminho por onde a menina desaparecera.

Talvez o primeiro reconhecimento verdadeiro de uma obra não acontecesse diante das paredes brancas de uma galeria. Talvez começasse exatamente ali, num pequeno ateliê escondido nos fundos de uma garagem, quando alguém descobria que a arte também podia lhe ensinar um sonho.

Ela apagou a luz. Mesmo na penumbra, o dourado da tela ainda parecia aceso.

José Casanova

sexta-feira, 31 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Hábito e a Rua


O vento que sopra em Fortaleza, mesmo na calada da noite, nunca é frio o suficiente para abrandar o asfalto quente da Praia de Iracema. Irmã Helena ajustou o hábito, tentando disfarçar o desconforto com a rigidez do tecido diante da umidade salina que colava a veste ao corpo. O hábito branco, que deveria representar a pureza e a ordem, parecia, sob a luz alaranjada dos postes, uma bandeira de rendição em meio ao caos da madrugada.


Atrás da Catedral, onde as sombras são mais longas, ela encontrou Antônia. Ou o que restava de Antônia. A mulher estava encolhida sobre um pedaço de papelão, os joelhos encostados no peito, os dedos encardidos de fuligem segurando um frasco vazio de cola. Helena ajoelhou-se no chão, manchando a barra do hábito sem hesitar. Sua fé, que antes encontrava refúgio nas orações entoadas no silêncio da capela de Nossa Senhora da Penha, ali se tornava uma faca de dois gumes. Como falar de um plano divino para alguém que sequer tinha certeza de que sobreviveria à névoa da próxima hora?

— Antônia, filha, vamos lá para o abrigo. A noite está perigosa. — Disse Helena, a voz baixa para não despertar a desconfiança da mulher. Antônia levantou os olhos, dois círculos injetados de desamparo. Ela deu um riso seco, que logo se transformou em um acesso de tosse profunda, que parecia arrancar pedaços do seu pulmão.

— O seu Deus também esqueceu de mim aqui, irmã. Por que a senhora não vai lá rezar no seu altar de ouro e me deixa em paz? — A pergunta não tinha ódio, apenas a exaustão absoluta de quem já não esperava nada de ninguém.

Helena sentiu um abismo se abrir sob seus pés. Ela havia estudado teologia, passara anos em retiros silenciosos, mas o seminário não incluía manuais sobre como converter a fome em esperança. A dualidade a golpeava: de um lado, a crença absoluta de que cada vida era sagrada; do outro, a evidência brutal de que a sociedade havia decidido que Antônia era um custo, uma falha, um detalhe descartável na paisagem urbana.

— Eu não rezo por você porque a senhora está esquecida, Antônia. Eu rezo por mim, para que eu tenha forças para não virar as costas quando o seu nome for cuspido pelos outros. — Helena respondeu, estendendo a mão.

O dilema moral pesava mais que o terço no bolso.

Se ela levasse Antônia para o abrigo, teria que enfrentar as regras do convento, o controle rígido de horários, as críticas silenciosas de outras irmãs que viam na marginalidade uma mácula que não deveria cruzar os portões da instituição. A fé, que deveria ser um consolo, tornava-se ali uma arena de combate. Helena questionava se a caridade, quando limitada por muros e burocracias, ainda mantinha sua essência ou se tornava apenas mais uma forma de gestão da pobreza.

Antônia, com um esforço sobre-humano, colocou a mão sobre a de Helena. A pele era fina, quase transparente. Eram duas mulheres à margem: uma, pela escolha do celibato e da dedicação ascética; a outra, pelo completo descarte social. A freira sentiu o tremor daquela mão e o dilema se dissolveu em um único imperativo: o momento presente.

Elas caminharam em silêncio de volta. Passaram por grupos de jovens com roupas caras, por turistas que desviavam o olhar como se a visibilidade da miséria pudesse ser contagiosa. Helena guiava o passo daquela mulher com uma reverência que dedicaria a um círio pascal. Ao chegarem ao portão do abrigo, ela sentiu o peso dos olhares das outras irmãs que observavam da janela.

A fé, para Helena, deixou de ser um dogma a ser recitado e passou a ser o peso daquele corpo que ela ajudava a carregar. Ao colocá-la na cama limpa, enquanto Antônia tremia sob os cobertores, a freira percebeu que o hábito que vestia nada significava se não servisse para esconder as feridas de quem a sociedade preferia não ver. Ela fechou a porta, não para aprisionar Antônia, mas para proteger aquela pequena humanidade contra o mundo lá fora.

Naquela noite, a oração foi breve. Ela percebeu que, nas ruas de Fortaleza, a verdadeira liturgia não mora no altar, mas no ato perigoso e subversivo de se ajoelhar no chão frio para estender a mão a que já não tem mais nada para oferecer além da própria dor.

José Casanova

domingo, 15 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Virgula do Destino



A luz do abajur, um círculo amarelo e artificial, era o único sol que iluminava o pequeno escritório de Otávio Filho em Fortaleza. Do lado de fora, a cidade pulsava com suas praias e vida noturna, mas ali dentro, o tempo corria em outra frequência, ditada pelo ritmo das frases alheias. Otávio não era escritor; era revisor. Sua função era limpar a bagunça deixada pelos criadores, varrer o excesso de vírgulas, podar advérbios e alinhar a sintaxe torta de quem acreditava que inspiração dispensava gramática.

Sobre a mesa de fórmica gasta, pilhas de redações do terceiro ano do ensino médio da escola Joaquim Nogueira aguardavam seu julgamento. O tema da semana fora "O Futuro da Comunicação na Era Digital". Um prato cheio para clichês sobre "conectividade", "globalização" e a indefectível citação de Bauman sobre a "modernidade líquida". Otávio suspirou, a caneta vermelha pairando sobre a folha pautada de um aluno chamado Jonas.

A letra era miúda, quase microscópica, como se o garoto quisesse economizar tinta ou esconder o conteúdo. Otávio ajustou os óculos e começou a ler.

"A língua não vai morrer; ela vai apenas perder o corpo."

Otávio parou. A frase inicial não tinha erros. A concordância estava perfeita. A crase, ausente, estava correta. Mas havia algo no tom que o incomodou. Continuou.

"Nós não falaremos mais. Nós apenas pensaremos em ícones. A palavra escrita será um luxo de arqueólogos. O sujeito desaparecerá, restando apenas o predicado da ação pura. Verbo sem carne."

Um arrepio frio percorreu a espinha de Otávio, apesar do calor abafado da noite cearense. Aquilo não parecia uma redação escolar. Parecia uma profecia. Ele seguiu o texto, procurando obsessivamente por um erro, um deslize, uma vírgula fora do lugar que o trouxesse de volta à segurança de sua função de corretor.

Encontrou-a no terceiro parágrafo.

"A vírgula, será a primeira a cair."

Otávio circulou o erro com força, quase rasgando o papel. Uma vírgula separando o sujeito do predicado. O pecado capital da sintaxe. O crime inafiançável. Ele sorriu, aliviado. Ali estava a prova de que Jonas era apenas um estudante confuso, tentando soar profundo. Em crime que até os grandes escritores comentem.

Mas então, ele releu a frase anterior: "O silêncio será a gramática final." E logo depois do erro gritante: "A pausa não será mais necessária porque o fluxo será contínuo. A vírgula é o soluço da dúvida. No futuro, não haverá dúvida. Apenas dados."

Otávio largou a caneta. A vírgula "errada" não era um erro. Era uma demonstração. Jonas havia colocado a vírgula ali de propósito, para ilustrar a "pausa" que ele dizia estar condenada. Era uma metalinguagem brutal, aplicada por um adolescente de dezessete anos.

O revisor sentiu-se tonto. Ele dedicara a vida a preservar a norma culta, a lutar contra o gerundismo e a defender a colocação pronominal. E agora, diante daquele papel barato, sentia que estava defendendo um castelo de areia contra a maré alta. Se o futuro da língua era a fluidez absoluta, o dado puro, sua profissão de jardineiro de frases estava com os dias contados.

Ele continuou lendo, agora não mais como revisor, mas como uma testemunha aterrorizada.

"Os emojis são os hieróglifos do amanhã. Voltaremos às cavernas, desenhando nas paredes luminosas das telas. A complexidade da oração subordinada morrerá porque o cérebro não suportará a espera pelo sentido. Tudo será frase simples. Sujeito, verbo, objeto. E depois, apenas verbo. E depois, apenas imagem."

Otávio olhou para as estantes ao seu redor, repletas de gramáticas, dicionários e clássicos da literatura. Eram túmulos. Túmulos de papel onde repousavam regras que ninguém mais respeitaria. Ele pegou a caneta vermelha novamente, mas sua mão tremia. Corrigir aquela redação parecia um ato de vandalismo contra um oráculo.

No final da página, Jonas havia escrito:

"Professor, não corrija o que não tem conserto. A língua está mudando de estado físico. Ela está virando gás. Tentar segurá-la com regras é tentar prender fumaça com as mãos."

Otávio fechou os olhos. A imagem da fumaça era precisa demais. Ele passou a vida tentando engarrafar fumaça, colocar rótulos em nuvens. A obsessão pela correção, percebeu ele com uma clareza dolorosa, era apenas medo do caos. A gramática era a grade que ele construíra para se proteger da imprevisibilidade da vida.

Ele olhou para a vírgula circulada em vermelho. A "vírgula do destino". Ela estava ali, desafiadora, separando o sujeito do predicado, quebrando a regra sagrada, e no entanto, fazendo todo o sentido do mundo dentro da lógica do texto. Aquela vírgula não era um erro; era um grito de resistência. Era a última pausa antes do fluxo contínuo e avassalador que Jonas previa.

Otávio pegou o corretivo líquido, o famigerado "branquinho", e, com uma delicadeza cerimonial, cobriu o círculo vermelho que fizera. Deixou a vírgula intacta. Deixou o erro brilhar em sua insolência profética.

Guardou a redação na pasta, separada das outras. Não daria nota. Não havia nota para o fim do mundo como o conhecíamos. Apagou a luz do abajur e ficou no escuro, ouvindo o som distante do trânsito de Fortaleza. O ruído constante, sem pausas, sem vírgulas. O som do futuro chegando. E pela primeira vez em anos, Otávio Filho não sentiu vontade de corrigir nada. Apenas escutou, tentando decifrar a nova gramática que nascia no caos lá fora, enquanto sua caneta vermelha dormia, inútil, sobre a mesa.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





quinta-feira, 5 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Vinte e Quatro Horas de Fortaleza: O Amor sem Pausas



O despertador de Teresa Cristina não precisa de som. Às quatro e meia da manhã, o silêncio do bairro de Messejana, em Fortaleza, é quebrado pelo primeiro espasmo de Tiago no quarto ao lado. Teresa desperta instantaneamente, como se um fio invisível ligasse seu sistema nervoso ao do filho de dez anos. Tiago nasceu com paralisia cerebral e um diagnóstico severo de autismo, uma combinação que faz de cada segundo da vida de sua mãe um exercício de vigília absoluta.

Ela se levanta antes que o sol invada as frestas da janela. A primeira tarefa das suas vinte e quatro horas é a higiene de Tiago. O manejo exige força física e uma delicadeza infinita. Teresa, uma mulher miúda cujas mãos carregam calos de anos levantando um corpo que não lhe oferece sustentação, realiza a troca de fraldas e o banho com a precisão de um ritual sagrado.

— Bom dia, meu príncipe. O sol já vai aparecer. — Sussurra ela, embora Tiago responda apenas com um olhar vago e um leve estalo de língua. Para ela, aquele estalo é um bom-dia completo.

Às seis horas, começa a alquimia da cozinha. A dieta de Tiago é restrita, pastosa, calculada para evitar engasgos e crises alérgicas. Entre bater o liquidificador e conferir as dosagens das medicações anticonvulsivas, Teresa engole uma xícara de café frio, em pé, olhando para o relógio de parede. O tempo para uma mãe cuidadora em Fortaleza não corre; ele fustiga.

O deslocamento para a primeira terapia, no centro da cidade, é um capítulo aparte de resistência urbana. O ônibus de integração é um território de batalhas. Teresa precisa manobrar a cadeira de rodas pesada, lidar com as rampas hidráulicas que frequentemente quebram e, o que é pior, com os suspiros de impaciência dos outros passageiros que veem no embarque de Tiago um atraso para seus próprios destinos.

— Mais rápido, dona, tem gente com pressa! — Grita um homem no fundo do coletivo.

Teresa não olha para trás. Ela aprendeu a ensurdecer para o desrespeito. Sua energia é finita e ela não a desperdiçará com quem não consegue enxergar a montanha que ela sobe todos os dias carregando o filho no asfalto quente da capital cearense.

A manhã é uma sucessão de salas de espera: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional. Enquanto Tiago está dentro dos consultórios, Teresa não descansa. Ela usa o Wi-Fi da clínica para pesquisar recursos judiciais, responder mensagens no grupo das "Mães de Luta" e tentar organizar a papelada do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que o governo insiste em burocratizar. Sua mente é um escritório jurídico e uma clínica médica funcionando em paralelo.

Ao meio-dia, o calor de Fortaleza atinge o ápice. O asfalto parece exalar fogo. Teresa busca uma sombra perto do Hospital Infantil para dar o almoço a Tiago. Ela usa uma seringa para hidratá-lo, gota a gota, com a paciência de quem sabe que o tempo do filho é diferente do tempo do mundo. As pessoas passam, olham, algumas com pena, outras com um estranhamento que beira a repulsa. Teresa Cristina é invisível para a metrópole, mas ela é o universo inteiro para o menino que agora sorri levemente ao sentir o vento batendo no rosto.

A tarde reserva o atendimento escolar. Teresa luta para que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) seja cumprido. Ela senta-se no corredor da escola municipal, pronta para intervir caso Tiago tenha uma crise sensorial ou precise de aspiração. Ela é a mediadora, a sombra protetora, o suporte que o Estado muitas vezes falha em prover.

— Você não se cansa, Teresa? — Perguntou uma vez uma vizinha, admirada com a rotina.

— Eu não tenho o direito de me cansar. — Respondeu ela na época. Mas, na intimidade de suas vinte e quatro horas, o cansaço é seu companheiro mais fiel. É uma exaustão que dói nos ossos, mas que é silenciada pelo amor sem pausas.

O anoitecer em Fortaleza traz o retorno para casa. O ritual matinal se inverte: jantar, banho, medicações da noite, troca de fraldas. Quando Tiago finalmente adormece, por volta das dez da noite, o dia de Teresa ainda não terminou. Ela precisa lavar as roupas especiais, esterilizar os equipamentos e, finalmente, tomar seu primeiro banho demorado, onde o choro reprimido durante o dia pode, enfim, misturar-se à água do chuveiro.

Ela deita-se por volta da meia-noite, sentindo cada músculo do corpo pulsar de fadiga. Mas o sono de uma mãe típica é leve como uma pluma. Qualquer ruído no monitor eletrônico, qualquer alteração na respiração de Tiago, e ela estará de pé no segundo seguinte.

Essa rotina de vinte e quatro horas não é um feriado, não tem final de semana e não tem férias. É uma dedicação total que retira da mulher o direito ao lazer, ao autocuidado e, muitas vezes, à saúde mental. A invisibilidade das mães cuidadoras em Fortaleza é uma chaga social que ninguém quer curar. Elas são os pilares que seguram as vidas que a sociedade prefere não ver.

Ao fechar os olhos, Teresa pensa no dia de amanhã. Será quase idêntico ao de hoje. A mesma luta no ônibus, a mesma paciência na seringa de comida, o mesmo amor incondicional que a mantém íntegra no meio da tempestade.

Teresa Cristina adormece com o toque suave da mão de Tiago, que em um movimento reflexo durante o sono, buscou a mão da mãe no lençol. Esse pequeno gesto, essa conexão elétrica e pura, é o que recarrega suas baterias para as próximas vinte e quatro horas. O amor sem pausas de Teresa não é um sacrifício romântico; é o ato político mais forte que existe: a afirmação de que toda vida, por mais complexas que sejam suas condições, merece ser vivida com ternura, cuidado e um respeito que não dorme, nunca.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Giz Enigmático do Joaquim Nogueira



O pó de giz é a caspa da literatura. Ele se acumula nas mangas do paletó, entra nas unhas e seca a garganta, um lembrete constante de que a palavra escrita na lousa é, por natureza, efêmera. Na sala 3B da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, o calor de meio-dia não respeitava a gramática normativa. A luz entrava pelas janelas basculantes, transformando o ar em uma massa densa que desafiava a concordância entre o sujeito e o predicado.

Eu estava no estrado, aquela pequena elevação de madeira que separa o detentor da norma culta do caos criativo da adolescência. Minha missão era clara: ensinar a oração subordinada substantiva subjetiva. Mas, diante de trinta e cinco rostos suados e inquietos, a sintaxe parecia uma ferramenta enferrujada, incapaz de desapertar os parafusos da realidade daqueles meninos.

— Professor, na moral, essa frase aí tá "paia" demais !— Disse Wellington, um garoto magro sentado no fundo, girando uma caneta entre os dedos com a destreza de um malabarista.

Parei com o giz suspenso no ar. A palavra "paia". Não estava no Aurélio com a acepção que ele lhe dava. Para Wellington e para o resto da turma, "paia" não era apenas palha, algo sem valor. Era um adjetivo de decepção, de falsidade, de tédio, uma ferramenta de julgamento estético e moral.

— "Paia"? — Repeti, sentindo o gosto seco do giz na boca. — Explique a função sintática de "paia" na sua vida, Wellington.

A turma riu. O riso coletivo era o som da cumplicidade linguística que eu, estrangeiro em minha própria língua, tentava decifrar.

— É que não cola, "fessor. O sujeito da oração não pode ser inexistente, porque "nós existe". Se a gente tá aqui, o sujeito tá aqui. O senhor tá ensinando uma parada que não conversa com o "corre".

Baixei a mão. O giz verde, pequeno toco de esperança pedagógica, repousou na calha do quadro-negro. Wellington, sem saber, acabara de propor uma nova teoria linguística: a Gramática da Existência. Para ele, a sintaxe não era uma estrutura abstrata de regência e dependência; era um reflexo direto do "corre", da luta diária pela sobrevivência e pela identidade.

Comecei a ouvir, realmente ouvir, o que ecoava nos corredores e entrava pela porta aberta. Eles não falavam errado; eles falavam com urgência. O dialeto de Fortaleza, aquela mistura veloz de humor e fatalismo, não era um desvio da norma, mas uma tecnologia de compressão. Quando um aluno dizia "aí dento", ele não estava apenas usando uma interjeição vulgar; ele estava executando um ato de defesa, uma negação filosófica do absurdo do mundo, rejeitando uma situação com duas palavras o que eu levaria um parágrafo parnasiano para recusar.

Minha prática pedagógica estava impregnada de preconceito linguístico.

Olhei para a frase morta no quadro: "É necessário que façamos silêncio."

Uma oração subordinada subjetiva. Fria. Impessoal.

Apaguei. O apagador levantou uma nuvem branca que dançou na luz do sol.

— Vamos reescrever. — Eu disse, tossindo levemente. — Como vocês diriam isso?

— "Bora baixar o faxo que o homem quer falar". — Sugeriu uma menina na primeira fila, arrancando risos nervosos.

Escrevi a frase. A grafia no quadro parecia vibrar.

— Analisem. — Pedi. — Onde está o imperativo? Onde está a ação?

Eles se inclinaram para a frente. De repente, a gramática não era mais um esqueleto num laboratório de anatomia, mas o próprio corpo vivo da comunicação. Percebi que o ensino ali, no Joaquim Nogueira, não podia ser sobre impor uma língua morta sobre uma língua viva. Tinha que ser sobre tradução. O meu papel não era exterminar o "cearensês" deles, mas mostrar que a caneta, assim como a gíria, era uma arma.

Passei o resto da aula dissecando as estruturas do "arriégua" e do "valha". Mostrei que a ênfase que eles davam nas vogais abertas era um recurso retórico tão válido quanto as inversões de Bilac. O giz voava, quebrando-se em pedaços menores à medida que eu tentava acompanhar o ritmo do pensamento deles. A lousa ficou caótica, cheia de setas e círculos, unindo a norma culta à fala da rua.

Quando o sinal tocou, estridente e definitivo, a sala se esvaziou numa explosão de mochilas e gritos. Fiquei sozinho, coberto de pó branco, olhando para o quadro. Ali estava o mapa de uma batalha onde ninguém perdeu. As orações subordinadas conviviam com as gírias de sobrevivência.

Peguei o apagador novamente. Era hora de limpar o terreno para a próxima turma, para o próximo turno. Enquanto apagava as frases vibrantes que havíamos construído, senti um peso estranho, uma melancolia súbita. Aquelas palavras, nascidas do calor do momento, eram voláteis. Elas existiam apenas enquanto eram faladas, enquanto o "corre" acontecia. Diferente dos livros encadernados que repousavam na biblioteca, a língua daquela escola era feita de giz: intensa, branca, mas fácil de ser soprada pelo vento.

O quadro voltou a ser um abismo negro e silencioso. Limpei as mãos no jaleco, sentindo a textura áspera do resíduo. Aquele pó em meus dedos era tudo o que restava das vozes que preencheram a sala. Eram fragmentos de uma sintaxe existencial que se recusava a ser fossificada. Guardei o toco de giz no bolso, como quem guarda um segredo, e saí para o corredor, onde a vida continuava a ser escrita em voz alta, sem borracha e sem rascunho. O silêncio da lousa limpa, contudo, já me preparava para outra lição, uma que eu intuía que aprenderia longe dali, onde o tempo, e não o giz, dita a duração das palavras.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras daHumanidade



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fortaleza uma das cidades mais belas do Brasil




Canoa Quebrada-CE (Divulgação )
Canoa Quebrada-CE

Capital do Ceará, é uma das cidades  mais belas e agitadas do nordeste brasileiro. Além de sol o ano inteiro, Fortaleza abriga 25 km de belas praias, uma agenda cultural diversificada, uma noite agitada, culinária saborosa e um rico artesanato.
Fortaleza oferece tudo isso em meio à uma arquitetura que mescla história, modernidade e natureza.

A cidade é o ponto de partida para quem busca as belezas naturais do litoral cearense, como as dunas e falésias, e os famosos passeios de jangada.
FONTE: O Imparcial