O pó de giz é a caspa da literatura. Ele se acumula nas mangas do paletó, entra nas unhas e seca a garganta, um lembrete constante de que a palavra escrita na lousa é, por natureza, efêmera. Na sala 3B da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, o calor de meio-dia não respeitava a gramática normativa. A luz entrava pelas janelas basculantes, transformando o ar em uma massa densa que desafiava a concordância entre o sujeito e o predicado.
Eu estava no estrado, aquela pequena elevação de madeira que separa o detentor da norma culta do caos criativo da adolescência. Minha missão era clara: ensinar a oração subordinada substantiva subjetiva. Mas, diante de trinta e cinco rostos suados e inquietos, a sintaxe parecia uma ferramenta enferrujada, incapaz de desapertar os parafusos da realidade daqueles meninos.
— Professor, na moral, essa frase aí tá "paia" demais !— Disse Wellington, um garoto magro sentado no fundo, girando uma caneta entre os dedos com a destreza de um malabarista.
Parei com o giz suspenso no ar. A palavra "paia". Não estava no Aurélio com a acepção que ele lhe dava. Para Wellington e para o resto da turma, "paia" não era apenas palha, algo sem valor. Era um adjetivo de decepção, de falsidade, de tédio, uma ferramenta de julgamento estético e moral.
— "Paia"? — Repeti, sentindo o gosto seco do giz na boca. — Explique a função sintática de "paia" na sua vida, Wellington.
A turma riu. O riso coletivo era o som da cumplicidade linguística que eu, estrangeiro em minha própria língua, tentava decifrar.
— É que não cola, "fessor. O sujeito da oração não pode ser inexistente, porque "nós existe". Se a gente tá aqui, o sujeito tá aqui. O senhor tá ensinando uma parada que não conversa com o "corre".
Baixei a mão. O giz verde, pequeno toco de esperança pedagógica, repousou na calha do quadro-negro. Wellington, sem saber, acabara de propor uma nova teoria linguística: a Gramática da Existência. Para ele, a sintaxe não era uma estrutura abstrata de regência e dependência; era um reflexo direto do "corre", da luta diária pela sobrevivência e pela identidade.
Comecei a ouvir, realmente ouvir, o que ecoava nos corredores e entrava pela porta aberta. Eles não falavam errado; eles falavam com urgência. O dialeto de Fortaleza, aquela mistura veloz de humor e fatalismo, não era um desvio da norma, mas uma tecnologia de compressão. Quando um aluno dizia "aí dento", ele não estava apenas usando uma interjeição vulgar; ele estava executando um ato de defesa, uma negação filosófica do absurdo do mundo, rejeitando uma situação com duas palavras o que eu levaria um parágrafo parnasiano para recusar.
Minha prática pedagógica estava impregnada de preconceito linguístico.
Olhei para a frase morta no quadro: "É necessário que façamos silêncio."
Uma oração subordinada subjetiva. Fria. Impessoal.
Apaguei. O apagador levantou uma nuvem branca que dançou na luz do sol.
— Vamos reescrever. — Eu disse, tossindo levemente. — Como vocês diriam isso?
— "Bora baixar o faxo que o homem quer falar". — Sugeriu uma menina na primeira fila, arrancando risos nervosos.
Escrevi a frase. A grafia no quadro parecia vibrar.
— Analisem. — Pedi. — Onde está o imperativo? Onde está a ação?
Eles se inclinaram para a frente. De repente, a gramática não era mais um esqueleto num laboratório de anatomia, mas o próprio corpo vivo da comunicação. Percebi que o ensino ali, no Joaquim Nogueira, não podia ser sobre impor uma língua morta sobre uma língua viva. Tinha que ser sobre tradução. O meu papel não era exterminar o "cearensês" deles, mas mostrar que a caneta, assim como a gíria, era uma arma.
Passei o resto da aula dissecando as estruturas do "arriégua" e do "valha". Mostrei que a ênfase que eles davam nas vogais abertas era um recurso retórico tão válido quanto as inversões de Bilac. O giz voava, quebrando-se em pedaços menores à medida que eu tentava acompanhar o ritmo do pensamento deles. A lousa ficou caótica, cheia de setas e círculos, unindo a norma culta à fala da rua.
Quando o sinal tocou, estridente e definitivo, a sala se esvaziou numa explosão de mochilas e gritos. Fiquei sozinho, coberto de pó branco, olhando para o quadro. Ali estava o mapa de uma batalha onde ninguém perdeu. As orações subordinadas conviviam com as gírias de sobrevivência.
Peguei o apagador novamente. Era hora de limpar o terreno para a próxima turma, para o próximo turno. Enquanto apagava as frases vibrantes que havíamos construído, senti um peso estranho, uma melancolia súbita. Aquelas palavras, nascidas do calor do momento, eram voláteis. Elas existiam apenas enquanto eram faladas, enquanto o "corre" acontecia. Diferente dos livros encadernados que repousavam na biblioteca, a língua daquela escola era feita de giz: intensa, branca, mas fácil de ser soprada pelo vento.
O quadro voltou a ser um abismo negro e silencioso. Limpei as mãos no jaleco, sentindo a textura áspera do resíduo. Aquele pó em meus dedos era tudo o que restava das vozes que preencheram a sala. Eram fragmentos de uma sintaxe existencial que se recusava a ser fossificada. Guardei o toco de giz no bolso, como quem guarda um segredo, e saí para o corredor, onde a vida continuava a ser escrita em voz alta, sem borracha e sem rascunho. O silêncio da lousa limpa, contudo, já me preparava para outra lição, uma que eu intuía que aprenderia longe dali, onde o tempo, e não o giz, dita a duração das palavras.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras daHumanidade







0 comments:
Postar um comentário