O edifício de fachadas espelhadas na Avenida Paulista era uma colmeia de ambições, onde o tempo era medido em bips de catracas eletrônicas e o valor de um homem era frequentemente julgado pela marca do relógio ou pela firmeza do nó da gravata. Rodrigo, um executivo de investimentos cujo celular parecia uma extensão orgânica de sua palma, entrou no elevador social com a pressa de quem carrega o mercado financeiro nas costas. Logo atrás dele, entrou Marta, uma mulher de meia-idade vestindo o uniforme azul-claro de uma empresa de serviços de limpeza, segurando um balde com produtos organizados e um olhar cansado que buscava o chão.
O silêncio no cubículo de aço escovado era a norma social de São Paulo: olhos fixos no painel de andares, respiração contida, o distanciamento profilático entre quem manda e quem serve. Rodrigo conferiu o cronômetro no pulso; tinha sete minutos para chegar ao trigésimo andar para uma conferência via vídeo com investidores de Brasília. Marta, por sua vez, só pensava em terminar o turno para pegar o trem de volta para Itaquera, onde seu filho mais novo a esperava
Marta, não costumava usar o elevador social, mas o elevador de serviço entrara em manutenção, tinha autorização para usar o elevador principal do arranha-céu , mas devia permanecer em silêncio. Era raro ver uma mulher da sua cor entrar pela porta da frente no ededício.
Entre o vigésimo segundo e o vigésimo terceiro andar, o mundo estacou. Um solavanco seco, seguido pelo som metálico de freios de emergência sendo acionados, fez as luzes oscilarem e o painel digital apagar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado como o vácuo.
— Mas o que é isso? — Exclamou Rodrigo, apertando freneticamente o botão de interfone. — Alô? Tem alguém ouvindo? O elevador travou!
Marta permaneceu imóvel por um instante, o balde ainda firme em sua mão. Ela já passara por aquilo antes em prédios mais velhos, mas o pânico na voz do executivo a fez suspirar.
— Calma, moço. Se o senhor gritar, o ar acaba mais rápido. Eles devem estar reiniciando o sistema. — Disse ela, com uma voz surpreendentemente calma, colocando o balde no chão e sentando-se no canto oposto.
— Calma? Eu tenho uma reunião que vale milhões! — Rodrigo andava de um lado para o outro no espaço de dois metros quadrados. — Isso é um absurdo. Um prédio dessa categoria...
Dez minutos se passaram. O calor começou a subir. Rodrigo, agora sem o paletó e com o colarinho desabotoado, tentava sinal de celular em todas as direções, sem sucesso. A arrogância inicial dava lugar a uma ansiedade palpável, as mãos a tremer levemente. Ele olhou para Marta, que estava com os olhos fechados, murmurando algo que parecia uma prece ou apenas uma canção baixa.
— Como a senhora consegue ficar tão tranquila? — Perguntou ele, a voz agora menos ríspida, quase suplicante por uma conexão humana.
— Moço, eu já perdi muita coisa na vida para me desesperar por meia hora de elevador parado. — Respondeu Marta, abrindo os olhos e oferecendo um sorriso triste. — O desespero a gente guarda para quando o prato está vazio ou quando um filho não volta para casa. O resto é só contratempo.
Rodrigo sentou-se no chão, a poucos centímetros dela, o terno de grife agora em contato direto com o piso de granito que Marta limpara horas antes.
— Entendo. O meu filho... bem, eu quase não o vejo. Saio antes de ele acordar e volto quando ele já dormiu. Trabalho para dar o melhor para ele, mas sinto que estou dando apenas coisas, sabe?
Marta assentiu devagar.
— Eu também trabalho muito. Meu filho mais velho se perdeu nesse mundão de São Paulo faz dez anos. Nunca mais tive notícia. Hoje eu limpo esses escritórios e fico olhando as fotos nas mesas das pessoas, imaginando se algum daqueles moços bonitos não poderia ser ele, se tivesse tido uma chance diferente.
O coração de Rodrigo acelerou, mas não pela claustrofobia. Ele lembrou-se de um movimento que vira na Praça da Sé na semana anterior; um grupo de mães segurando fotos. Lembrou-se do que ouvira sobre o Deputado Valadares, que estava denunciando a negligência com os desaparecidos.
— A senhora faz parte daquelas mães de praça?
— Sou uma delas. Helena é minha amiga de luta. A gente se ajuda como pode. Em São Paulo, moço, ou a gente se segura na mão de alguém ou a correnteza leva.
Rodrigo, o homem que vivia de números e projeções, sentiu um peso no peito. Ele sempre vira mulheres como Marta como parte da mobília dos edifícios, elementos invisíveis que garantiam a funcionalidade do seu sucesso. Ali, no silêncio do elevador travado, a invisibilidade se dissipou. Ele viu as mãos de Marta, mãos que limpavam a sujeira dos outros para financiar a busca por um pedaço de sua própria alma.
— Me perdoe. — Disse ele, baixando a cabeça. — Por tudo. Pelo jeito que entrei aqui, pelo jeito que eu vivo... ignorando tudo que não seja o meu próprio umbigo.
— Não peça perdão a mim, moço. Peça tempo para o seu filho. A gente acha que o dinheiro compra segurança, mas a única coisa que segura a gente no mundo é o amor que a gente deixa nas pessoas.
Inspirado por aquela conversa e pelo ambiente confinado que igualava o executivo à faxineira, Rodrigo compartilhou algo que nunca dissera a ninguém: o medo constante de falhar, a pressão de manter uma fachada de sucesso em Brasília e São Paulo, e o vazio que sentia ao chegar em sua cobertura luxuosa e encontrar apenas o silêncio. Eles conversaram sobre perdas, sobre a fé que move as montanhas de concreto daquela avenida e sobre como o destino gosta de pregar peças para nos lembrar da nossa fragilidade.
Quando as luzes finalmente piscaram e o elevador soltou um suspiro hidráulico, voltando a descer lentamente para o térreo por segurança, a atmosfera entre os dois havia mudado. As portas se abriram para o saguão frenético. Seguranças e técnicos correram em direção a eles, pedindo desculpas mil por "problemas técnicos na rede elétrica".
Rodrigo levantou-se e ajudou Marta a pegar seu balde. Antes de saírem, ele tirou um cartão pessoal do bolso e entregou a ela.
— Marta, eu trabalho com dados e contatos influentes em Brasília. Eu não posso prometer milagres, mas vou usar tudo o que tenho para ajudar o seu grupo de busca. O Deputado Valadares é meu conhecido de longa data. Se ele quer falar as verdades que ninguém quer ouvir, eu vou dar a ele os nomes dos filhos de vocês para que ele grite para quem quiser ouvir.
Marta olhou para o cartão e depois para os olhos de Rodrigo. Não viu mais o executivo apressado, mas um homem que acabara de ser resgatado de um tipo diferente de prisão.
— Obrigada, moço. De coração. Sabe, a gente entrou aqui estranho, mas acho que o elevador parou só para a gente se enxergar.
Rodrigo não subiu para a reunião. Ele caminhou para fora do prédio, sentindo o ar da Avenida Paulista entrar nos pulmões com uma densidade nova. Ele cancelou os compromissos do dia e ligou para casa, perguntando se o filho gostaria de tomar um sorvete no final da tarde. Enquanto caminhava, ele percebeu que a solidariedade não era um conceito abstrato de caridade, mas uma necessidade de sobrevivência emocional na selva urbana.
O caos de São Paulo continuava ao redor dele, as buzinas, a pressa, a competição desenfreada. Mas agora, Rodrigo carregava consigo um pouco da calma e da resiliência de Marta. Ele entendeu que cada pessoa que cruzava seu caminho, fosse a rainha de bateria que vira na TV, o velho no interior do Maranhão, a mulher da lavanderia ou a mulher que limpava seu escritório eram um fio necessário na tapeçaria de sua própria vida. O acaso não os prendera naquele elevador; o destino os libertara para uma conexão que o asfalto jamais conseguiria apagar. E enquanto as janelas dos prédios refletiam as luzes da tarde, ele soube que a verdadeira evolução humana não se media pelos andares que se subia, mas pela coragem de descer ao nível do coração do outro.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
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