quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: As Sombras de Bacabal


O sol em Bacabal não pede licença; ele se impõe sobre as telhas de barro e as copas das árvores com uma autoridade que silencia até os vira-latas nas horas de pino. Na Praça Santa Teresinha, o tempo parece ter uma consistência diferente, algo entre o mel e o asfalto quente, esticando os minutos até que eles percam a pressa. Foi sob a sombra generosa de um frondoso pé de jambo que Benedito, um homem cujo rosto era um mapa de rugas desenhado pelo sol maranhense, viu-se sentado ao lado de um forasteiro que trazia o cansaço das grandes metrópoles marcado nas olheiras.

O forasteiro, um homem de terno cinza amassado e sapatos cobertos pela poeira fina da região, buscava um alento no mormaço. Benedito, com seu chapéu de palha e as mãos calejadas apoiadas em um cabo de guarda-chuva que servia de bengala, observava o movimento lento das bicicletas. A simplicidade de Bacabal tem essa força: ela desarma quem chega protegido por camadas de importância.

— O calor daqui não é brincadeira, não é, meu senhor? — Comentou o forasteiro, tentando abanar-se com uma pasta de couro.

— O calor é justo, moço. — Respondeu Benedito, sem desviar o olhar do horizonte. — Ele não faz distinção de quem é da terra ou de quem vem de fora. Só exige que a gente aprenda a esperar. Aqui, quem tem pressa, briga com o próprio suor e perde.

O homem do terno, que se apresentou apenas como Dr. Arnaldo, um advogado enviado para resolver questões de terras que se arrastavam por décadas em Brasília, soltou um riso seco.

— Eu passo a vida correndo de um tribunal para outro, de um aeroporto para o próximo. Às vezes esqueço como é ficar parado apenas... olhando.

— Pois olhe. — Disse Benedito, apontando com o queixo para o casarão antigo do outro lado da praça, onde hoje funciona um Ponto de Cultur construído às duras penas pelo Mestre Pinta, cujas janelas de madeira estavam fechadas há anos. — Aquela casa ali guarda mais segredo que gabinete de ministro. Meu avô dizia que o que a gente esconde da luz, o tempo cuida de apodrecer no escuro.

A conversa, que começara como um trivial comentário sobre o clima, mergulhou em águas mais profundas, como é de costume nas calçadas do interior. Benedito começou a contar histórias que não estavam nos livros oficiais da cidade. Falou de amores proibidos que mudaram a posse de fazendas, de coronéis que mandavam no vento, mas que tremiam diante de uma promessa não cumprida, e de crianças que, como em tantas outras partes do país, sumiam nos vãos da história sem deixar rastros, como no Quilombo São Sebastião do Pretos.

— O senhor mencionou crianças desaparecidas... — Arnaldo interessou-se, lembrando-se vagamente de um dossiê que vira em São Paulo sobre redes de adoção ilegal que operavam no Norte e Nordeste décadas atrás.

— Pois é, moço. Tem coisa que o povo finge que esquece para poder continuar vivendo. Mas a sombra de Bacabal é comprida. Lá naqueles anos setenta, muita gente vinha aqui "buscar" o que não lhe pertencia. Levavam os pequenos com o pretexto de dar estudo na capital, mas o destino deles virava um mistério que nem a reza mais braba das benzedeiras conseguia rastrear.

Benedito fez uma pausa, os olhos nublados por uma lembrança pessoal que parecia doer fisicamente. Ele tirou do bolso um canivete e começou a descascar uma laranja, oferecendo um pedaço ao advogado.

— Eu tive um irmão. O mais novo. Minha mãe, coitada, acreditou num homem que falava bonito, vestia terno igual ao seu. Ele disse que o menino ia ser doutor em São Luís. Nunca mais vimos a cor dos olhos dele. Até hoje, quando ouço o rádio falar de gente sumida ou daqueles pais que buscam os filhos lá no sul, eu sinto que a minha ferida ainda está aberta, mesmo sendo de tanto tempo.

Arnaldo sentiu o nó na garganta. Ele, que vivia de tecnicismos jurídicos e de "verdades narrativas" em Brasília, confrontava-se ali com a verdade nua de um homem simples. Lembrou-se do Deputado Valadares, que agora ocupava as manchetes por não conseguir mentir, e percebeu a ironia: no interior, a verdade é dita com a mesma naturalidade com que se comenta a colheita do arroz, enquanto no poder, ela é tratada como um surto de loucura.

— Sabe, Sr. Benedito. — Disse Arnaldo, guardando a pasta de couro no banco. — Eu vim aqui para despejar uma família de uma área que um cliente meu reclama como sua. Mas, ouvindo o senhor, percebo que os documentos que eu carrego não dizem nada sobre a vida que foi plantada naquela terra.

— Terra é igual a gente, moço. Ela tem memória. O papel aceita qualquer risco de caneta, mas o chão só reconhece quem derramou o próprio óleo nele. Aquela família que o senhor quer tirar... eles estão lá há três gerações. Se o senhor tirar eles, está arrancando as raízes e deixando a árvore morrer.

O encontro, que parecia fortuito, revelava as conexões invisíveis que o destino tecia entre Bacabal e o resto do mundo. A dor de Benedito pelo irmão perdido ecoava a busca daquela mãe que percorria as ruas de São Paulo com panfletos na bolsa. O cinismo de Arnaldo, forjado nos corredores de Brasília, era quebrado pela sabedoria de quem via a vida através das estações e das sombras projetadas na praça de Santa Terezinha.

— O senhor me deu muito o que pensar. — Admitiu o advogado, levantando-se e limpando o pó das calças. — Talvez eu precise rever alguns conceitos sobre o que é "justiça".

— Justiça, moço, é quando ninguém precisa chorar escondido atrás da porta. — Concluiu Benedito, levantando-se com a ajuda de sua bengala improvisada. — Se o senhor for voltar para a capital federal, leve com o senhor o cheiro desta terra. Ela ajuda a lembrar quem nós somos quando o asfalto tenta nos fazer esquecer.

Enquanto se afastava, Arnaldo olhou para trás e viu o velho Benedito caminhar devagar em direção à Trizidela, perdendo-se entre as sombras das árvores e os primeiros postes que se acendiam com a chegada do crepúsculo. Ele sentiu que, naquela conversa de banco de praça, descobrira mais sobre a alma brasileira do que em todos os anos de prática jurídica. A sombra de Bacabal não era apenas escuridão; era o abrigo onde a verdade, por mais dolorosa ou antiga que fosse, ainda encontrava espaço para ser sussurrada.

Ele caminhou em direção ao hotel São Francisco, o passo agora menos apressado, percebendo que as vidas de pessoas tão distantes; a rainha que samba descalça, a mãe que busca o filho, o político que perdeu o filtro e o velho que ainda guarda a dor de um irmão levado, estavam todas amarradas por uma trama que começava ali, naquela poeira maranhense. O acaso, definitivamente, não existia. Havia apenas uma longa jornada de retornos e revelações. E enquanto o sol finalmente se punha, deixando o céu em tons de laranja e púrpura, Arnaldo soube que, ao entrar no próximo elevador envidraçado de uma grande metrópole, ele levaria consigo o peso e a luz das verdades que só o silêncio do interior tem coragem de revelar.

Por José Casanova
professor, Jornalista,  Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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