O Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de
Janeiro, era um organismo pulsante, uma massa de luzes, cores e um som que não
se ouvia apenas com os ouvidos, mas com o peito. Para Sheila Raquel, aquela
noite representava o ápice de uma jornada que começara muito longe daquelas
arquibancadas lotadas, nas ruas planas e quentes de Bacabal. Ela não era apenas
uma mulher sambando; ela era o símbolo de uma comunidade, a Rainha de Bateria
que carregava nos ombros a responsabilidade de nota dez no quesito evolução e harmonia.
Sua fantasia, uma estrutura imponente de penas de faisão em tons de degradê
entre o azul-royal e o turquesa, custara meses de economia e cada gota de seu
suor nos ensaios técnicos.
O coração batia na cadência do surdo de marcação.
Enquanto a escola se posicionava na concentração, Sheila sentia a adrenalina
percorrer suas veias. Ela ajustou a coroa, incrustada com cristais que
refletiam os refletores potentes, e sorriu para os fotógrafos. O Carnaval tem
essa magia: ele transforma pessoas comuns em divindades temporárias. Naquele
momento, ela não era a vendedora de cosméticos que lutava para pagar o aluguel;
ela era a soberana absoluta dos ritmistas.
— Tudo pronto, rainha? — Perguntou Mestre Jorge, o
comandante da bateria, com o apito já entre os dentes.
— O coração está saindo pela boca, Jorge, mas a
gente vai fazer história — respondeu ela, ajeitando as tiras da sandália que
subiam por suas pernas torneadas.
— Confia na sua luz. Quando a gente entrar, o chão
vai tremer.
O sinal verde brilhou. O grito de guerra do puxador
de samba rasgou o ar e a bateria explodiu. Sheila deu o primeiro passo, uma
explosão de graça e vigor. Cada movimento de seus quadris parecia ditar o ritmo
da percussão. Ela entrou na avenida como uma força da natureza, distribuindo sorrisos
e beijos, os braços abertos para abraçar a multidão. A Marquês de Sapucaí
gritava seu nome. Ela sentia que nada no mundo poderia pará-la. Brasília, São
Luís, Fortaleza, São Luia Gonzaga... parecia que o Brasil inteiro estava ali,
concentrado naquela passarela de asfalto.
Foi no meio do Setor B, exatamente onde as câmeras
de televisão captavam cada detalhe, que o destino, sempre irônico, decidiu
intervir. Ela executou um giro rápido, um movimento que ensaiara mil vezes, mas
ao apoiar o peso no pé esquerdo, ouviu um estalo seco. O som, para ela, foi
mais alto que o repique da bateria. O salto de quinze centímetros da sua
sandália de gala, feito de um acrílico reforçado que deveria ser indestrutível,
sucumbiu.
Em um milésimo de segundo, o mundo de Sheila
inclinou-se. O equilíbrio sumiu. A dor no tornozelo foi uma agulhada ardente,
mas não se comparava ao pânico que gelou sua espinha. Uma rainha de bateria não
pode cair. Se ela caísse, a harmonia da escola seria prejudicada. O
"buraco" na frente da bateria seria imperdoável para os
jurados.
— Ai, meu Deus — Murmurou ela, entre dentes,
mantendo o sorriso congelado para as câmeras enquanto sentia o pé esquerdo
ceder.
— Shirley, o que houve? —Perguntou um dos diretores
de harmonia que caminhava ao lado, percebendo a hesitação súbita.
— O salto. Quebrou. Jorge, não para! Continua! — Ela
comandou, embora o suor que agora escorria por seu rosto não fosse mais apenas
de calor, mas de puro desespero.
Ela tinha duas escolhas: sair da avenida e chorar a
derrota de um ano inteiro, ou encontrar uma forma de continuar o show. O
asfalto estava fervendo, e sem o salto, sua perna esquerda estava agora vários
centímetros abaixo da direita, destruindo sua postura e sua cadência. O público
começou a notar. Um murmúrio de preocupação percorreu a frisa. Shirley respirou
fundo, fechou os olhos por um breve segundo e tomou a decisão que definiria sua
vida dali em diante.
Em um gesto coreografado, como se fizesse parte da
apresentação, ela se abaixou e desamarrou rapidamente as tiras da sandália
esquerda. Com um movimento firme, arrancou também a sandália direita. Ali, no
centro da passarela, a rainha, leteralmente, desceu do salto. O contato direto
do pé descalço com o asfalto quente foi um choque térmico, mas ela não recuou.
Ela jogou os calçados caríssimos para o lado, em direção aos assistentes, e
ergueu o queixo.
A bateria, percebendo a garra da sua líder, dobrou
a intensidade. Os ritmistas começaram a gritar em incentivo. Sheila recomeçou o
samba, mas agora era diferente. Havia uma força primitiva em seus pés descalços
tocando o chão. Ela não era mais uma boneca de luxo em cima de plataformas; era
uma mulher negra, real, de carne, osso e resiliência. O samba tornou-se mais
rasteiro, mais ancestral, um toque de pés que parecia conversar diretamente com
a terra, ignorando o calor do asfalto negro.
— Isso mesmo, rainha! No chão! No chão! — Gritava
Mestre Jorge, visivelmente emocionado com a cena.
Ela sentia pequenas bolhas começarem a se formar
sob a planta dos pés, mas a dor fora anestesiada pelo rugido da arquibancada. A
Marquês de Sapucaí, que antes a admirava pela beleza, agora a reverenciava pela
coragem. Milhares de pessoas se levantaram e começaram a aplaudir. Ela cruzou o
restante da avenida com uma energia renovada, cada pisada no asfalto sendo um
manifesto de que nenhum acidente material é capaz de apagar o brilho de quem
carrega a verdade na alma.
Ao cruzar a linha final, na dispersão, Sheila
colapsou nos braços das baianas que a esperavam. Suas pernas tremiam
violentamente e seus pés estavam escoriados, mas seu rosto brilhava com uma
satisfação que nenhum troféu poderia proporcionar. Ela sabia que aquele salto
quebrado não fora um azar, mas uma oportunidade de provar a si mesma que sua
realeza não dependia de acessórios.
— Você foi gigante, Shirley. — Disse uma das
baianas, entregando-lhe um copo de água e um par de chinelos velhos. — O povo
nunca vai esquecer essa sua garra.
— Eu só não queria deixar a escola na mão. — Respondeu
ela, com a voz embargada. — O destino quis me derrubar, mas ele esqueceu que eu
aprendi a andar em chão de terra da rua Paulo Rmos lá em Bacabal. O asfalto do
Rio de Janeiro é só mais um caminho.
Enquanto era carregada para o posto médico, Sheila
Raquel pensava na ironia dos eventos. Se o salto não tivesse quebrado, ela
teria sido apenas mais uma rainha bonita na história da escola. Agora, ela era
a rainha que venceu o asfalto. Aquele imprevisto, aquele pequeno caos mecânico
no meio da festa mais planejada do país, foi o que permitiu sua transformação.
Naquela noite, a resiliência foi o seu adereço mais brilhante. Ela entendeu,
com uma clareza que só as situações desesperadoras trazem, que a vida muitas
vezes nos tira o sustento dos pés apenas para nos ensinar a voar. E enquanto o
gelo era colocado em seus pés feridos, no silêncio relativo do posto médico,
ela teve a estranha sensação de que as voltas do destino ainda trariam
surpresas em outros cenários, talvez sob as luzes mais frias e calculistas de
uma capital onde as verdades costumam ser tão raras quanto um salto
inquebrável.







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