segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Salto Quebrado da Rainha

 

O Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, era um organismo pulsante, uma massa de luzes, cores e um som que não se ouvia apenas com os ouvidos, mas com o peito. Para Sheila Raquel, aquela noite representava o ápice de uma jornada que começara muito longe daquelas arquibancadas lotadas, nas ruas planas e quentes de Bacabal. Ela não era apenas uma mulher sambando; ela era o símbolo de uma comunidade, a Rainha de Bateria que carregava nos ombros a responsabilidade de nota dez no quesito evolução e harmonia. Sua fantasia, uma estrutura imponente de penas de faisão em tons de degradê entre o azul-royal e o turquesa, custara meses de economia e cada gota de seu suor nos ensaios técnicos.

O coração batia na cadência do surdo de marcação. Enquanto a escola se posicionava na concentração, Sheila sentia a adrenalina percorrer suas veias. Ela ajustou a coroa, incrustada com cristais que refletiam os refletores potentes, e sorriu para os fotógrafos. O Carnaval tem essa magia: ele transforma pessoas comuns em divindades temporárias. Naquele momento, ela não era a vendedora de cosméticos que lutava para pagar o aluguel; ela era a soberana absoluta dos ritmistas.

— Tudo pronto, rainha? — Perguntou Mestre Jorge, o comandante da bateria, com o apito já entre os dentes.

— O coração está saindo pela boca, Jorge, mas a gente vai fazer história — respondeu ela, ajeitando as tiras da sandália que subiam por suas pernas torneadas.

— Confia na sua luz. Quando a gente entrar, o chão vai tremer.

O sinal verde brilhou. O grito de guerra do puxador de samba rasgou o ar e a bateria explodiu. Sheila deu o primeiro passo, uma explosão de graça e vigor. Cada movimento de seus quadris parecia ditar o ritmo da percussão. Ela entrou na avenida como uma força da natureza, distribuindo sorrisos e beijos, os braços abertos para abraçar a multidão. A Marquês de Sapucaí gritava seu nome. Ela sentia que nada no mundo poderia pará-la. Brasília, São Luís, Fortaleza, São Luia Gonzaga... parecia que o Brasil inteiro estava ali, concentrado naquela passarela de asfalto.

Foi no meio do Setor B, exatamente onde as câmeras de televisão captavam cada detalhe, que o destino, sempre irônico, decidiu intervir. Ela executou um giro rápido, um movimento que ensaiara mil vezes, mas ao apoiar o peso no pé esquerdo, ouviu um estalo seco. O som, para ela, foi mais alto que o repique da bateria. O salto de quinze centímetros da sua sandália de gala, feito de um acrílico reforçado que deveria ser indestrutível, sucumbiu.

Em um milésimo de segundo, o mundo de Sheila inclinou-se. O equilíbrio sumiu. A dor no tornozelo foi uma agulhada ardente, mas não se comparava ao pânico que gelou sua espinha. Uma rainha de bateria não pode cair. Se ela caísse, a harmonia da escola seria prejudicada. O "buraco" na frente da bateria seria imperdoável para os jurados. 

— Ai, meu Deus — Murmurou ela, entre dentes, mantendo o sorriso congelado para as câmeras enquanto sentia o pé esquerdo ceder.

— Shirley, o que houve? —Perguntou um dos diretores de harmonia que caminhava ao lado, percebendo a hesitação súbita.

— O salto. Quebrou. Jorge, não para! Continua! — Ela comandou, embora o suor que agora escorria por seu rosto não fosse mais apenas de calor, mas de puro desespero.

Ela tinha duas escolhas: sair da avenida e chorar a derrota de um ano inteiro, ou encontrar uma forma de continuar o show. O asfalto estava fervendo, e sem o salto, sua perna esquerda estava agora vários centímetros abaixo da direita, destruindo sua postura e sua cadência. O público começou a notar. Um murmúrio de preocupação percorreu a frisa. Shirley respirou fundo, fechou os olhos por um breve segundo e tomou a decisão que definiria sua vida dali em diante.

Em um gesto coreografado, como se fizesse parte da apresentação, ela se abaixou e desamarrou rapidamente as tiras da sandália esquerda. Com um movimento firme, arrancou também a sandália direita. Ali, no centro da passarela, a rainha, leteralmente, desceu do salto. O contato direto do pé descalço com o asfalto quente foi um choque térmico, mas ela não recuou. Ela jogou os calçados caríssimos para o lado, em direção aos assistentes, e ergueu o queixo.

A bateria, percebendo a garra da sua líder, dobrou a intensidade. Os ritmistas começaram a gritar em incentivo. Sheila recomeçou o samba, mas agora era diferente. Havia uma força primitiva em seus pés descalços tocando o chão. Ela não era mais uma boneca de luxo em cima de plataformas; era uma mulher negra, real, de carne, osso e resiliência. O samba tornou-se mais rasteiro, mais ancestral, um toque de pés que parecia conversar diretamente com a terra, ignorando o calor do asfalto negro.

— Isso mesmo, rainha! No chão! No chão! — Gritava Mestre Jorge, visivelmente emocionado com a cena.

Ela sentia pequenas bolhas começarem a se formar sob a planta dos pés, mas a dor fora anestesiada pelo rugido da arquibancada. A Marquês de Sapucaí, que antes a admirava pela beleza, agora a reverenciava pela coragem. Milhares de pessoas se levantaram e começaram a aplaudir. Ela cruzou o restante da avenida com uma energia renovada, cada pisada no asfalto sendo um manifesto de que nenhum acidente material é capaz de apagar o brilho de quem carrega a verdade na alma.

Ao cruzar a linha final, na dispersão, Sheila colapsou nos braços das baianas que a esperavam. Suas pernas tremiam violentamente e seus pés estavam escoriados, mas seu rosto brilhava com uma satisfação que nenhum troféu poderia proporcionar. Ela sabia que aquele salto quebrado não fora um azar, mas uma oportunidade de provar a si mesma que sua realeza não dependia de acessórios. 

— Você foi gigante, Shirley. — Disse uma das baianas, entregando-lhe um copo de água e um par de chinelos velhos. — O povo nunca vai esquecer essa sua garra.

— Eu só não queria deixar a escola na mão. — Respondeu ela, com a voz embargada. — O destino quis me derrubar, mas ele esqueceu que eu aprendi a andar em chão de terra da rua Paulo Rmos lá em Bacabal. O asfalto do Rio de Janeiro é só mais um caminho.

Enquanto era carregada para o posto médico, Sheila Raquel pensava na ironia dos eventos. Se o salto não tivesse quebrado, ela teria sido apenas mais uma rainha bonita na história da escola. Agora, ela era a rainha que venceu o asfalto. Aquele imprevisto, aquele pequeno caos mecânico no meio da festa mais planejada do país, foi o que permitiu sua transformação. Naquela noite, a resiliência foi o seu adereço mais brilhante. Ela entendeu, com uma clareza que só as situações desesperadoras trazem, que a vida muitas vezes nos tira o sustento dos pés apenas para nos ensinar a voar. E enquanto o gelo era colocado em seus pés feridos, no silêncio relativo do posto médico, ela teve a estranha sensação de que as voltas do destino ainda trariam surpresas em outros cenários, talvez sob as luzes mais frias e calculistas de uma capital onde as verdades costumam ser tão raras quanto um salto inquebrável.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Crônista e Escritor

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundia de Letras da Humanidade 

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