O Mercado Central de São Luís não é um lugar; é um texto polifônico escrito em tempo real, sem pausa para respirar. Osmar Gomes, cronista por teimosia e desespero de prazo, estava encurralado entre uma banca de camarão seco e outra de farinha d'água, tentando encontrar um verbo que não estivesse melado de suor ou impregnado de cheiro de peixe. O editor esperava 800 palavras até o meio-dia. Eram dez e meia. O sol castigava as telhas de amianto, transformando o galpão numa estufa de vozes e odores.
Ele abriu o bloco de notas no celular, os dedos escorregando na tela engordurada pela umidade do ar.
"A cidade acorda..."
Apagou. Clichê. A cidade nunca dormia, apenas mudava de turno. E "acorda" era um verbo preguiçoso para aquele pandemônio.
Ao seu redor, o vocabulário era físico, gritado, arremessado.
— Olha o caranguejo! Tá vivo, freguesa! A corda tá nova!
— Tiquira pura! Mata a tristeza e o verme!
— Juçara grossa! Sangue de boi não chega nem perto!
Osmar tentou blindar os ouvidos, mas a sintaxe do mercado era invasiva. Ela não pedia licença; ela entrava pelos poros. A literatura, pensou ele, é uma atividade aristocrática que exige silêncio, café e uma janela com vista para o nada. Aqui, a janela dava para o tudo. Escrever no meio daquele caos era tentar fazer crochê num ringue de boxe.
Um homem passou esbarrando em seu ombro, carregando um cesto de vime cheio de mangas que pareciam corações pulsantes.
— Sai do meio, escritor! A fruta não espera!
Osmar gomes cambaleou, quase derrubando o celular dentro de um saco de goma. "A fruta não espera". A frase ficou quicando em sua mente. A urgência da vida real atropelava a calmaria da gramática. Todo cronista é um parasita dessa urgência, tentando congelar o movimento perpétuo em parágrafos estáticos. Mas como congelar o cheiro de coentro que invadia suas narinas com a violência de um soco?
Ele respirou fundo, absorvendo a mistura de maresia, podridão e vida. Decidiu que não lutaria contra o mercado; ele o usaria como tinta.
"O mercado não pede, ele intima. O verbo aqui é imperativo. Compre. Coma. Leve. A farinha é amarela como o sol que lá fora derrete o asfalto, e aqui dentro, derrete a paciência..."
Não. Ainda muito "bonitinho". O mercado não era bonito. Era brutal e honesto. Ele apagou "derrete a paciência" e escreveu "cozinha a alma em banho-maria". Melhor. Mais culinário.
— Vai levar o quê, patrão? — A voz veio de baixo. Uma senhora sentada num banquinho, descascando macaxeira com uma faca que brilhava perigosamente.
— Estou levando palavras, minha senhora. — Respondeu Osmar, num impulso de sinceridade.
Ela parou a faca, olhou para ele com olhos que já tinham visto muita enchente e muita seca, e soltou uma gargalhada rouca.
— Palavra não enche barriga, meu filho. Mas se temperar bem, engana a fome.
Aquela mulher acabara de lhe entregar a crônica pronta. "Palavra não enche barriga, mas se temperar bem, engana a fome." Era a definição perfeita da literatura. Um consolo. Um tempero para a realidade crua e indigesta.
Para aquela mulher, ele era apenas mais um na multidão, ela não sabia que estava diante de um Juiz de Direito e que estava sem saber lhe ajudando a escrever direito tudo o que uma crônica tem direito.
Osmar Gomes, agora anonimamente agia como presidente da Academia Ludovicense de Letras, começou a digitar freneticamente. Seus polegares voavam sobre o teclado virtual. Ele descreveu a senhora da macaxeira como uma guardiã de segredos subterrâneos. Descreveu o vendedor de ervas, que prometia cura para espinhela caída e dor de amor com a mesma garrafada escura. Descreveu o som das facas batendo nas tábuas de carne, um ritmo sincopado que marcava o tempo melhor que qualquer relógio.
A pressão do prazo desapareceu. O barulho ao redor, antes inimigo, virou trilha sonora. O grito do peixeiro virou vírgula. O choro de uma criança virou ponto e vírgula. A confusão de pernas e cestos virou a complexidade de uma oração subordinada que se desenrolava sem fim.
Ele suava. O suor pingava na tela, distorcendo as letras. A escrita é um ato físico, lembrou-se do "Exterminador" das palavras. Não é apenas mente; é corpo. É resistência. Escrever ali, espremido entre a sobrevivência alheia, era provar que a palavra ainda tinha lugar no mundo, mesmo que fosse um lugar apertado e barulhento.
"A literatura no mercado não é lida; é gritada. Ela tem preço, tem peso, tem cheiro. Ela apodrece se não for consumida hoje."
Faltavam dez minutos para o meio-dia. Ele releu o texto. Estava sujo, manchado, caótico. Estava vivo. Era pura literatura.Não tinha a elegância asséptica das crônicas de gabinete, mas tinha a pulsação da Rua da Estrela. Tinha o gosto do camarão seco e a aspereza da farinha.
Enviou o email. "Crônica enviada com sucesso". A mensagem na tela pareceu ridícula diante da grandiosidade daquele teatro humano.
Osmar guardou o celular no bolso. Sentiu uma fome voraz, aquela fome que só vem depois que a alma se esvazia no papel. Olhou para a senhora da macaxeira.
— Me vê dois quilos, por favor.
Ela sorriu, sem parar de descascar.
— Viu só? Palavra engana, mas a macaxeira sustenta.
Ele pagou, pegou a sacola pesada e saiu para o sol de meio-dia. A crônica estava feita, mas a verdadeira história continuava ali dentro, sendo escrita e reescrita a cada grito, a cada facada, a cada troca de moedas sujas. Tinha uma relação de afeto com aquele mercado, mas agora era apenas um turista naquele idioma de sobrevivência. Mas, por alguns minutos, conseguira conjugar os verbos certos. E isso, para um escritor, era o suficiente para justificar o dia. A resistência da palavra não estava em durar para sempre em livros de capa dura, mas em conseguir ser ouvida, nem que fosse por um segundo, no meio do rugido ensurdecedor da vida real.
p.s: Esta crônica é uma homenagem ao escritor e Cronista Osmar Gomes.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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