segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA - A Primeira Poda: O Alfabeto de Bacabal



O calor em Bacabal não se limita à temperatura; é uma entidade física que pressiona os ombros, uma mão pesada feita de luz e poeira que obriga tudo e todos a um ritmo mais lento. Na varanda daquela casa antiga, onde a madeira do assoalho rangia em lamentos secos a cada passo, Bento não segurava uma caneta para criar mundos, mas para destruí-los. Diante dele, sobre a mesa coberta por uma fina película de terra vermelha trazida pelo vento, repousava um dicionário volumoso, de capa dura e lombada gasta. Para qualquer outro habitante da Terra das Bacabas, aquilo era um repositório de saber. Para Bento, era um jardim infestado de ervas daninhas que precisava desesperadamente de uma poda.

Ele sempre acreditara que o maior erro da humanidade foi a prolixidade. O excesso. Havia palavras demais para sentimentos de menos. A cidade lá fora, com seu trânsito de motocicletas e o som distante de uma brega a tocar em algum bar na Estrada da Bela Vista, parecia confirmar sua tese: havia muito ruído preenchendo o vazio, muita casca para pouca polpa. Bento ajustou os óculos no nariz suado e abriu o livro na letra A. Seu instrumento de trabalho não era o teclado de um computador, mas uma caneta de tinta preta, grossa e definitiva. O ato de escrever, pensava ele, era vulgar quando comparado à nobreza do corte.

A primeira vítima foi "abracadabrante". Riscou-a com violência. Uma palavra que se pavoneava, cheia de sílabas desnecessárias para dizer algo surpreendente. O traço negro cobriu o verbete como uma cicatriz. O silêncio da tarde pareceu agradecer. Bento não buscava o minimalismo por uma questão estética de moda, mas por uma necessidade fisiológica de respiração. O texto, assim como o pulmão, precisava expulsar o ar viciado para que o novo pudesse entrar. Se ninguém cortasse os galhos mortos da língua, a árvore do pensamento sufocaria sob o peso de sua própria folhagem adornada.

Ele olhou para o quintal através da grade de ferro. Uma bacabeira erguia-se majestosa, suas palmas desenhando sombras no chão batido. A natureza sabia o que fazia. A bacaba não pedia licença para ser exata; era fruto, caroço, vinho e óleo. Não havia desperdício em sua constituição. A linguagem, contudo, havia se tornado obesa. As pessoas falavam "neste momento presente" quando "agora" bastava. Escreviam "subir para cima" com a naturalidade de quem ignora a gravidade. Bento sentia-se um cirurgião em um hospital de campanha, amputando o desnecessário para salvar o paciente.

— O que você está fazendo, menino? — A voz da mãe veio da cozinha, acompanhada pelo cheiro de café passado na hora. Era uma pergunta retórica, daquelas que ele estava prestes a eliminar de seu dicionário pessoal, mas a ternura no tom a salvava do extermínio.

— Limpando o terreno, mãe. — Respondeu ele, sem levantar os olhos da página manchada de tinta. — Tirando o mato do meio das letras.

Ela riu, um som curto e cristalino, e voltou aos seus afazeres. Ela não entendia, e talvez fosse melhor assim. A ignorância da complexidade linguística era uma bênção que permitia às pessoas viverem a poesia sem precisarem dissecá-la. Mas ele, amaldiçoado pela consciência da sintaxe e pela tirania da semântica, tinha um dever. Ele era o exterminador.

O termo soava agressivo, quase bélico. Exterminador. Aquele que põe fim. Mas Bento ressignificava a função a cada risco no papel. Não era a morte da língua, era a sua purificação. Michelangelo dizia que a estátua já estava dentro da pedra; cabia ao escultor apenas retirar o excesso. Bento aplicava a mesma lógica às frases. O romance perfeito, o poema definitivo, a crônica imortal, todos eles já existiam, soterrados sob toneladas de advérbios terminados em "mente" e adjetivos decorativos. Seu trabalho era escavar.

Voltou ao dicionário. "Alarido". Riscou. O som da palavra já incomodava. "Algazarra". Fora. Ele queria chegar ao osso da língua portuguesa, àquela estrutura branca e dura que sustenta o significado sem precisar de carne mole ao redor. Bacabal, com seu sol inclemente, ensinava isso. Aqui, a sombra era valiosa porque era escassa. A água do Mearim corria barrenta, carregando sedimentos, mas em sua essência, era vida líquida. O escritor precisava ser como aquele rio: carregar o peso da terra, mas continuar fluindo, ignorando as margens que tentavam contê-lo.

À medida que a tarde caía e o calor dava uma trégua momentânea, dando lugar a uma brisa morna que agitava as folhas das mangueiras, Bento sentiu o peso da responsabilidade. Cada palavra que ele poupava, cada termo que ele decidia manter, ganhava uma gravidade nova. "Amor". Ele parou a caneta sobre o verbete. Era uma palavra gasta, usada em canções ruins e em promessas falsas. Merecia ser exterminada? O dedo indicador pairou sobre o papel. Se riscasse "amor", o que sobraria para definir o aperto no peito que sentia ao lembrar de um rosto perdido ou a devoção de sua mãe coando café na cozinha?

Ele suspirou e deixou a palavra intacta. O exterminador também precisava saber a hora de embainhar a espada. A lição da poda não era deixar a árvore nua, mas deixá-la forte. Havia uma linha tênue entre a síntese e o silêncio absoluto. Se ele cortasse tudo, restaria apenas a página em branco, a perfeição inatingível e inútil. O desafio não era o vazio, mas a precisão. Escolher a palavra certa era como escolher a bacaba certa no cacho: exigia olho treinado e respeito pelo tempo de maturação.

A luz alaranjada do pôr do sol invadiu a varanda, tingindo o dicionário mutilado de cores quentes. Bento percebeu que sua tarefa em Bacabal era apenas o começo. A cidade, com suas contradições, sua poeira e sua vida pulsante, era o cenário ideal para essa primeira poda. Aqui, onde a terra é fértil mas cobra seu preço em suor, ele aprendeu que escrever é, antes de tudo, um ato de renúncia. Para que uma frase brilhe, mil outras precisam morrer na escuridão do não-dito.

Fechou o livro com um baque surdo. A poeira subiu, dançando nos raios de luz. Ele não havia escrito uma única linha naquele dia, e no entanto, sentia que havia produzido mais do que em anos de frenesi literário. Havia aberto clareiras na floresta densa do idioma. Amanhã, continuaria. Ainda havia todo o resto do alfabeto para enfrentar, e a cada letra, a promessa de encontrar a essência escondida sob a casca grossa da linguagem. O silêncio, agora, parecia menos um vazio e mais uma tela.

Com a caneta repousando ao lado do dicionário, Bento olhou para as próprias mãos, sujas de tinta e pó. Eram mãos de trabalhador, não muito diferentes das mãos dAs quebradeiras de coco de São Sebastião do Pretos ou dos pescadores do Mearim. A ferramenta mudava, mas o suor era o mesmo. A busca era a mesma: extrair o sustento, a verdade, a polpa. Naquela varanda em Bacabal, sob o testemunho mudo das árvores que davam nome à terra, ele aceitou sua vocação. Não seria um criador de labirintos, mas aquele que derruba as paredes para que se possa ver o horizonte. A primeira poda estava feita, e o que restava no papel, embora pouco, era finalmente verdadeiro.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humannidade

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