quinta-feira, 5 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Vinte e Quatro Horas de Fortaleza: O Amor sem Pausas



O despertador de Teresa Cristina não precisa de som. Às quatro e meia da manhã, o silêncio do bairro de Messejana, em Fortaleza, é quebrado pelo primeiro espasmo de Tiago no quarto ao lado. Teresa desperta instantaneamente, como se um fio invisível ligasse seu sistema nervoso ao do filho de dez anos. Tiago nasceu com paralisia cerebral e um diagnóstico severo de autismo, uma combinação que faz de cada segundo da vida de sua mãe um exercício de vigília absoluta.

Ela se levanta antes que o sol invada as frestas da janela. A primeira tarefa das suas vinte e quatro horas é a higiene de Tiago. O manejo exige força física e uma delicadeza infinita. Teresa, uma mulher miúda cujas mãos carregam calos de anos levantando um corpo que não lhe oferece sustentação, realiza a troca de fraldas e o banho com a precisão de um ritual sagrado.

— Bom dia, meu príncipe. O sol já vai aparecer. — Sussurra ela, embora Tiago responda apenas com um olhar vago e um leve estalo de língua. Para ela, aquele estalo é um bom-dia completo.

Às seis horas, começa a alquimia da cozinha. A dieta de Tiago é restrita, pastosa, calculada para evitar engasgos e crises alérgicas. Entre bater o liquidificador e conferir as dosagens das medicações anticonvulsivas, Teresa engole uma xícara de café frio, em pé, olhando para o relógio de parede. O tempo para uma mãe cuidadora em Fortaleza não corre; ele fustiga.

O deslocamento para a primeira terapia, no centro da cidade, é um capítulo aparte de resistência urbana. O ônibus de integração é um território de batalhas. Teresa precisa manobrar a cadeira de rodas pesada, lidar com as rampas hidráulicas que frequentemente quebram e, o que é pior, com os suspiros de impaciência dos outros passageiros que veem no embarque de Tiago um atraso para seus próprios destinos.

— Mais rápido, dona, tem gente com pressa! — Grita um homem no fundo do coletivo.

Teresa não olha para trás. Ela aprendeu a ensurdecer para o desrespeito. Sua energia é finita e ela não a desperdiçará com quem não consegue enxergar a montanha que ela sobe todos os dias carregando o filho no asfalto quente da capital cearense.

A manhã é uma sucessão de salas de espera: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional. Enquanto Tiago está dentro dos consultórios, Teresa não descansa. Ela usa o Wi-Fi da clínica para pesquisar recursos judiciais, responder mensagens no grupo das "Mães de Luta" e tentar organizar a papelada do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que o governo insiste em burocratizar. Sua mente é um escritório jurídico e uma clínica médica funcionando em paralelo.

Ao meio-dia, o calor de Fortaleza atinge o ápice. O asfalto parece exalar fogo. Teresa busca uma sombra perto do Hospital Infantil para dar o almoço a Tiago. Ela usa uma seringa para hidratá-lo, gota a gota, com a paciência de quem sabe que o tempo do filho é diferente do tempo do mundo. As pessoas passam, olham, algumas com pena, outras com um estranhamento que beira a repulsa. Teresa Cristina é invisível para a metrópole, mas ela é o universo inteiro para o menino que agora sorri levemente ao sentir o vento batendo no rosto.

A tarde reserva o atendimento escolar. Teresa luta para que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) seja cumprido. Ela senta-se no corredor da escola municipal, pronta para intervir caso Tiago tenha uma crise sensorial ou precise de aspiração. Ela é a mediadora, a sombra protetora, o suporte que o Estado muitas vezes falha em prover.

— Você não se cansa, Teresa? — Perguntou uma vez uma vizinha, admirada com a rotina.

— Eu não tenho o direito de me cansar. — Respondeu ela na época. Mas, na intimidade de suas vinte e quatro horas, o cansaço é seu companheiro mais fiel. É uma exaustão que dói nos ossos, mas que é silenciada pelo amor sem pausas.

O anoitecer em Fortaleza traz o retorno para casa. O ritual matinal se inverte: jantar, banho, medicações da noite, troca de fraldas. Quando Tiago finalmente adormece, por volta das dez da noite, o dia de Teresa ainda não terminou. Ela precisa lavar as roupas especiais, esterilizar os equipamentos e, finalmente, tomar seu primeiro banho demorado, onde o choro reprimido durante o dia pode, enfim, misturar-se à água do chuveiro.

Ela deita-se por volta da meia-noite, sentindo cada músculo do corpo pulsar de fadiga. Mas o sono de uma mãe típica é leve como uma pluma. Qualquer ruído no monitor eletrônico, qualquer alteração na respiração de Tiago, e ela estará de pé no segundo seguinte.

Essa rotina de vinte e quatro horas não é um feriado, não tem final de semana e não tem férias. É uma dedicação total que retira da mulher o direito ao lazer, ao autocuidado e, muitas vezes, à saúde mental. A invisibilidade das mães cuidadoras em Fortaleza é uma chaga social que ninguém quer curar. Elas são os pilares que seguram as vidas que a sociedade prefere não ver.

Ao fechar os olhos, Teresa pensa no dia de amanhã. Será quase idêntico ao de hoje. A mesma luta no ônibus, a mesma paciência na seringa de comida, o mesmo amor incondicional que a mantém íntegra no meio da tempestade.

Teresa Cristina adormece com o toque suave da mão de Tiago, que em um movimento reflexo durante o sono, buscou a mão da mãe no lençol. Esse pequeno gesto, essa conexão elétrica e pura, é o que recarrega suas baterias para as próximas vinte e quatro horas. O amor sem pausas de Teresa não é um sacrifício romântico; é o ato político mais forte que existe: a afirmação de que toda vida, por mais complexas que sejam suas condições, merece ser vivida com ternura, cuidado e um respeito que não dorme, nunca.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





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