Na noite da última sexta-feira, dia 27, a cadeira da memória ganhou nova guardiã na Academia Bacabalense de Letras. Autora de outras obras, a escritora Francinalva Muniz foi eleita para integrar a instituição após a avaliação de sua obra "Por alguns minutos, eles", um livro que transforma lembrança em arquitetura narrativa e faz da história familiar um espelho coletivo.
O livro chegou às mãos da comissão avaliadora carregando mais que papel e tinta. Trouxe a trajetória de Joaquim Coimbra Muniz e Benevenuta Carvalho Muniz, protagonistas de uma saga que atravessa décadas e geografias, costurando a formação da família Muniz no tecido social maranhense.
A narrativa se desenrola entre as décadas de 1940 e 1970, tendo como cenário principal o estado do Maranhão, especialmente os municípios de Vargem Grande e Sao Luis, com breves passagens pelo Rio de Janeiro e referências a países europeus. O pano de fundo histórico inclui guerras, recessões, pandemias, o endurecimento político e a implantação da ditadura militar no Brasil. Ainda assim, o foco da autora permanece no cotidiano da resistência silenciosa: a luta por alimento, moradia e educação em meio às adversidades.
O enredo alterna momentos narrativos e descritivos, expondo carências que marcaram, e em muitos casos ainda marcam, famílias brasileiras. Escassez de comida, moradia precária e poucas oportunidades escolares contrastam com valores que sustentam a espinha dorsal da obra: honestidade, integridade, força de trabalho e amor como elemento estruturante da esperança.
Entre os clímax da narrativa estão a doença da mãe quando os filhos ainda eram pequenos, a mudança de cidade motivada por conflitos locais e o impacto decisivo da educação na transformação de vida das novas gerações. A morte de dona Vanuta e o novo casamento do viúvo encerram ciclos e inauguram outros, numa cadência que respeita o ritmo imprevisível da existência.
A obra também se destaca pelo uso de recursos poéticos complementares. A história em prosa é ratificada por um acróstico intitulado Francinaldo Carvalho Muniz e por uma ode dedicada à senhora Muniz, ambos assinados por Cinaldo, ampliando o caráter afetivo e autorreferencial do livro.
Memórias sensoriais percorrem as páginas: o toucinho de porco estalando na frigideira, o bolo frito, o cheiro de café e querosene, o sal, o açúcar, a laranja, a bandinha e o parque de diversões. Elementos culturais como o tradicional festejo de Sao Raimundo do Mulundus compõem o cenário religioso e comunitário. A biodiversidade regional também se faz presente com nambus, preás, rolinhas e peixes de rio como traíra, mandi e piau-de-coco, além de culturas agrícolas como feijão, milho, arroz, mandioca e batata.
Ao eleger Francinalva Muniz, a Academia reconhece não apenas uma escritora, mas uma narradora de raízes. Por alguns minutos, eles é mais que memorial familiar: é um registro de tempo, território e valores que atravessam gerações. A cerimônia de posse deverá ser anunciada nos próximos dias, marcando oficialmente a entrada da autora no seleto quadro de imortais da literatura bacabalense.







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