Na feira central do mercado da rodoviária de Bacabal, o vento já tinha levantado poeira suficiente para embaçar as vistas, mas Dona Mocinha enxergava com a clareza de quem lê o mundo não por letras, mas por cheiros. Diante dela, em bacias de alumínio amassado, repousava o objeto de sua devoção e sustento: a bacaba. Escura, pequena, quase mineral em sua dureza aparente, a fruta desafiava qualquer descrição simplista. Para um forasteiro, era apenas um coquinho. Para Dona Mocinha, era um tratado de identidade.
Eu me aproximei balcão improvisado de madeira, com meu caderno de anotações em punho, buscando capturar a "essência regional" para uma crônica que a editora no Sul me cobrava. A palavra "regional" sempre me soou pequena, uma gaveta onde se guarda o que não cabe na sala de estar da literatura canonizada. Mas ali, sob o teto de zinco quente da feira, o conceito de centro e periferia parecia se reinverter.
— Bom dia, Dona Mocinha. Como está a venda da... "fruta"? — Perguntei, tropeçando na generalização.
Ela me olhou com a condescendência de quem sabe que a ignorância urbana é uma doença incurável.
— Isso aqui não é fruta, menino. Isso é vinho de terra. — Ela pegou um punhado de bacabas e as deixou cair de volta na bacia. O som foi seco, percussivo. Tluc, tluc, tluc. — Fruta é o que se come e joga o caroço fora. A bacaba a gente bebe, a gente passa no cabelo, a gente acende a lamparina com o azeite. A bacaba é a mãe que não reclama.
Anotei a frase: "A bacaba é a mãe que não reclama."
Parecia poesia, mas era semântica. A definição de Dona Mocinha não estava no dicionário Aurélio. No dicionário, "bacaba" seria descrita como "fruto da bacabeira (Oenocarpus bacaba), palmeira da Amazônia...". Frio. Botânico. Morto. A definição da feirante carregava a carga histórica de gerações que sobreviveram graças àquele óleo denso e nutritivo. A palavra "bacaba", na boca dela, tinha um peso específico maior do que na minha caneta.
— O senhor escreve? — Perguntou ela, apontando com o queixo para o meu caderno.
— Tento. Estou escrevendo sobre a cidade. Sobre o que faz Bacabal ser Bacabal.
— Então para de escrever e toma. — Ela me estendeu um copo americano cheio de um líquido pardo, morno, com uma nata bege boiando na superfície. — Não se escreve sobre o que não se tem na barriga.
Bebi. O gosto era terroso, oleoso, uma mistura de castanha com chocolate amargo e madeira molhada. Não era doce, não era salgado. Era um sabor antigo. Enquanto o líquido descia, grosso, senti que estava ingerindo não apenas calorias, mas uma sintaxe. Aquele gosto explicava o ritmo lento da fala local, a paciência necessária para esperar o fruto amolecer na água morna, a força necessária para quebrar a casca.
A linguagem é moldada pelo que a boca consome. Quem come hambúrguer pensa em inglês rápido, prático, descartável. Quem bebe bacaba pensa em ciclos, em colheita, em preparo demorado. O pensamento discursivo de Bacabal nascia daquela palmeira. As frases ali eram como a bacaba: duras por fora, exigindo trabalho para revelar a polpa, e deixando um residual oleoso na memória.
— O povo diz que a bacaba tá acabando. — Comentou um homem ao meu lado, um caboclo com mãos que pareciam raízes. — As palmeiras tão caindo pra dar lugar pro boi. E quando a bacaba acabar, Bacabal vai ser só "bal". Um som oco. Aliás em Bacabal não tem mais bacaba...
A frase me atingiu como uma pedrada. "Vai ser só 'bal'". A extinção da planta não era apenas um desastre ecológico; era uma catástrofe linguística. Se o objeto desaparece, o substantivo perde o lastro. Vira uma palavra fantasma, assombrando os dicionários sem ter correspondência no mundo real. A identidade de uma região não está nos seus monumentos de concreto, mas naquilo que brota do chão e entra na boca do povo.
Olhei para o copo vazio. O resíduo marrom desenhava mapas nas paredes de vidro. A crônica que eu pretendia escrever, algo folclórico, pitoresco, morreu ali mesmo. Não se pode tratar a bacaba como um adorno regional. Ela é o sujeito da oração. Sem ela, o predicado da cidade desmorona.
A literatura regionalista muitas vezes cai no erro de tentar traduzir o intraduzível, de explicar o sabor da bacaba para quem só conhece uva. Mas a verdadeira função do escritor ali não era traduzir, era testemunhar. Era registrar que aquela palavra, "bacaba", carregava em suas três sílabas abertas o peso de uma civilização que resistia ao avanço do pasto e do esquecimento.
— A senhora acha que a palavra morre antes da planta? —Perguntei, arriscando uma filosofia de feira.
Dona Mocinha riu, mostrando dentes fortes que quebraram muitos caroços.
— A palavra só morre quando a gente esquece o gosto, meu filho. Enquanto tiver uma velha fazendo o vinho e um menino bebendo e ficando com o bigode sujo, a palavra tá viva. O perigo não é o boi. O perigo é o refrigerante.
Ela tinha razão. A ameaça à identidade não vinha apenas da destruição física, mas da substituição simbólica. O refrigerante era a sintaxe globalizada, doce, fácil, gaseificada, que não exigia mastigação nem espera. A bacaba era a resistência do sabor difícil, do preparo manual.
Saí da barraca com o gosto da terra na boca e a certeza de que meu texto precisaria mudar. Eu não podia mais usar adjetivos leves. Precisava encontrar palavras com casca dura, palavras que precisassem ser deixadas de molho para soltar o sentido. A semântica da bacaba exigia um novo tipo de escrita: uma escrita nutritiva, oleosa, que manchasse o papel e sustentasse o leitor por longas horas de fome.
Caminhei pelas ruas de Bacabal sentindo o peso do sol e o peso da história que aquela fruta carregava. A cidade, com seu nome derivado da palmeira, era um monumento vivo àquele caroço pequeno. E eu, com minhas pretensões literárias, era apenas um forasteiro tentando beber de uma fonte que, se eu não fosse cuidadoso, ajudaria a secar com minhas descrições superficiais. Decidi, então, que minha crônica não explicaria o gosto. Ela apenas diria: "Venha e beba. Antes que o boi coma a palmeira e a palavra vire apenas um som."







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