O vento que soprava do canal de São Marcos trazia consigo o cheiro de salitre e o eco de séculos de história, mas para a pequena Beatriz, de nove anos, as ruínas de Alcântara não eram apenas pedras mortas. Elas eram labirintos vivos onde ela se sentia segura. Ali, entre as colunas de pedra de cantaria e os portais que emolduravam o céu azul do Maranhão, as coisas faziam sentido. As pedras não mudavam de lugar. Elas não zombavam dela. Elas simplesmente existiam, sólidas e silenciosas.
Diferente das letras.Sentada em um degrau de pedra desgastada perto da Igreja de Matriz de São Matias, Bia segurava o livro de Língua Portuguesa. Ela olhava para a página com uma mistura de pavor e desafio. Para qualquer colega de sua turma na escola municipal, aquelas eram frases simples sobre a história da cidade. Para Bia, porém, era um baile desgovernado.
— O "b" virou "d" de novo. — Sussurrou ela, apertando os olhos como se pudesse forçar os caracteres a se fixarem no papel.
As letras não ficavam paradas. Elas deslizavam, trocavam de par, giravam sobre o próprio eixo e se escondiam umas atrás das outras. O "p" se fantasiava de "q", e as palavras, que deveriam ser pontes para o conhecimento, tornavam-se armadilhas. Ler uma única linha exigia dela o esforço hercúleo de um maratonista, uma concentração tão exaustiva que, após dez minutos, sua cabeça latejava e a náusea subia pela garganta.
Na escola, o silêncio de Alcântara era substituído pelo ruído cortante do julgamento.
— Vamos lá, Beatriz. É uma palavra de três sílabas. Até o primeiro ano já leu isso. — Dizia o professor, batendo a ponta do lápis na mesa em um ritmo que parecia um martelo batendo em sua têmpora.
Bia sentia o rosto ferver. Ela olhava para a palavra "Palácio". Mas seus olhos viam "Qalaçio", depois "Balácio", e então as letras simplesmente se embaralhavam em um borrão cinzento.
— É... P... Pa... — Ela gaguejava, o coração batendo na base da língua.
— Preguiça! — Gritou um colega do fundo da sala, provocando uma onda de risinhos abafados. — A Bia é inteligente pra ver desenho, mas pra ler é uma lerdeza só.
O professor não corrigiu o colega. Ele apenas suspirou, aquele suspiro longo e carregado de uma paciência falsa que dói mais que uma palmada.
— Tente se esforçar mais, Beatriz. Se você não ler, nunca vai entender a história da sua cidade.
Daquele dia em diante, as ruínas se tornaram o refúgio de sua inteligência incompreendida. Bia fechou o livro com força e olhou para o casarão à sua frente. Suas paredes preservavam os azulejos que haviam resistido ao tempo. Ela se levantou e caminhou até a parede. Com a ponta dos dedos, ela traçou o relevo dos desenhos nos azulejos.
Bia tinha o que os médicos e psicopedagogos chamariam mais tarde de dislexia, mas em Alcântara, naquele momento, ela era apenas a "menina que não sabe ler direito". O que ninguém percebia, contudo, era que Bia lia o mundo de uma forma que ninguém mais conseguia.
Ela identificava a idade de uma ruína pela textura do reboco de óleo de baleia. Ela percebia mudanças sutis na direção do vento que indicavam chuva antes mesmo das nuvens aparecerem sobre a baía. Ela conseguia montar quebra-cabeças complexos de cabeça para baixo e projetar, no chão de terra, mecanismos de polias que facilitariam o transporte de baldes de água. Sua inteligência era tridimensional, visual e profunda. Ela era uma engenheira nata em um mundo que só dava valor a quem decifrava códigos planos no papel.
Sua mãe, Dona Rosa, trabalhava produzindo o famoso Doce de Espécie. Uma tarde, Bia estava na cozinha observando a mãe lutar para medir os ingredientes de uma encomenda grande que precisava de proporções exatas para não desandar.
— Ai, Bia, minha cabeça tá uma confusão com esses números !— Reclamou Dona Rosa, olhando para uma caderneta borrada com anotações de quilos e gramas.
Bia aproximou-se. Ela não olhou para o caderno. Ela olhou para a pilha de coco, para o saco de farinha e para o tacho. Em sua mente, os ingredientes ganharam formas de esferas e cubos coloridos que se encaixavam perfeitamente.
— Mãe, não precisa de cinco medidas. Se a senhora tirar dois dedos desse pote e colocar o dobro daquele ali pequeno de manteiga, vai dar certinho o peso que o moço pediu.
— Como tu sabe, menina?
— Eu vejo o tamanho que eles ocupam no pote, mãe. É como se eu estivesse montando uma parede de pedra. Se colocar essa massa aqui, sobra esse buraquinho ali.
Dona Rosa seguiu o conselho da filha por puro cansaço. O doce saiu perfeito, na medida exata. Naquele momento, a mãe percebeu que a filha não era "atrasada". Ela apenas processava a realidade com outra lógica.
Porém, a barreira do sistema educacional continuava operando sob a lógica da exclusão. Aos olhos da escola, o valor de Bia era medido exclusivamente pela fluência de sua leitura em voz alta.
Certo dia, a escola organizou uma excursão pelas ruínas para uma prova prática de história. O professor levava um guia impresso e exigia que cada aluno lesse um parágrafo diante dos monumentos. Quando chegou a vez de Bia, diante das colunas do Pelourinho, ela travou. O papel em sua mão parecia vibrar. As letras "Pelourinho" pareciam formigas correndo para fora da folha.
— Eu não consigo ...— Disse ela, com os olhos lacrimejando.
O grupo de alunos começou a cochichar. O professor ia começar o sermão costumeiro sobre "falta de dedicação", quando Bia apontou para a base da coluna.
— Mas eu sei o que aconteceu aqui! — Disse ela, a voz subitamente firme. — Eu não consigo ler o que o senhor escreveu no papel, mas eu olhei para as marcas na pedra. Vejam aqui embaixo. Essa marca de ferro não é de enfeite. Foi onde o portal cedeu no grande terremoto de mil setecentos e pouco, e se o senhor olhar a direção desse desgaste, dá para ver que eles tentaram consertar usando pedra de outro lugar, porque o brilho é diferente. E as conchas presas no cimento aqui em cima mostram que essa parte foi feita pela família que morava na rua de baixo, porque o reboco deles é igualzinho ao do casarão que ainda tem telhado.
O silêncio que se seguiu não foi o de zombaria. Foi o silêncio do espanto. O professor baixou o guia. Ele olhou para a base da coluna e depois para a menina que, teoricamente, "não aprendia nada". Ele percebeu que Beatriz havia absorvido toda a história de Alcântara através da observação, da síntese visual e da compreensão espacial, enquanto os outros alunos apenas decoravam parágrafos que esqueceriam na semana seguinte.
Naquela tarde, o professor compreendeu que precisava mudar sua pedagogia. Ele lembrou-se de Paulo Freire, de que o ensinar exige o reconhecimento de que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Beatriz já intervinha no mundo; ele é que não sabia ler os sinais que ela emitia.
Ao retornar para casa, Bia sentou-se novamente nas ruínas. Ela abriu o livro, mas desta vez não sentiu o peso da derrota. Ela sabia que precisava aprender a domar aquelas letras dançantes, e sabia que, com o apoio certo, com o Atendimento Educacional Especializado que o professor prometera articular com a direção, ela conseguiria. A dislexia não era um teto, era apenas um tipo diferente de terreno.
Ela olhou para o horizonte de Alcântara, onde o sol se deitava sobre as águas. As letras no livro ainda pareciam querer bailar, mas agora Bia sabia um segredo: o mundo era um livro muito maior. E naquele livro de pedras, ventos e histórias gravadas no azulejo, ela era a melhor leitora de todas.
A verdadeira inclusão começou ali, entre os pilares de uma civilização antiga. Não se tratava apenas de ensinar a menina a ler o papel, mas de ensinar a cidade a ler a menina. Pois a inteligência, assim como as ruínas de Alcântara, tem muitas camadas, e as mais profundas e resistentes nem sempre estão na superfície que os olhos apressados conseguem ver.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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