domingo, 15 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Virgula do Destino



A luz do abajur, um círculo amarelo e artificial, era o único sol que iluminava o pequeno escritório de Otávio Filho em Fortaleza. Do lado de fora, a cidade pulsava com suas praias e vida noturna, mas ali dentro, o tempo corria em outra frequência, ditada pelo ritmo das frases alheias. Otávio não era escritor; era revisor. Sua função era limpar a bagunça deixada pelos criadores, varrer o excesso de vírgulas, podar advérbios e alinhar a sintaxe torta de quem acreditava que inspiração dispensava gramática.

Sobre a mesa de fórmica gasta, pilhas de redações do terceiro ano do ensino médio da escola Joaquim Nogueira aguardavam seu julgamento. O tema da semana fora "O Futuro da Comunicação na Era Digital". Um prato cheio para clichês sobre "conectividade", "globalização" e a indefectível citação de Bauman sobre a "modernidade líquida". Otávio suspirou, a caneta vermelha pairando sobre a folha pautada de um aluno chamado Jonas.

A letra era miúda, quase microscópica, como se o garoto quisesse economizar tinta ou esconder o conteúdo. Otávio ajustou os óculos e começou a ler.

"A língua não vai morrer; ela vai apenas perder o corpo."

Otávio parou. A frase inicial não tinha erros. A concordância estava perfeita. A crase, ausente, estava correta. Mas havia algo no tom que o incomodou. Continuou.

"Nós não falaremos mais. Nós apenas pensaremos em ícones. A palavra escrita será um luxo de arqueólogos. O sujeito desaparecerá, restando apenas o predicado da ação pura. Verbo sem carne."

Um arrepio frio percorreu a espinha de Otávio, apesar do calor abafado da noite cearense. Aquilo não parecia uma redação escolar. Parecia uma profecia. Ele seguiu o texto, procurando obsessivamente por um erro, um deslize, uma vírgula fora do lugar que o trouxesse de volta à segurança de sua função de corretor.

Encontrou-a no terceiro parágrafo.

"A vírgula, será a primeira a cair."

Otávio circulou o erro com força, quase rasgando o papel. Uma vírgula separando o sujeito do predicado. O pecado capital da sintaxe. O crime inafiançável. Ele sorriu, aliviado. Ali estava a prova de que Jonas era apenas um estudante confuso, tentando soar profundo. Em crime que até os grandes escritores comentem.

Mas então, ele releu a frase anterior: "O silêncio será a gramática final." E logo depois do erro gritante: "A pausa não será mais necessária porque o fluxo será contínuo. A vírgula é o soluço da dúvida. No futuro, não haverá dúvida. Apenas dados."

Otávio largou a caneta. A vírgula "errada" não era um erro. Era uma demonstração. Jonas havia colocado a vírgula ali de propósito, para ilustrar a "pausa" que ele dizia estar condenada. Era uma metalinguagem brutal, aplicada por um adolescente de dezessete anos.

O revisor sentiu-se tonto. Ele dedicara a vida a preservar a norma culta, a lutar contra o gerundismo e a defender a colocação pronominal. E agora, diante daquele papel barato, sentia que estava defendendo um castelo de areia contra a maré alta. Se o futuro da língua era a fluidez absoluta, o dado puro, sua profissão de jardineiro de frases estava com os dias contados.

Ele continuou lendo, agora não mais como revisor, mas como uma testemunha aterrorizada.

"Os emojis são os hieróglifos do amanhã. Voltaremos às cavernas, desenhando nas paredes luminosas das telas. A complexidade da oração subordinada morrerá porque o cérebro não suportará a espera pelo sentido. Tudo será frase simples. Sujeito, verbo, objeto. E depois, apenas verbo. E depois, apenas imagem."

Otávio olhou para as estantes ao seu redor, repletas de gramáticas, dicionários e clássicos da literatura. Eram túmulos. Túmulos de papel onde repousavam regras que ninguém mais respeitaria. Ele pegou a caneta vermelha novamente, mas sua mão tremia. Corrigir aquela redação parecia um ato de vandalismo contra um oráculo.

No final da página, Jonas havia escrito:

"Professor, não corrija o que não tem conserto. A língua está mudando de estado físico. Ela está virando gás. Tentar segurá-la com regras é tentar prender fumaça com as mãos."

Otávio fechou os olhos. A imagem da fumaça era precisa demais. Ele passou a vida tentando engarrafar fumaça, colocar rótulos em nuvens. A obsessão pela correção, percebeu ele com uma clareza dolorosa, era apenas medo do caos. A gramática era a grade que ele construíra para se proteger da imprevisibilidade da vida.

Ele olhou para a vírgula circulada em vermelho. A "vírgula do destino". Ela estava ali, desafiadora, separando o sujeito do predicado, quebrando a regra sagrada, e no entanto, fazendo todo o sentido do mundo dentro da lógica do texto. Aquela vírgula não era um erro; era um grito de resistência. Era a última pausa antes do fluxo contínuo e avassalador que Jonas previa.

Otávio pegou o corretivo líquido, o famigerado "branquinho", e, com uma delicadeza cerimonial, cobriu o círculo vermelho que fizera. Deixou a vírgula intacta. Deixou o erro brilhar em sua insolência profética.

Guardou a redação na pasta, separada das outras. Não daria nota. Não havia nota para o fim do mundo como o conhecíamos. Apagou a luz do abajur e ficou no escuro, ouvindo o som distante do trânsito de Fortaleza. O ruído constante, sem pausas, sem vírgulas. O som do futuro chegando. E pela primeira vez em anos, Otávio Filho não sentiu vontade de corrigir nada. Apenas escutou, tentando decifrar a nova gramática que nascia no caos lá fora, enquanto sua caneta vermelha dormia, inútil, sobre a mesa.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





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