O relógio de parede da sala dos professores da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, não marcava apenas horas; ele parecia contar os batimentos cardíacos de uma resistência exausta. O ponteiro dos segundos avançava com um clique metálico que ecoava no silêncio tenso de um intervalo que se recusava a ser relaxante. Sobre a mesa central, o café, servido em uma xícara de plástico laranja que já vira dias melhores, exalava um vapor que se misturava ao cheiro de giz e corretivo líquido.
Reginaldo, o professor veterano de Geografia, cujos mapas mentais já incluíam cada buraco na calçada do bairro e cada atalho para fugir do trânsito na hora do rush, não estava corrigindo provas. Seus óculos, equilibrados na ponta do nariz, focavam em algo muito mais sagrado: o calendário escolar oficial da Secretaria de Educação. Ele não lia o papel; ele o estudava com a intensidade de um arqueólogo diante de hieróglifos que revelavam a localização de uma tumba cheia de ouro.
― Senhores, aproximem-se! ― Convocou Reginaldo, a voz baixa, carregada de uma solenidade quase eclesiástica. ― O Conselho dos Mestres está oficialmente aberto. Tragam a caneta marca-texto vermelha. Não a rosa, a vermelha. Cor de sangue. Cor de feriado.
Aos poucos, a fauna acadêmica do colégio Joaquim Nogueira se aproximou. Sandra, da Matemática, que conseguia calcular a probabilidade de uma briga no pátio apenas pelo tom de voz dos alunos do nono ano, sentou-se à esquerda. Do outro lado, apareceu o jovem professor de História, ainda ostentando uma olheira funcional de quem passara a madrugada planejando uma aula lúdica sobre a Revolução Francesa, sem saber que sua própria guilhotina estava armada no oitavo ano C.
― O que temos para o próximo mês, Reginaldo? ― Perguntou Sandra, cruzando os braços e apertando os olhos. ― Diga-me que não estamos atravessando um deserto de trinta dias úteis. Meu MBI, o inventário de Burnout, está apitando mais que sensor de ré em estacionamento de shopping no Natal.
Reginaldo pigarreou. Ele deslizou o dedo indicador pelo papel, parando em uma data específica.
― Meus caros, a situação é delicada, mas há uma luz. Vejam o dia doze. Cai numa quinta-feira.
Um suspiro coletivo, entre o alívio e a descrença, preencheu a sala. O silêncio que se seguiu foi de pura especulação metafísica. Naquele ambiente, um feriado na quinta-feira não era apenas uma data cívica ou religiosa; era uma promessa messiânica de um "enforcamento" coletivo, o chamado feriado prolongado, a ponte que ligava o abismo da exaustão ao paraíso do ócio.
― Quinta-feira... ― Suspirou o professor de História, os olhos começando a brilhar. ― Se o conselho de classe for antecipado para a quarta, e a reunião pedagógica for remota na sexta...
― Negativo, gafanhoto! ― Interrompeu Reginaldo, com a autoridade de quem já sobreviveu a dez reformas previdenciárias. ― Você é novo e ainda acredita em milagres administrativos. A secretaria nunca dá a sexta de graça. A sexta-feira após um feriado de quinta é o que chamamos de "Zona de Sacrifício". É o dia em que três alunos aparecem, dois deles porque não têm chave de casa e um porque a mãe esqueceu de buscá-lo na creche ao lado e o deixou aqui por engano.
― Mas a gente pode forçar a barra. ― Interveio Sandra, Peguntando a calculadora. ― Se tivermos setenta por cento de ausência docente por "viroses súbitas" na sexta, a direção é obrigada a declarar ponto facultativo por falta de quórum pedagógico. É uma ciência exata, Reginaldo. Eu tenho a planilha de ausências dos últimos cinco anos. O pico inflamatório do professor cearense sempre coincide com feriados que caem em terças ou quintas. É biológico. É o corpo reagindo à opressão do giz.
A conversa fluiu para o que os professores mais veteranos chamavam de "A Liturgia das Datas". Começaram a contar, um a um, os dias úteis restantes. Para aquele grupo, a vida não era medida em meses, mas em "segundas-feiras traumáticas" e "sextas-feiras de sobrevivência". Cada feriado era um santo padroeiro da saúde mental. São Tiradentes era invocado com fervor por ter caído em uma segunda, proporcionando três dias de silêncio absoluto longe de gritos de "fala baixo, oitavo ano!".
― E o Dia do Professor? ― Indagou o novato.
Reginaldo soltou uma risada rouca, que parecia vir de uma garganta lixada por anos de poeira de quadro negro.
― Dia do Professor cai no domingo este ano, meu jovem. É a prova definitiva de que Deus dá as laringes mais fortes para os pecadores mais resistentes. É uma ofensa pessoal. É o universo dizendo: "Trabalhe, escravo do saber". A única esperança é o feriado municipal da padroeira, mas ouvi boatos na Secretaria de que a prefeitura quer adiar a folga para coincidir com o fim de semana.
― Heresia! ― Exclamou Sandra, batendo com a caneta na mesa. ― Mudar a data da Santa é pecado administrativo. A fé do professor reside na folga de terça-feira que quebra o ciclo vicioso da despersonalização.
A obsessão era tamanha que Reginaldo retirou de sua pasta um calendário paralelo, desenhado à mão. Nele, os dias não tinham números, mas níveis de estresse. As segundas eram vermelhas; as quartas, laranjas; e os feriados eram pintados de dourado, com pequenas auréolas desenhadas sobre os números. Era a cartografia da esperança. Ali, o feriado de novembro não era a Proclamação da República, era o "Dia do Grande Respiro".
― Vocês já repararam. ― Continuou Reginaldo, baixando ainda mais o tom, como se estivesse revelando um segredo de estado. ― Que o aluno também sente o cheiro do feriado? Na quarta-feira que precede a folga, o nível de decibéis da escola cai. Eles entram em estado catatônico de antecipação. É o único momento de comunhão real entre mestre e aprendiz: o desejo mútuo de não estar ali.
― É verdade! ― Concordou a professora de História. ― Ontem um aluno me perguntou se a Revolução Francesa aconteceu num feriado, porque "se não foi, o povo devia estar muito estressado para fazer barricada". Eu quase dei dez para ele pela compreensão sociológica da fadiga humana.
O ritual continuou com a conferência das datas de encerramento do bimestre. A contagem de dias se tornou uma operação tática. Quantas aulas ainda restavam? Quantos minutos de exposição ao risco de uma pergunta sem sentido sobre o fim do mundo no meio de uma explicação sobre verbos irregulares? Cada feriado descontado era uma vitória em uma guerra de atrito.
De repente, a porta da sala dos mestres se abriu com um estrondo. Era a diretora, carregando uma pilha de circulares que pareciam prontas para esmagar qualquer resquício de alegria.
― Bom dia, equipe. Passando para avisar que a Secretaria autorizou a reposição de carga horária do feriado que enforcamos no mês passado. Será no próximo sábado letivo, com direito a gincana pedagógica e reunião de pais à tarde.
O silêncio que se instalou foi absoluto. Reginaldo olhou para o seu calendário dourado. O marca-texto vermelho parecia chorar sobre o papel. A liturgia fora interrompida por um decreto de penitência.
― Sábado... letivo... ― Repetiu Sandra, o tom de voz perdendo a cor. ― Isso invalida o cálculo da minha homeostase emocional. Vou ter que recalcular a rota da minha sanidade.
Reginaldo, no entanto, não se deixou abater por muito tempo. Ele era um sobrevivente. Com a calma de quem já viu crises econômicas e trocas de governo sem nunca perder um feriado de vista, ele pegou a caneta e começou a riscar o sábado com uma cor cinza, como quem marca o purgatório, mas logo seus olhos brilharam novamente ao focar no final de dezembro.
― Calma, colegas. Não percam a fé no sistema. Se contarmos os dias de greve previstos para o próximo semestre e somarmos às folgas eleitorais que virão com o treinamento de mesários... ainda temos uma chance de chegar ao Natal com pelo menos três neurônios funcionando de forma síncrona.
A sala dos professores voltou a respirar. O café já estava frio e o tempo de intervalo estava chegando ao fim, mas o grupo permanecia ali, unido pelo pacto silencioso de que a verdadeira pedagogia era a arte de cronometrar a distância entre uma segunda-feira e a liberdade de um descanso prolongado. A estratégia de enfrentamento agora envolvia planejar minuciosamente como transformar o sábado letivo em uma sessão de cinema com filmes de três horas de duração, garantindo que o esforço vocal fosse reduzido ao mínimo necessário para a sobrevivência das cordas vocais.
Ao saírem da sala, em direção ao corredor barulhento da Joaquim Nogueira, Reginaldo guardou o calendário junto ao peito. Ele sabia que, enquanto houvesse um quadradinho vermelho no horizonte, haveria força para enfrentar o caos. Afinal, para um professor veterano, a esperança não é a última que morre; a esperança é a folga que ainda não foi revogada por uma portaria municipal.
A contagem regressiva para o dia doze havia começado. Eram apenas setecentas e vinte horas de aula, trezentas intervenções disciplinares e duas dúzias de reclamações sobre a merenda até que o silêncio sagrado do feriado finalmente reinasse sobre a sanidade do magistério, permitindo que cada um deles pudesse, por um breve momento, esquecer que a gramática e a geografia existiam fora das quatro linhas do descanso.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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