Quando os primeiros raios de sol de São Luís atravessaram a janela do quarto no bairro da Cohama, atingindo o rosto de Mateus Ribeiro, sua mente já estava em rotação máxima há pelo menos duas horas. Ele não acordara com o sol; ele simplesmente nunca havia desligado o motor. Enquanto a cidade despertava sob o manto de umidade característica da Ilha do Amor, Mateus tentava, pela quarta vez consecutiva, organizar os livros de Antropologia na estante, apenas para ser sequestrado pela visão de uma pequena rachadura no gesso do teto que, jura ele, tinha o formato exato do contorno da costa maranhense.
— Concentra, Mateus. O trabalho de campo não vai se escrever sozinho. — Murmurou para as paredes, embora soubesse que sua voz era apenas um ruído a mais na orquestra de pensamentos que aceleravam em seu lobo frontal.
Mateus era um estudante de Ciências Sociais da UFMA, um jovem de vinte e dois anos cujos olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade elétrica, típica de quem possui o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Para ele, a capital maranhense não era apenas um cenário geográfico; era um estímulo sensorial ininterrupto. O problema não era a falta de atenção, como muitos professores insistiam em anotar em seus boletins desde a infância na rede pública. O problema era o excesso dela. Ele prestava atenção em tudo: no ritmo do bumba-meu-boi que ecoava de ensaios distantes, no padrão das ondas do mar na Ponta d'Areia, na temperatura exata do café que esquecera sobre a mesa e, principalmente, na tese complexa sobre as matrizes africanas que precisava entregar em dois dias.
Ele pegou sua mochila, enchendo-a de canetas de quatro cores diferentes, três cadernos (um para a faculdade, um para desenhos e outro para ideias aleatórias que surgiam como flashes de magnésio) e saiu de casa. O trajeto até o Centro Histórico, onde planejava observar a dinâmica dos casarões para seu trabalho, era um desafio de navegação mental.
No terminal de integração da Cohama, o caos era uma sinfonia. Mateus sentia cada empurrão, ouvia cada conversa paralela e, por um momento, ficou paralisado diante de um cartaz de um show de reggae que seria no final de semana. Reggae. Jamaica. Radiolas. Frequências baixas. Como o som viaja na água? Em questão de segundos, ele já não estava mais no terminal; sua mente navegava por artigos científicos sobre acústica que lera três meses atrás em um surto de interesse por engenharia de som.
— Ei, rapaz! Vai subir ou vai ficar aí namorando o poste? — o motorista do ônibus gritou, despertando-o do transe.
Mateus subiu apressado, sentindo o rosto queimar. Sentou-se perto da janela e pegou o caderno. Tentou escrever sobre o trabalho de antropologia, mas o ritmo do motor do ônibus, um tantan-tantan metálico e persistente, o lembrou da batida do tambor de crioula. Ele começou a desenhar o padrão rítmico nas margens do papel. Suas mãos não paravam: uma perna balançava freneticamente, enquanto os dedos da mão esquerda batiam no banco à sua frente.
— Você está bem, mano? — Perguntou um outro jovem sentado ao lado, estranhando a agitação.
— Sim, sim. Só estou... — Mateus buscou a palavra. — Processando. Tem muita coisa acontecendo aqui dentro hoje.
O rapaz deu de ombros e voltou para o celular. Mateus sentiu aquela pontada familiar de isolamento. As pessoas achavam que ele era impaciente ou ansioso, mas a verdade é que ele estava apenas tentando não se afogar em si mesmo. Para um jovem neurodivergente em São Luís, a cidade oferece o melhor e o pior dos mundos: a efervescência cultural que alimenta a criatividade e o caos urbano que estraçalha a organização executiva.
Ao descer na Praia Grande, a arquitetura colonial o abraçou. Os azulejos portugueses, com seus padrões geométricos repetitivos, eram um oásis para seu hiperfoco. Ele podia passar horas analisando a simetria de um único casarão na Rua do Giz. E foi exatamente o que aconteceu.
Ele se sentou no meio da escadaria, ignorando os turistas e os vendedores de artesanato. O sol batia nos azulejos azuis e brancos, criando reflexos que dançavam diante de seus olhos. De repente, a tese de antropologia que parecia um fardo pesado de manhã começou a se conectar. Ele não via apenas pedras e cal; ele via a história das mãos que assentaram aqueles blocos, via a resistência negra infiltrada nas frestas do barro, sentia a pulsação do porto que outrora fora o coração da província.
Suas canetas coloridas começaram a voar pelo papel. O que seria um texto acadêmico rígido transformou-se em um mapa mental vibrante. Ele desenhava fluxos de poder, setas que ligavam a música de hoje ao sofrimento de séculos atrás, rimas que explicavam conceitos de sociologia urbana. O hiperfoco, aquele estado de graça doloroso e magnífico, o havia capturado. Durante três horas, Mateus não sentiu sede, não percebeu o calor sufocante e nem ouviu as notificações insistentes em seu celular.
A mente inquietante, que o fazia perder as chaves de casa e esquecer o nome das pessoas dois segundos após as apresentações, agora era um laser de alta precisão. Naquele momento, o TDAH não era um déficit; era uma superpotência de síntese criativa.
Porém, como toda maré em São Luís, o refluxo era inevitável.
Quando o sol começou a baixar, tingindo o Rio Anil de laranja e carmim, Mateus sentiu o cansaço mental desabar sobre seus ombros como um manto de chumbo. A adrenalina do hiperfoco evaporara, deixando-o com uma dor de cabeça latente e uma desorientação espacial momentânea. Ele olhou para o caderno. Tinha trinta páginas de anotações brilhantes, mas o resumo que o professor exigia para aquela tarde ainda não estava formatado.
Ele se levantou, sentindo as pernas dormentes. Precisava comer, precisava de silêncio, mas São Luís àquela hora se preparava para a noite. O som de uma radiola de reggae começou a brotar de um bar próximo, as vibrações graves fazendo o chão tremer levemente.
Mateus caminhou até uma lanchonete e pediu um suco de acerola. Enquanto esperava, tirou da mochila um pequeno objeto de metal, um fidget spinner desgastado que ele usava para canalizar a energia cinética. Girar o objeto o ajudava a fixar o pensamento no presente, a não deixar a mente voar de volta para as frestas dos azulejos ou para as batidas do tambor.
— Você é o Mateus, lá da UFMA, né? — Uma moça de óculos e cabelos cacheados sentou-se na mesa ao lado. — Te vi lá na escadaria. Você parecia estar em outra dimensão, escrevendo sem parar.
— É... — Ele sorriu sem jeito, escondendo o brinquedo de metal sob a palma da mão. — Às vezes eu entro nessas "outras dimensões". É o meu jeito de funcionar.
— Eu vi um pouco do que você estava rascunhando. Aquela conexão entre a urbanização da Ilha e os toques de terreiro... aquilo é genial. Você devia mandar para o congresso de estudantes.
Mateus sentiu um alívio genuíno. O reconhecimento de que sua mente inquieta produzia valor, e não apenas confusão, era o melhor remédio que ele poderia receber.
— O problema é organizar tudo isso antes do prazo. — Admitiu ele. — Minha cabeça é como essa cidade em dia de festa de São Pedro: muita cor, muita gente falando ao mesmo tempo, muita alegria, mas um trânsito impossível de organizar.
A moça riu, uma risada leve que parecia harmonizar com o vento da orla.
— Mas olha, Mateus, a beleza da gente aqui na Ilha é justamente essa mistura. Se a gente fosse todo mundo arrumadinho e silencioso, São Luís seria apenas um museu de pedra morta. A gente precisa dessa sua agitação para manter as coisas vivas.
Ele terminou o suco, sentindo a energia retornar devagar. Ele sabia que a noite seria longa, que teria que lutar contra a procrastinação para transcrever aqueles rascunhos fascinantes para o computador, e que provavelmente perderia o ônibus de volta por se distrair com a lua refletida no mar. Mas ali, sob o céu da capital que acolhia poetas e loucos com a mesma generosidade, Mateus aceitou que sua mente era, de fato, um ritmo próprio.
Ele não precisava ser o metrônomo perfeito que o sistema acadêmico esperava; ele poderia ser o improviso sincopado de um solo de saxofone no Reviver. A dificuldade de concentração permaneceria lá, o esquecimento das coisas triviais continuaria a persegui-lo, mas a capacidade de ver beleza onde os outros viam apenas azulejos velhos era o seu lugar no mundo.
Mateus guardou seus cadernos, fechando o zíper da mochila com um senso de propósito renovado. Ele atravessou a rua, esquivando-se do trânsito intenso da volta para casa, mas desta vez não se sentia sobrecarregado. Ele apenas sorriu. Enquanto as luzes dos postes se acendiam uma a uma, pontilhando a orla de São Luís como estrelas terrestres, ele percebeu que a sua pressa interna não era um erro de fabricação. Era apenas a sua maneira de acompanhar a rotação acelerada de um planeta que ele, em seus melhores dias, conseguia entender como ninguém mais.
A luta por espaço, por direitos e por compreensão educacional ainda seria uma constante em sua vida acadêmica. Ele ainda teria que explicar muitas vezes por que não conseguia ficar parado ou por que precisava de fones de ouvido para ler um texto simples na biblioteca. Contudo, naquela tarde, o mar de São Luís lhe ensinara que é possível ser imenso e turbulento ao mesmo tempo, e que a verdadeira inclusão começa quando paramos de tentar acalmar a tempestade e aprendemos, enfim, a navegar nela.
A agitação não cessaria ao chegar em casa, nem as letras parariam de flutuar diante de seus olhos pregando peças de atenção. Ele sabia que o roteiro da sua vida seria escrito em saltos, em hiperfocos e em recomeços. E ao olhar uma última vez para os casarões antes de entrar no ônibus, Mateus compreendeu que seu direito à neurodivergência era, antes de tudo, o direito de ser essa mente inquieta que faz a Ilha pulsar em ritmos que só ele era capaz de traduzir em cores e rimas.
Esta crônica é dedicado ao escritor Matheus Soares da Academia Bacabalense de Letras
Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacbalense de letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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