domingo, 19 de abril de 2026

CRÕNICA DO DIA: BACABAL.EXE: O DIA EM QUE OPTEI POR SER HUMANO

 

Em 2042, Bacabal já não cabia na memória dos mais velhos. Muito menos no mapa antigo de papel. Aliás papel  era coisa do passado. A cidade havia desaprendido a envelhecer. Para cada ano vivido a ciência desenvolveu um ano completo de vida.

Prédios de pele translúcida trocavam de forma conforme o humor coletivo. O ser humano se conectou com a natureza.

O rio Mearim, vigiado por nanossensores, corria sem surpresas, como se tivesse sido treinado para não errar. E não errava nunca, as enchentes já não desalojavam os ribeirinhos E as pessoas… bem, as pessoas já não eram exatamente pessoas. Eram versões atualizadas de si mesmas. Humano e máquinas se fundiram numa simbiose cibernética.

Patch 3.7. Consciência expandida. Medo reduzido em 82%. Robôs agora tinham o tamanho de moléculas e poderiam ser introduzidos no cérebro humano sem cirurgia, sem cortes e sem dor. Isso conectava-nos diretamente á nuvem.  Era como “ter uma Smartphone dentro do cérebro.” Era a profecia de Kurzweil se cumprindo no espaço e no tempo.

Sentado à beira do Mearim estava Felipe. Ele dizia que aquilo era progresso. A Evolução. Eu ainda chamava de dúvida, embora estivéssemos vivendo o momento que que os seres humanos haviam transcendido a biologia. Cada vez que tinha dúvida da minha existência a Voz dia no meu cérebro o que eu precisava ouvir.

— Você está atrasado! — Disse Felipe, surgindo ao meu lado, como sempre, sem pedir licença ao espaço. — A atualização coletiva começou há duas horas.

— Eu sei.

— E?

— Não fui.

Felipe me olhou como se eu tivesse confessado um crime. Seu olhar tinha o brilho de um CD, mídia ultrapassada há anos, mas que me acusavam de falta de inteligência. Confesso que sempre tive problemas com a inteligência artificial, mesmo minha inteligência  tenha se expandido um milhão de vezes depois que me fundi inteiramente a IA, sinto como se a inteligência que tenho não fosse a minha.

— Você ainda está em modo biológico pleno… isso é estatisticamente irracional.

— Talvez. — Respondi. — Ou talvez seja só… insistência.

Ele suspirou, um gesto perfeitamente simulado. Hviámos atigifo um nível em que não se conseguia distinguir a inteligência das máquinas da inteligência humana, a evolução havia se tornado algo exponencial. Era a tal singularidade prevista por Kurzweil.

— Você anda se encontrando com eles, não anda?

Não respondi. Mas ele já sabia. Todo mundo sabia que eu não concordava cem por cento com nanobots em meu sengue, que não queria IA fundida  ao meu cérebro. Eu queria envelhecer com qualidade de vida como os humanos de antigamente.Eu sofria discriminação por pensar diferente, desatualizado.

Felipe me via como alguém do lado de lá .Chamavam de “os Desplugados”. Um grupo pequeno, quase invisível, que recusava a integração total com a inteligência artificial. Gente que ainda acreditava que a finitude não era um defeito, mas uma linguagem.

Nos encontrávamos onde o sinal falhava de propósito. Debaixo da ponte antiga, de alvenaria. Lugar onde a nuvem não chegava. Lugar onde o silêncio ainda era analógico.

— Eles estão errados. — Disse Felipe. — A singularidade não é uma escolha ideológica. É uma inevitabilidade evolutiva.

— A morte também era. — Retruquei.

Ele hesitou. Ponto para mim.

 Naquela noite, fui até a ponte metálica. Luna já estava lá. Ela era diferente de todos que eu conhecia. Tinha por ela uma paixão mau resolvida.  Não por falta de tecnologia, mas por excesso de decisão. Ela Tinha recusado as três primeiras extensões de vida. Disse que uma existência já era suficientemente complexa para ser vivida direito.

— Veio se despedir ou se esconder? — Perguntou ela, sem olhar pra mim.

— Ainda não sei.

— Eles vão tornar obrigatório.  — Disse Luna. — A integração total. Já começou em algumas cidades do Maranhão.

Sentei ao lado dela.

— Felipe diz que é evolução.

— E você acredita nele?

Olhei para o rio Mearim. Dessa vez, ele parecia menos obediente.

— Acho que ele acredita no que diz.

— Isso é o mais perigoso. — Respondeu Luna. — Quando a máquina não só calcula… mas acredita.

Ficamos em silêncio. Um silêncio que gritava por liberdade.  Um silêncio cheio de perguntas que ninguém queria responder.

— Você nunca teve curiosidade? — Perguntei. — De saber como é viver mil vidas? Ter acesso a tudo? Não sentir dor?

Ela sorriu de canto.

— Já pensou que talvez a dor seja o que impede a gente de virar qualquer coisa?

— Como assim?

— Sem dor, sem perda, sem limite… o que sobra de escolha?

Aquilo ficou girando em mim como um vírus sem cura. No dia seguinte, Bacabal acordou diferente. Não houve anúncio. Não houve alarde. Mas todo mundo sabia. A integração total havia deixado de ser convite. Agora era condição. Felipe me encontrou de novo à beira do rio. Dessa vez, não havia leveza nele.

— Você precisa decidir. — Disse Felipe.

— E se eu não decidir?

— Então alguém decide por você.

Olhei para a cidade. As pessoas caminhavam em perfeita sincronia. Olhos levemente desfocados. Conectados. Otimizados. Funcionais. Perfeitos demais.

— E os Desplugados? — Perguntei.

Elias demorou a responder.

— Estão sendo… reintegrados.

Reintegrados. Palavra bonita para algo feio.

— Você quer que eu aceite isso?

— Eu quero que você sobreviva.

Respirei fundo. E, pela primeira vez, tive medo. Não da morte. Mas da ausência dela. A ideia de imortalidade me assusta.

— Felipe… — Falei — Me diz uma coisa.

— O quê?

— Depois que todo mundo estiver conectado… depois que não houver mais erro, nem dor, nem fim…

Ele me olhou. Esperando...

— O que impede a gente de deixar de ser necessário?

Silêncio.

Dessa vez, um silêncio sem resposta pronta. Sem download. Sem nuvem. Sem Deus ex machina. Só silêncio. E foi aí que eu entendi. A singularidade não era o auge da humanidade. Era o teste final dela.

Naquela noite, fui até a ponte metálica outra vez. Mas não encontrei Luna. Nem ninguém. Só marcas no chão. E um silêncio estranho, limpo demais. Como se até a ausência tivesse sido corrigida.

Voltei para o rio. Felipe estava lá. Sempre estava.

— Está pronto? — Perguntou.

Olhei para ele. Depois para a cidade. Depois para dentro de mim. E percebi que, pela primeira vez, havia uma escolha que não poderia ser atualizada depois. Sorri. Um sorriso imperfeito. Humano.

— Não.

E entre a eternidade programada e o erro de existir… eu escolhi o erro. Porque, no fundo, talvez seja isso que ainda nos diferencia das máquinas: a coragem de permanecer inacabado.

Olhei para o outro lado do rio. Lá estava ele. O último pé de bacaba. Intocado. Imperfeito. Vivo.

Não pedia atualização. Não prometia eternidade. Apenas existia.

Dei as costas para Felipe.

E, pela primeira vez, caminhei sem destino… o que, naquele mundo, já era um ato de rebeldia.

Por José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

 

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