Em 2042, Bacabal já não cabia na
memória dos mais velhos. Muito menos no mapa antigo de papel. Aliás papel era coisa do passado. A cidade havia
desaprendido a envelhecer. Para cada ano vivido a ciência desenvolveu um ano
completo de vida.
Prédios de pele translúcida
trocavam de forma conforme o humor coletivo. O ser humano se conectou com a
natureza.
O rio Mearim, vigiado por
nanossensores, corria sem surpresas, como se tivesse sido treinado para não
errar. E não errava nunca, as enchentes já não desalojavam os ribeirinhos E as
pessoas… bem, as pessoas já não eram exatamente pessoas. Eram versões
atualizadas de si mesmas. Humano e máquinas se fundiram numa simbiose cibernética.
Patch 3.7. Consciência expandida.
Medo reduzido em 82%. Robôs agora tinham o tamanho de moléculas e poderiam ser
introduzidos no cérebro humano sem cirurgia, sem cortes e sem dor. Isso
conectava-nos diretamente á nuvem. Era
como “ter uma Smartphone dentro do cérebro.” Era a profecia de Kurzweil se
cumprindo no espaço e no tempo.
Sentado à beira do Mearim estava
Felipe. Ele dizia que aquilo era progresso. A Evolução. Eu ainda chamava de
dúvida, embora estivéssemos vivendo o momento que que os seres humanos haviam transcendido
a biologia. Cada vez que tinha dúvida da minha existência a Voz dia no meu
cérebro o que eu precisava ouvir.
— Você está atrasado! — Disse
Felipe, surgindo ao meu lado, como sempre, sem pedir licença ao espaço. — A
atualização coletiva começou há duas horas.
— Eu sei.
— E?
— Não fui.
Felipe me olhou como se eu
tivesse confessado um crime. Seu olhar tinha o brilho de um CD, mídia
ultrapassada há anos, mas que me acusavam de falta de inteligência. Confesso
que sempre tive problemas com a inteligência artificial, mesmo minha inteligência
tenha se expandido um milhão de vezes
depois que me fundi inteiramente a IA, sinto como se a inteligência que tenho
não fosse a minha.
— Você ainda está em modo
biológico pleno… isso é estatisticamente irracional.
— Talvez. — Respondi. — Ou talvez
seja só… insistência.
Ele suspirou, um gesto
perfeitamente simulado. Hviámos atigifo um nível em que não se conseguia distinguir
a inteligência das máquinas da inteligência humana, a evolução havia se tornado
algo exponencial. Era a tal singularidade prevista por Kurzweil.
— Você anda se encontrando com
eles, não anda?
Não respondi. Mas ele já sabia.
Todo mundo sabia que eu não concordava cem por cento com nanobots em meu
sengue, que não queria IA fundida ao meu
cérebro. Eu queria envelhecer com qualidade de vida como os humanos de antigamente.Eu
sofria discriminação por pensar diferente, desatualizado.
Felipe me via como alguém do lado
de lá .Chamavam de “os Desplugados”. Um grupo pequeno, quase invisível, que
recusava a integração total com a inteligência artificial. Gente que ainda
acreditava que a finitude não era um defeito, mas uma linguagem.
Nos encontrávamos onde o sinal
falhava de propósito. Debaixo da ponte antiga, de alvenaria. Lugar onde a nuvem
não chegava. Lugar onde o silêncio ainda era analógico.
— Eles estão errados. — Disse
Felipe. — A singularidade não é uma escolha ideológica. É uma inevitabilidade
evolutiva.
— A morte também era. — Retruquei.
Ele hesitou. Ponto para mim.
Naquela noite, fui até a ponte metálica. Luna
já estava lá. Ela era diferente de todos que eu conhecia. Tinha por ela uma
paixão mau resolvida. Não por falta de
tecnologia, mas por excesso de decisão. Ela Tinha recusado as três primeiras
extensões de vida. Disse que uma existência já era suficientemente complexa
para ser vivida direito.
— Veio se despedir ou se
esconder? — Perguntou ela, sem olhar pra mim.
— Ainda não sei.
— Eles vão tornar obrigatório. — Disse Luna. — A integração total. Já
começou em algumas cidades do Maranhão.
Sentei ao lado dela.
— Felipe diz que é evolução.
— E você acredita nele?
Olhei para o rio Mearim. Dessa vez,
ele parecia menos obediente.
— Acho que ele acredita no que
diz.
— Isso é o mais perigoso. —
Respondeu Luna. — Quando a máquina não só calcula… mas acredita.
Ficamos em silêncio. Um silêncio
que gritava por liberdade. Um silêncio
cheio de perguntas que ninguém queria responder.
— Você nunca teve curiosidade? —
Perguntei. — De saber como é viver mil vidas? Ter acesso a tudo? Não sentir
dor?
Ela sorriu de canto.
— Já pensou que talvez a dor seja
o que impede a gente de virar qualquer coisa?
— Como assim?
— Sem dor, sem perda, sem limite…
o que sobra de escolha?
Aquilo ficou girando em mim como
um vírus sem cura. No dia seguinte, Bacabal acordou diferente. Não houve
anúncio. Não houve alarde. Mas todo mundo sabia. A integração total havia
deixado de ser convite. Agora era condição. Felipe me encontrou de novo à beira
do rio. Dessa vez, não havia leveza nele.
— Você precisa decidir. — Disse
Felipe.
— E se eu não decidir?
— Então alguém decide por você.
Olhei para a cidade. As pessoas
caminhavam em perfeita sincronia. Olhos levemente desfocados. Conectados.
Otimizados. Funcionais. Perfeitos demais.
— E os Desplugados? — Perguntei.
Elias demorou a responder.
— Estão sendo… reintegrados.
Reintegrados. Palavra bonita para
algo feio.
— Você quer que eu aceite isso?
— Eu quero que você sobreviva.
Respirei fundo. E, pela primeira
vez, tive medo. Não da morte. Mas da ausência dela. A ideia de imortalidade me
assusta.
— Felipe… — Falei — Me diz uma
coisa.
— O quê?
— Depois que todo mundo estiver
conectado… depois que não houver mais erro, nem dor, nem fim…
Ele me olhou. Esperando...
— O que impede a gente de deixar
de ser necessário?
Silêncio.
Dessa vez, um silêncio sem
resposta pronta. Sem download. Sem nuvem. Sem Deus ex machina. Só silêncio. E
foi aí que eu entendi. A singularidade não era o auge da humanidade. Era o
teste final dela.
Naquela noite, fui até a ponte
metálica outra vez. Mas não encontrei Luna. Nem ninguém. Só marcas no chão. E
um silêncio estranho, limpo demais. Como se até a ausência tivesse sido
corrigida.
Voltei para o rio. Felipe estava
lá. Sempre estava.
— Está pronto? — Perguntou.
Olhei para ele. Depois para a
cidade. Depois para dentro de mim. E percebi que, pela primeira vez, havia uma
escolha que não poderia ser atualizada depois. Sorri. Um sorriso imperfeito. Humano.
— Não.
E entre a eternidade programada e o erro de
existir… eu escolhi o erro. Porque, no fundo, talvez seja isso que ainda nos
diferencia das máquinas: a coragem de permanecer inacabado.
Olhei para o outro lado do rio. Lá estava ele. O
último pé de bacaba. Intocado. Imperfeito. Vivo.
Não pedia atualização. Não prometia eternidade. Apenas existia.
Dei as costas para Felipe.
E, pela primeira vez, caminhei sem destino… o
que, naquele mundo, já era um ato de rebeldia.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e
Cronista
Membro da Academia Bacabalense de
Letras
Academia Mundial de Letras da
Humanidade







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