sábado, 7 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Corretor de Destinos


A sala era um campo de batalha, embora ninguém de fora pudesse perceber. Não havia cheiro de pólvora nem drones sobrevoando, mas o ar estava saturado com o odor metálico de tinta fresca e o perfume seco de papel velho. Bento estava de pé, a camisa empapada de suor nas costas, empunhando uma caneta vermelha como se fosse uma adaga. Diante dele, sobre a mesa de madeira maciça, jazia o manuscrito de setecentas páginas intitulado "A Epopeia do Sertão Maranhense". O autor, um jovem promissor de Caxias, o enviara com a esperança de que Bento, o lendário editor conhecido apenas como "O Exterminador", lhe desse a bênção final.

Bento não dava bênçãos; ele dava extrema-unção.

Ele olhou para a página 43. O parágrafo descrevia o nascer do sol no Rio Itapecuru. Eram vinte linhas. Vinte linhas para dizer que o sol nasceu. O adjetivo "rubro" aparecia três vezes. "Majestoso", duas. Bento sentiu uma pontada na têmpora. Aquilo não era literatura; era vaidade. O escritor não estava descrevendo o rio; estava descrevendo a si mesmo descrevendo o rio, admirando o próprio reflexo na superfície das palavras.

Era a própria personificação de Narciso.

Com um movimento brusco, Bento riscou o parágrafo inteiro. O som da caneta rasgando o papel foi audível no silêncio da sala. Riiiip. Um corte. Uma amputação necessária.

O texto sangrou em vermelho.

A revisão não é um ato de correção gramatical; é uma luta corporal. Bento sentia o peso físico daquelas palavras inúteis. Elas ocupavam espaço, consumiam oxigênio, pesavam na mochila do leitor. Cada advérbio desnecessário era uma pedra que o narrador obrigava o público a carregar morro acima. Sua função era aliviar a carga, mesmo que para isso tivesse que quebrar os dedos do autor que se agarravam às suas preciosas criações.

Virou a página. Um diálogo.

"— Maria, por obséquio, poderias tu, em tua infinita bondade, passar-me o sal que repousa sobre a toalha de linho bordada por tua avó?"

Bento soltou um gemido. Ninguém falava assim. Nem em 1800, nem hoje, nem nunca. A verossimilhança fora sacrificada no altar do rebuscamento. Ele riscou tudo e escreveu na margem, com letras garrafais e trêmulas de raiva contida: "— Me passa o sal, Maria."

A luta física se intensificou. Seus ombros doíam. A tensão de segurar o caos, de impedir que a entropia da linguagem tomasse conta da obra, exigia uma postura de gladiador. Ele caminhava ao redor da mesa, gesticulando para o vazio, discutindo com o autor ausente.

— Você não entende, garoto? — Murmurou Bento, batendo o dedo na mesa. — O leitor não tem tempo para o seu umbigo. Ele quer a história. Ele quer o sangue, o suor, o medo. Você está dando a ele um catálogo de sinônimos!

Arrancou a página 150. Amassou-a e jogou no canto da sala, onde já havia uma pilha de bolas de papel, cadáveres de cenas inteiras que não sobreviveram ao critério da necessidade. Naquela cena, o protagonista passava três páginas pensando sobre a morte de um besouro. O besouro não tinha função na trama. Era apenas um pretexto para o autor mostrar que lera Kafka. Fora. O Exterminador não tinha piedade de referências gratuitas.

A noite avançava lá fora, os grilos de Bacabal cantando em um ritmo que parecia zombar da prolixidade humana. Bento serviu-se de mais uma xícara de café frio. Suas mãos tremiam, manchadas de tinta vermelha. Parecia sangue seco. Talvez fosse. O sangue das ideias que ele matara para que a história pudesse viver.

Voltou ao manuscrito. Página 400. O clímax. Aqui, o autor finalmente acertara o tom. A descrição da seca, da fome, da morte do gado. Era crua. Era real. Bento sentiu um arrepio. Ali estava. A pepita de ouro no meio da lama. Mas, logo em seguida, o autor estragava tudo com uma reflexão filosófica de cinco páginas sobre a transitoriedade da existência.

— Não! — Gritou Bento, riscando furiosamente. — Deixe o leitor sentir! Não explique o que ele deve sentir! Confie na sua cena!

O corte foi profundo. Cinco páginas inteiras marcadas com um grande "X". O que sobrava era o silêncio após a tragédia. E naquele silêncio, a dor do personagem gritava com uma força que nenhuma explicação poderia igualar. O vazio, percebeu Bento, era a ferramenta mais poderosa do escritor. Era no espaço em branco entre um ponto final e a próxima maiúscula que a imaginação do leitor trabalhava.

Ao final da madrugada, o manuscrito de setecentas páginas fora reduzido a trezentas. A mesa estava coberta de retalhos. O chão, um cemitério de parágrafos. Bento sentou-se, exausto. O corpo doía como se tivesse carregado sacos de cimento. Mas, ao passar a mão pelas páginas restantes, sentiu a pulsação da obra. Agora, ela respirava. O coração da história batia forte, sem a gordura que o sufocava.

Ele pegou a caneta vermelha, agora quase sem tinta, e escreveu na capa do manuscrito sobrevivente: "Agora sim. Agora é um livro."

Levantou-se e foi até a janela. O sol começava a pintar o céu de Bacabal com cores que dispensavam adjetivos. Bento sabia que o autor, ao receber o texto mutilado, choraria. Ficaria furioso. Chamaria Bento de carniceiro, de insensível, de inimigo da arte. Mas, daqui a alguns anos, quando relesse a obra publicada, entenderia. Ou talvez não. Pouco importava. O Exterminador não trabalhava para o aplauso do autor; trabalhava para a sobrevivência do texto.

Olhou para as próprias mãos. A tinta vermelha impregnada nas digitais era a prova do crime e da salvação. A revisão era um ato de amor violento. Era preciso ferir para curar. Era preciso matar o que era apenas bonito para salvar o que era verdadeiro. E ali, naquela sala silenciosa onde o único som era o da própria respiração, Bento soube que a batalha fora vencida. O que restava sobre a mesa não era mais um amontoado de palavras; era algo sólido, denso, perigoso. Era literatura.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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