terça-feira, 23 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Dança de Guerreiras

Não há nada mais silenciosamente poderoso do que o som do primeiro passo de uma índia no chão do terreiro. Quando as dezenas de jovens do batalhão se alinham, o ar parece se condensar sob o peso de uma expectativa que atravessa gerações. Elas passam meses ensaiando o movimento do calcanhar, o balanço dos quadris, a elegância do pulsar das mãos que carregam pequenas cestas ou arcos simbólicos. É uma coreografia que não busca a perfeição mecânica, mas a conexão espiritual; cada giro de corpo é uma reverência aos antepassados que caminharam por aquelas mesmas terras, muito antes dos asfaltos e das luzes de néon da cidade.

Janaína, aos dezenove anos, conhecia a coreografia pelo avesso de sua própria alma. Para ela, o treinamento não era um compromisso de agenda; era um tempo de purificação. Enquanto durante o dia lidava com os desafios de um trabalho de telemarketing ou as aulas da universidade, à medida que a noite se aproximava e o horário do ensaio se tornava real, ela sentia uma transformação em seu caminhar.

No terreiro, as outras meninas a olhavam como um guia. Elas formavam um bloco único, um mosaico de rostos, tons de pele e histórias, todas unidas pela mesma missão: serem as guardiãs da beleza e da força feminina na arena.

O segredo do passo das índias está na terra. Elas não dançam sobre o chão; elas dançam com ele. Quando a matraca ou o sotaque de orquestra dita o ritmo, a índia precisa fincar o pé com tal precisão que a poeira suba na altura exata da canela, criando uma aura dourada ao redor de suas pernas adornadas com fitas e miçangas.

É um exercício de resistência muscular disfarçado de leveza poética. Janaína sentia o ácido lático queimar suas coxas após horas de repetição, mas, quando ela olhava para as mais novas, via nelas o mesmo brilho de quem se sabe parte de algo infinito.

— O olhar não pode baixar, pequena. — Ela sussurrava para uma das meninas mais jovens, corrigindo a inclinação de sua cabeça durante o ensaio. — A gente não tá só dançando. A gente tá contando a história de quem foi índia, de quem foi cabocla, de quem foi mulher que teve que ser guerreira pra manter a gente aqui hoje. Se você baixa a cabeça, a história se perde.

— Tenho medo de errar a coreografia amiga. — Respondeu a amiga apreensiva.

— A coreografia somos nós, não temos como errar querida, está gravada na nossa mente. – Disse Janaina na ponta dos pés.

— Ontem tinha uma índia dos contrário falando de nós nas redes sociais. — Informou a colega brincante.

— Esquece isso, não valem a bolha que a gente cria nos pés de tanto ensaiar. O boi está lindo.

A beleza da dança das índias no Bumba-meu-boi no maranhão reside nessa dualidade fascinante: a delicadeza dos ornamentos, as penas coladas, as contas coloridas, o brilho das lantejoulas fundida à rigidez de uma postura que desafia o cansaço. Elas são a ponte entre o passado mítico, o boi sagrado e a plateia que assiste.

O público, muitas vezes seduzido pela grandiosidade do boi ou pelo humor escrachado do Cazumbá, encontra nas índias uma espécie de calmaria vibrante. Quando elas giram, o mundo lá fora parece menos urgente, menos caótico. Não sabe da exaustão física extrema que toma conta dos brincantes.

Nos bastidores, antes de entrarem na arena, o ritual de vestir-se é uma oração coletiva. Elas se ajudam a prender as penas, penteiam umas o cabelo das outras com um cuidado quase maternal, partilham batons e conselhos sobre como sustentar o fôlego por mais dez minutos de toque.

A cada pena fixada e a cada miçanga conferida, cresce o sentimento de que não estão apenas se arrumando para uma festa, mas se paramentando para o exercício da própria identidade. Sob o olhar dos ancestrais, cujas imagens parecem observar de perto o brilho daquelas fitas, cada uma delas se coloca como uma extensão de quem já passou pelo terreiro e, ainda assim, continua dançando.


Quando a orquestra ou o grupo de matracas atinge o clímax e elas entram em cena, não entram como convidadas; entram como donas daquele espaço. O deslizar dos pés segue uma geometria que parece riscar o chão com o desenho da continuidade.

Elas sabem onde pisar porque sentem, na vibração da terra, os passos de suas avós. Se o Bumba-meu-boi é o corpo da tradição, as índias são o movimento desse corpo, o fluido que permite que a engrenagem rode sem engasgos.

No final da noite, quando as luzes dos arraiais começam a enfraquecer e o suor já secou sobre a pele, Janaína sente que o real brilho daquela jornada não estava na lantejoula que reluzia para a plateia. O brilho estava no suor compartilhado, na dor superada, no olhar de cumplicidade trocado entre as guerreiras no meio do giro.

Ali, na arena, sob o céu imenso e indiferente de São Luís, elas brilhavam não para serem vistas, mas para serem sentidas. Eram a prova viva de que a tradição não é um objeto guardado em museu, mas um corpo vivo, que respira, que dança e que encontra na firmeza do passo de uma jovem, a garantia de que as vozes de seus antepassados continuarão ecoando, cada vez mais forte, em cada novo junho que insiste em chegar.

Janaína retira o cocar diante do espelho, vê  refletida a própria felicidade, observa as marcas vermelhas deixadas pelas penas e percebe que aquelas marcas são o preço e a prova de pertencimento.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

p.s.: fotos deinternet não conseguir identificar os nomes das indiase dois bois

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