A noite em
São Luís não é feita apenas de trevas; é tecida por fios invisíveis de maresia
e história. Eu estava no sótão do casarão herdado de minha avó, na Rua do Sol,
tentando terminar o terceiro capítulo do meu romance cyberpunk ambientado na
Baixada Maranhense. A tela do laptop brilhava com uma luz azulada, fria,
contrastando com o calor úmido que entrava pela janela ogival.
Meus dedos
voavam sobre o teclado, criando palavras que não existiam: "O
neuroribamar conectou-se à rede manguezalica, fazendo o upload de sua
consciência para a nuvem de babaçu."
Sorri.
"Neuroribamar". Achava genial. "Manguezalica". Uma fusão
perfeita entre ecossistema e fibra ótica.
De repente,
a temperatura no sótão caiu. Não foi uma brisa. Foi um frio seco, de biblioteca
antiga. O cheiro de maresia foi substituído por um odor forte de naftalina e
rapé.
Olhei para o
canto escuro onde ficava uma estante de jacarandá. Ali, materializando-se a
partir da poeira e das sombras, estavam três figuras translúcidas. O primeiro
usava uma sobrecasaca puída e tinha olheiras profundas. O segundo, um monóculo
e um bigode encerado. O terceiro, mais jovem, tinha o olhar febril dos tísicos
românticos.
—
"Neuroribamar"? — A voz do primeiro ecoou como se viesse de dentro de
um poço. Era Odorico Mendes. — Que aberração lexicológica é esta, jovem?
Tentei fechar o laptop, mas minhas mãos estavam congeladas. Reconhecir o visitante de uma foto da Biblioteca Pública Benedito leite.
— É... é um
neologismo, Mestre Odorico. Uma atualização do arquétipo local para a era
digital.
—
Neologismo? — O segundo fantasma, Aluísio Azevedo, aproximou-se, flutuando
sobre o assoalho. Ele olhou para a tela com desprezo. — Isso não é neologismo.
Isso é preguiça. "Manguezalica"? Por que não descrever a complexidade
das raízes, o lodo fértil, a sinuosidade dos caranguejos? Você prefere inventar
uma palavra oca a sujar as mãos na descrição da realidade?
— Mas a
realidade mudou! — Defendi-me, com a voz trêmula. — Hoje tudo é rápido. O leitor
não tem paciência para o naturalismo detalhista.
O terceiro
fantasma, Gonçalves Dias, suspirou. O som foi como o vento nas palmeiras.
— A
paciência não é do leitor, meu filho. É da terra. — Ele apontou para a janela,
para a escuridão onde se adivinhava a silhueta das palmeiras. — "Minha
terra tem palmeiras, onde canta o sabiá." Simples. Direto. Eterno. Você
escreve "nuvem de babaçu". O babaçu não é nuvem. É coco. É quebra. É
óleo. É trabalho. Você transformou a substância da vida em um termo técnico sem
alma.
Senti
vergonha. Aqueles homens, que ergueram a "Atenas Brasileira" com a
força de seus versos e a precisão de sua prosa, estavam ali para julgar minha
modernidade. Eles não eram contra o novo; eram contra o vazio.
— Mas eu
quero inovar... — murmurei.
— Inovar não
é mutilar a língua! — Rebateu Odorico, ajustando a gola da sobrecasaca. — Eu
traduzi Homero e Virgílio. Tive que dobrar o português para caber no hexâmetro
grego. Mas nunca desrespeitei a raiz da palavra. "Neuroribamar"...
Isso é um insulto a São José de Ribamar, o padroeiro! É reduzir a fé e a
tradição a um chip!
Aluísio
Azevedo sentou-se na beira da minha mesa, atravessando uma pilha de contas
pagas.
— Ainda bem que você pelo menos paga as contas. O problema,
rapaz, é que vocês hoje acham que a tecnologia substitui a metáfora. Vocês
criam palavras-valise, aglutinam substantivos com prefixos estrangeiros, e
acham que fizeram literatura. Literatura é carne e sangue. É o cheiro do
mulato, é o barulho do cortiço, é a ambição humana nua e crua. Onde está o
sangue no seu "upload"?
Gonçalves Dias colocou a mão fantasmagórica em meu ombro. Senti um frio que queimava. Tinha o cheiro de saudade.
— Não
estamos aqui para te proibir de escrever sobre o futuro. O Maranhão sempre
olhou para além do mar. Mas não esqueça de onde você pisa. Se você quer que seu
"neuroribamar" voe, ele precisa ter raízes no chão de São Luís. Ele
precisa comer juçara antes de conectar o cabo. Ele precisa ter medo de careta de Cazumbá , antes de ter medo de vírus de computador.
Os três se
entreolharam. Pareciam cansados. A eternidade devia ser exaustiva,
especialmente quando se passava o tempo corrigindo a gramática dos vivos.
— Apague!!! — Ordenou Odorico. — Apague essa "nuvem de babaçu". Escreva que a
informação flui como o Rio Anil na maré cheia: barrenta, perigosa e vital. Use
o que é nosso. A tecnologia muda, a geografia da alma maranhense, não.
Com um gesto
solene, eles começaram a desvanecer sem dirarem os olhos de mim. O cheiro de naftalina diminuiu, dando
lugar novamente à maresia. A temperatura subiu.
Fiquei
sozinho diante da tela. "Neuroribamar". A palavra agora parecia
ridícula, um brinquedo de plástico no meio de uma sala de antiguidades
valiosas.
Selecionei o
parágrafo. Deletei.
Respirei
fundo, sentindo o ar pesado da noite. Comecei a digitar novamente, mas desta
vez, com respeito.
"O homem, com a mente conectada a cabos que lembravam raízes de
mangue, sentiu a informação subir por sua espinha como a maré de setembro. Não
era uma nuvem; era um alagado de dados, denso e escuro, onde memórias nadavam como
peixes cegos no lodo da história."
Li em voz
alta. Soava melhor. Soava como São Luís.
Lá fora, um
sabiá cantou, ignorando a hora tardia. Pensei que fosse coisa de Gonçalves . Talvez fosse um sinal de aprovação. Ou
talvez, apenas a natureza seguindo seu curso, indiferente às nossas tentativas
desajeitadas de aprisioná-la em palavras, fossem elas arcaicas ou neológicas. O
importante, aprendi naquela noite, não era inventar o futuro, mas garantir que
o passado tivesse lugar nele. A tradição não é uma âncora que prende o barco; é
o lastro que impede que ele vire na tempestade da modernidade. E meu barco,
agora, navegava mais firme.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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