quarta-feira, 26 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Tinta de Sobrevivência

O café na mesa de Clarice já estava frio, uma mancha escura na porcelana, mas o manuscrito diante dela parecia pulsar com uma vida própria.

São Luís, do lado de fora da janela, insistia em ser a mesma de sempre: a chuva atingindo os azulejos, o trânsito barulhento das ruas ,o centro histórico transbordava memória e  cheiro de maresia que, para ela, sempre teve gosto de promessas não cumpridas. Clarice carregava na bolsa um calhamaço de páginas marcadas por anotações à margem, uma coleção de contos que ela chamava, em segredo, de "Tinta de Sobrevivência".

Eram histórias sobre mulheres que ela via cruzando os ladeirões da cidade, mulheres que ninguém notava ;a doméstica que sonhava com uma vida melhor, a estudante que desafiava a lógica corporativa, a vizinha que reconstruía a vida após um episódio de violência doméstica.

Ela passara os últimos dois anos batendo de porta em porta, ou melhor, de e-mail em e-mail, tentando  convencer editores de que aquelas vidas mereciam um livro. A resposta era quase sempre a mesma, polida até a transparência: "seu trabalho tem um estilo interessante, mas não é comercial", ou ainda, "o mercado literário está saturado de ficção regional". Era um eufemismo técnico para dizer que as histórias daquelas pessoas, contadas por ela, não atraíam o brilho necessário ao marketing editorial.

Naquela terça-feira, a reunião no pequeno escritório de uma editora independente no centro era sua última tentativa antes de se render ao auto-suporte, um caminho que a levaria meses de economias. O editor, um homem que parecia viver em um estado constante de tédio intelectual, folheou os papéis como se estivesse descartando contas vencidas.

O editor parou de folhear as páginas por um instante. Voltou algumas folhas, como quem procurava confirmar uma lembrança.

— Li aquele conto da empregada doméstica... a que atravessa a cidade de ônibus imaginando o mar antes de começar mais um dia de trabalho.

Clarice ergueu os olhos.  desde que entrara na sala,  só agora percebeu que ele realmente havia lido o manuscrito.

— Gostei muito.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado o suficiente para fazer nascer uma esperança. O editor apoiou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e desviou o olhar para a janela.

— Justamente por isso eu sei que ele é bom. Mas... não consigo vender isso.

A frase caiu entre os dois como uma porta sendo fechada sem violência, porém definitivamente. Naquele instante, Clarice compreendeu que o problema nunca fora a qualidade das histórias. O problema era que elas insistiam em iluminar vidas que o mercado preferia manter na penumbra.

— Clarinha. — Recomeçou ele, usando o diminutivo que ela detestava.  —Entendo a sua paixão. Mas você entende que, hoje em dia, o leitor quer escapismo? Ele quer histórias que o transportem para longe do Maranhão. Essas suas personagens são... como posso dizer? São muito pesadas. Muito reais num sentido que cansa. Ninguém quer abrir um livro para encontrar a vizinha.

Clarice sentiu uma pontada na base do pescoço. O que ele chamava de "escapismo", ela via como a necessidade urgente de encarar o real. A literatura não era para fugir do mundo, era para dar ao mundo o contorno do que ele tentava esconder. Ela não queria apenas letras, queria um espelho capaz de mostrar as feridas de São Luís e, ao mesmo tempo, a beleza da poeira que dançava nas frestas das casas de fachada colonial.

— O meu público não é o leitor que quer esquecer o mundo. — Ela rebateu, a voz equilibrada, embora o coração batesse contra as costelas. — É o leitor que precisa ser lembrado de que ele existe. De que as lutas que ele trava todo dia, na fila do banco ou na reconstrução de uma casa, são literatura. Se eu não escrever sobre essas mulheres, o que vai restar delas? Apenas a estatística.

O editor suspirou, fechando a pasta com um gesto de encerramento. Ele não a odiava, e isso era talvez o mais humilhante: ele simplesmente não via valor.

Para ele, a literatura era cosmética; para ela, era a única maneira de não se perder em meio ao silenciamento crônica das vozes femininas que habitavam a periferia dos grandes centros ditos literários.

Ao empurrar a porta da editora, Clarice foi recebida por uma chuva grossa, dessas que transformam as ladeiras de São Luís em espelhos trêmulos. Ficou imóvel por um segundo, como se ainda pudesse voltar e ouvir uma resposta diferente. Não voltou.

Abriu a bolsa, retirou o manuscrito e, num gesto instintivo, apertou o maço de folhas contra o peito, escondendo-o debaixo da blusa. Depois desceu a calçada. A água escorria pelos cabelos, encharcava o vestido, pesava nos sapatos e desmanchava qualquer aparência de elegância. Ela caminhava sem pressa, deixando que a chuva lhe tomasse o corpo inteiro.

Quando alcançou a marquise de uma loja fechada, afastou cuidadosamente o manuscrito do peito. As páginas permaneciam secas. Se fosse preciso escolher, preferia que a chuva levasse dela qualquer coisa, menos aquelas histórias.

 Cada conto ali era um fragmento de identidade que ela havia arrancado do anonimato. A escrita, para Clarice, não era uma busca por fama ou prêmios; era o esforço de manter vivas as trajetórias que a história oficial preferia apagar. Se o mercado não queria a tinta da sobrevivência, que assim fosse. Ela não a escreveria para o mercado, nem para editores entediados, mas para aquelas que, ao abrir um livro, pudessem encontrar, finalmente, a sua própria voz ecoando nas páginas.

Sentada em um banco de madeira úmida pela chuva, ela tirou uma caneta do bolso e começou a escrever, ali mesmo, um novo conto. A descrença do editor tornara-se o prefácio não escrito de sua obra.

Antes de iniciar o novo conto, Clarice abriu cuidadosamente o manuscrito. Passou os dedos pelas primeiras folhas para verificar se a chuva havia vencido o cuidado com que as protegera. As páginas continuavam intactas.

Quando chegou à capa, porém, percebeu uma pequena ironia. A tinta do título escorrera com a umidade. Restava apenas um borrão escuro onde antes se lia o nome da coletânea.

Ela permaneceu alguns segundos olhando aquele vazio. Retirou a caneta do bolso, apoiou o manuscrito sobre os joelhos e escreveu novamente, com letras firmes:

Tinta de Sobrevivência.

Fechou as páginas, respirou o cheiro de papel úmido misturado à maresia e começou o conto seguinte.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

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