sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cânticos entre Tesouras

O salão de beleza de dona Eunice, em Pindaré-Mirim, não tinha o nome pomposo de um spa ou as luzes de LED dos grandes centros. Era um cômodo simples, conectado à sala de sua casa, onde o perfume de creme de pentear se misturava ao cheiro constante de café torrado na hora. No fundo, um rádio a pilha tocava hinos da harpa cristã em volume baixo, uma trilha sonora que parecia embalar não apenas o corte das tesouras, mas também as confidências que cruzavam o ambiente.

Eunice limpava a tesoura com um lenço de algodão, olhando pelo espelho uma cliente habitual, Marlene, que esperava o tempo da tintura agir.

Marlene tinha o olhar carregado de quem carregava problemas de adultério e dívidas que não cessavam.

O salão, para Eunice, nunca fora apenas sobre cabelo. Era um confessionário de aço e plástico. Ela acreditava firmemente que a beleza de uma mulher não terminava na raiz dos fios; começava exatamente onde a angústia encontrava uma escuta atenta.

— Você está muito quieta hoje, Marlene. A própria Bíblia diz que há tempo para tudo, e se o seu coração está pesado, é porque ele está cheio demais de coisas que não lhe pertencem .— Disse Eunice, com a autoridade de quem, durante anos, havia trilhado os caminhos da fé para curar as próprias rachaduras na alma.

Marlene soltou um suspiro longo, que parecia arrastar consigo toda a exaustão da semana.

 — É o desgaste, Eunice. Parece que, quanto mais eu oro, mais as muralhas aparecem. Meu marido não me escuta, as contas não fecham e a sensação é de que Deus está em silêncio.

               Eunice sorriu, um sorriso amplo e acolhedor, enquanto aplicava um pouco de reparador de pontas nos cabelos de Marlene. Ela sabia bem o que era o silêncio de Deus. Viver a fé evangélica em uma cidade como Pindaré-Mirim, onde as dificuldades da vida são tão palpáveis quanto o calor do meio-dia, exigia mais do que palavras bonitas; exigia prática. A fé não estava no púlpito da igreja aos domingos; estava ali, naquele salão, no ato de ouvir sem julgar a história de queda e ascensão de cada vizinha.

— Deus não está em silêncio, Marlene. Ele está na paciência. Às vezes, a nossa maior luta é aprender a esperar a resposta no tempo que não é o nosso. — Eunice começou a pentear os fios com delicadeza. — O erro é achar que a fé tem que resolver o mundo num passe de mágica. A fé te dá a força para aguentar o soco e ainda assim manter a cabeça erguida.

O sino preso à porta anunciou outra cliente. Era Neide, conhecida na vila pelo temperamento afiado. Sentou-se sem cumprimentar ninguém e jogou a bolsa sobre a cadeira.

— Só aparar as pontas. E, por favor, sem sermão hoje. Já basta o pastor no domingo.

O salão silenciou por um instante. Marlene abaixou os olhos. O rádio continuava a tocar um hino baixinho, quase como se não quisesse interferir.

Neide olhou para o aparelho e bufou.

— Esse povo vive dizendo que Deus resolve tudo. Resolve o quê? Meu marido morreu de câncer, meu filho foi embora e nunca mais deu notícia. Eu orei até perder a voz. Se Deus escutou, resolveu ficar calado.

As palavras ficaram suspensas no ar, mais cortantes que qualquer tesoura.

Eunice não respondeu imediatamente. Enrolou a capa no pescoço da cliente, borrifou um pouco de água sobre os cabelos e começou a penteá-los devagar.

— Sabe por que eu nunca desligo esse rádio? Não é porque minha vida seja bonita. É porque, nos dias em que eu também acho que Deus está longe, alguém canta por mim.

Neide permaneceu em silêncio.

— A fé não impede que a gente enterre quem ama. Também não paga boletos nem devolve filhos perdidos. Mas impede que a dor enterre a gente  primeiro.

A cliente desviou o olhar para o espelho, seus olhos marejaram.

— Faz tempo que ninguém me escuta sem querer me convencer de alguma coisa.

Eunice sorriu discretamente.

— Então hoje não vamos discutir Deus. Hoje vamos cuidar desse cabelo. Amanhã, se Ele quiser, a conversa continua.

O rádio seguiu tocando, e,  naquela tarde, ninguém mais  sentiu necessidade de dizer mais nada. O silêncio já fazia o trabalho que as palavras não conseguiam fazer.

Enquanto a tesoura movia-se com precisão, cortando pontas duplas, a conversa fluía para outros tópicos: a escola dos filhos, a situação da rua, as dificuldades da vizinhança. O salão era um refúgio da solidão que muitas daquelas mulheres evangélicas enfrentavam em suas casas. Ali, elas eram donas de si, tratadas com o carinho que a rotina do serviço doméstico ou do trabalho braçal muitas vezes roubava. Eunice era a pastora daquelas vidas sem necessariamente precisar de um título oficial. Ela exercia o ministério da escuta.

Uma moça mais jovem, recém-chegada à vila, entrou para fazer a sobrancelha. Estava visivelmente nervosa, segurando uma pequena bíblia de bolso com força. Ela observou Eunice conversando com Marlene e sentiu-se confortável para se abrir sobre suas dúvidas quanto a uma decisão que precisava tomar sobre um emprego em outra cidade. Eunice, sem interromper o trabalho, a intercalar frases sobre o dever do cristão com conselhos práticos sobre como gerir o próprio dinheiro e cuidar de sua independência.

Para Eunice, ser evangélica era exatamente isso: transformar o Evangelho em um manual de conduta prática para a vida. Não era sobre proibições ou sobre o medo do inferno, mas sobre a construção de uma dignidade que começava na forma como a mulher se via no espelho. Se a mulher se sentisse amada por Deus, ela trataria a si mesma com mais respeito, exigiria mais do marido, investiria mais na educação dos filhos e não se deixaria abater pelas circunstâncias da vila.

Ao final da tarde, a última cliente despediu-se com um abraço demorado. O rádio ainda deixava escapar um louvor antigo, misturando-se ao canto dos bem-te-vis que anunciavam o fim do dia. Eunice fechou a janela, recolheu as xícaras de café esquecidas sobre a bancada e passou a vassoura lentamente pelo piso.

Pequenos montes de cabelos formavam desenhos irregulares no chão: fios grisalhos, cacheados, lisos, tingidos, negros como a noite ou dourados pelo sol. Cada mecha parecia guardar um pedaço da história de quem havia passado por ali naquela tarde.

Ela juntou tudo na pá, caminhou até a porta e, antes de apagar a luz, desligou o rádio. O silêncio entrou devagar no salão. Eunice voltou os olhos para o monte de cabelos que ainda esperava para ser levado ao lixo.

Ali ficavam apenas fios. As dores, quase sempre, iam embora penteadas. Ela fechou a porta sem pressa. Do lado de dentro permanecia o cheiro de café recém-passado e de creme de pentear. Do lado de fora, a noite caía sobre Pindaré-Mirim. Amanhã outras mulheres chegariam trazendo novas aflições, e ela sabia que nem sempre teria respostas. Ainda assim, haveria uma cadeira vazia, uma tesoura afiada, um ouvido atento e uma esperança insistindo em nascer entre um corte de cabelo e outro.

José Casanova 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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