sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA:O Jaleco e o Coração


O corredor do setor de oncologia do hospital em Fortaleza tinha um cheiro peculiar, uma mistura de antissépticos cítricos e o odor metálico e seco da esperança que se esgota. Dra. Clara ajustou o jaleco, prendendo o estetoscópio ao redor do pescoço com um gesto mecânico. Havia uma linha tênue, quase  invisível, entre o profissionalismo que a ciência exigia e o abismo emocional que cada prontuário carregava. Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, processando o protocolo que estava prestes a entregar para a paciente do leito 402: um estágio avançado, uma metástase que rastejava pelo corpo com a crueldade que só o câncer conhecia.

Entrar naquele quarto era entrar em um território onde as palavras de ordem não eram "cura" ou "dose", mas "acolhimento". Dona Vilma, uma professora aposentada que ainda guardava o hábito de corrigir a gramática dos enfermeiros, aguardava com o olhar fixo na janela por onde se via o sol estalando nos coqueiros da orla.

— Doutora. — Disse ela, com a voz embargada pela secura dos quimioterápicos.  — Eu não quero saber quanto tempo me resta. Quero saber se vou conseguir ir ao aniversário da minha neta no próximo sábado.

Clara sentou-se na cadeira de plástico, ignorando a postura ereta que a medicina a ensinara a manter para impor autoridade. Ela não era autoridade ali; era uma testemunha.

— Nós vamos ajustar a medicação de suporte para controlar a dor e o edema, Dona Vilma. Não vou mentir: o esforço é grande. Mas se o seu desejo é estar lá, nós faremos desse seu desejo o nosso objetivo clínico para esta semana.

Ciência e empatia não eram polos opostos no consultório de Clara; eram, na verdade, as duas pernas sobre as quais caminhava sua prática. Havia quem dissesse que se envolver demais era um erro fatal para o médico, um desgaste que levava ao esgotamento. Clara, contudo, achava o oposto: era a frieza que exauria. O custo de ser humano não era nada comparado ao custo de se tornar um autômato de jaleco branco, ignorando as cicatrizes na alma de quem enfrentava o fim.

O dia seguiu num fluxo de decisões técnicas: protocolos de infusão, ajustes de morfina, pedidos de exames. Em cada etapa, ela era confrontada com a finitude. Fortaleza, lá fora, seguia seu passo frenético, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, o tempo tinha uma régua diferente. Ela viu mulheres que, diante da sentença de morte, redescobriram artes, perdões e vozes que haviam calado por décadas.

Certa manhã, ao entrar em um dos quartos, Clara encontrou sobre a mesa de cabeceira uma folha de papel coberta por pinceladas de aquarela. Era um desenho simples: um jardim, uma casa de janelas azuis e duas crianças correndo de mãos dadas. Ao lado, repousava um pincel ainda úmido.

Foi a senhora quem pintou? — Perguntou Clara, aproximando-se.

A paciente sorriu com um brilho sereno nos olhos.

Voltei a pintar depois de quarenta anos. Achei que nunca mais teria tempo. Engraçado... precisei descobrir que o tempo era curto para lembrar do que eu amava fazer.

Clara permaneceu alguns instantes olhando o desenho. Não havia ali qualquer técnica extraordinária. Havia vida. Havia memória transformada em cor.

Antes de deixar o quarto, a paciente acrescentou, quase num sussurro:

Se eu não conseguir terminar este quadro, minha filha termina por mim. O importante é que ele já começou.

Clara saiu em silêncio, levando consigo a certeza de que existiam curas que não apareciam nos exames nem cabiam nos prontuários. Viu famílias se despedaçarem e outras se unirem com uma força que nenhuma tomografia era capaz de captar.

Já ao fim da tarde, Clara encontrou um momento de paz na copa do setor. O cansaço físico era uma torrente, mas sua mente estava voltada para uma paciente jovem, cujo diagnóstico chegara na semana anterior. O dilema era constante: quanto da dor do outro ela devia carregar para casa? Havia um limite para a humanização quando os recursos da ciência se mostravam insuficientes?

Ela lembrou-se das palavras de uma preceptora, anos atrás: "A medicina cura às vezes, alivia frequentemente e consola sempre". Consolar, percebeu ela, não era dar respostas, mas simplesmente estar presente quando as respostas já não existiam mais. Não era sobre prolongar a vida por um mês a qualquer preço, mas sobre dar qualidade ao sopro que restava.

Ao sair do hospital, o sol de Fortaleza já descia, pintando o céu em tons de brasas. Clara caminhou até o estacionamento sentindo o peso do jaleco, que parecia mais pesado do que quando chegara pela manhã. Era o peso das histórias que ela abrigava, das lágrimas que secou e das mãos que segurou nos instantes finais. Ela percebeu que sua profissão não era apenas sobre deter a morte; era sobre garantir que, durante o tempo que houvesse, a dignidade fosse a norma.

Ela entrou no carro e, por um momento, permaneceu parada, olhando para a estrutura do hospital que se espelhava no vidro.

Ela acomodou a bolsa no banco do passageiro, colocou a chave na ignição e girou-a apenas o suficiente para acender o painel. O motor, porém, permaneceu em silêncio. Seus olhos pousaram sobre uma folha de papel presa sob o para-sol.

Era um desenho antigo, já um pouco amassado nas bordas pelo tempo.  Uma casa de telhado vermelho, um sol enorme ocupando quase metade da folha e, ao lado de uma mulher de jaleco branco, uma criança de mãos dadas com ela. No canto, escrito com letras irregulares, havia apenas:

"Para a doutora Clara."

Ela retirou o papel com cuidado, como quem toca uma lembrança que ainda respira. Observou o desenho durante alguns segundos. Um sorriso discreto lhe atravessou o rosto. Não havia fotografias, notícias ou qualquer outra lembrança que explicasse o destino daquela criança. Apenas aquele pedaço de papel que o tempo insistira em preservar.

Clara passou delicadamente os dedos sobre a dobra da folha, respirou fundo e tornou a guardá-la no mesmo lugar. Só então ligou o carro. Enquanto o motor despertava, ela compreendeu que alguns pacientes deixavam o hospital levando parte do tratamento. Outros, sem perceber, deixavam com ela pequenos fragmentos de humanidade que nenhuma faculdade ensinava a acolher e que nenhum jaleco conseguia esconder.

A ciência era a ferramenta, o bisturi, o fármaco, a tecnologia de ponta; mas o coração era o único instrumento capaz de traduzir aquela técnica em conforto. Amanhã haveria outros leitos, outros nomes, outros diagnósticos. Mas, por hoje, ela fizera o seu melhor, não apenas como oncologista que monitorava células malignas, mas como alguém que entendia que, no delicado limiar entre o jaleco e o coração, a medicina atingia seu ápice não quando derrotava a morte, mas quando conseguia, finalmente, olhar nos olhos de quem partia e validar a beleza do que foi vivido.

José Casanova 

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