O cartório de Alto Alegre do Maranhão não é um templo de justiça; é um depósito de poeira e silêncio, onde a vida humana é reduzida a carimbos e assinaturas ilegíveis. Elias, escrivão de terceira classe há vinte anos, passava seus dias transcrevendo escrituras de compra e venda de terras que ele nunca veria, pertencentes a pessoas que ele nunca conheceria. A burocracia, pensava ele enquanto ajustava os óculos no nariz suado, é a arte de tornar o mundo chato o suficiente para ser catalogado.
Naquela
tarde de terça-feira modorrenta, chegou às suas mãos um processo de inventário
antigo. O falecido, um certo Coronel Firmino (nome comum naquelas bandas,
carregado de autoridade e bigode), deixara uma fazenda de nome curioso:
"Sítio das Almas Perdidas".
Elias abriu
a pasta de papel pardo, sentindo o cheiro acre de mofo que se desprendia das
folhas amareladas. Começou a ler a descrição do imóvel, esperando a habitual
litania de medidas em braças, marcos de pedra e confrontações com vizinhos
litigiosos.
"Item 1: Uma gleba de terras de cultura e campos, situada à margem
esquerda do Igarapé do Inferno..."
Até aí, tudo
normal. Nomes geográficos nessa região tendiam ao dramático. Mas, à medida que
avançava na leitura, a linguagem técnica do agrimensor começava a falhar, dando
lugar a algo que Elias não encontrava nos manuais de Direito Imobiliário.
"...limitando-se ao norte com a cerca de arame farpado que divide a
esperança da resignação..."
Elias parou.
Limpou as lentes dos óculos na camisa. Leu de novo. "Cerca de arame
farpado que divide a esperança da resignação". Aquilo não era uma
confrontação física. Era metafísica. O agrimensor devia estar bêbado ou poeta, duas condições frequentemente indistinguíveis em Alto Alegre.
Continuou,
agora com o coração acelerado.
"...seguindo por um valado natural até encontrar o pé de tamboril
onde, em 1942, jurou-se amor eterno que durou apenas um inverno..."
O escrivão
sentiu um arrepio. Aquele documento não estava descrevendo uma propriedade;
estava mapeando uma memória. A posse da terra não se dava por metros quadrados,
mas por quilos de sentimento. O inventário listava bens que nenhum herdeiro
poderia reclamar em juízo: o eco de um riso antigo na varanda, a sombra fresca
de uma mangueira que viu três gerações nascerem e morrerem, o silêncio pesado
das tardes de domingo.
Elias olhou
ao redor. O cartório continuava o mesmo: as estantes de metal cinza, o
ventilador de teto girando preguiçosamente, o som monótono do carimbo do colega
na mesa ao lado. Pá. Pá. Pá. O ritmo da burocracia. Mas ali, naquelas
páginas, pulsava uma vida secreta.
"Item 4: Um açude de águas paradas, profundo como o arrependimento,
capaz de saciar a sede do gado, mas não a da alma..."
Ele pegou
sua caneta Bic azul. Sua função era transcrever aquilo para o livro oficial,
torná-lo público, legal, irrevogável. Mas como transcrever "profundo como
o arrependimento" sem cometer uma infração administrativa? O sistema do
Tribunal de Justiça não tinha campo para metáforas. O formulário pedia
"Área Total" e "Benfeitorias". Onde ele encaixaria a
"tristeza do poente"?
Elias
percebeu que estava diante de um dilema moral. Se ele alterasse o texto para o
padrão jurídico ("açude com capacidade de X litros"), estaria
cometendo um crime de falsidade ideológica contra a poesia. Estaria matando a
verdade daquela terra para salvar a sua legalidade. Mas se mantivesse o
original, o processo seria anulado por "inépcia da descrição".
Olhou para a
janela. O sol de Alto Alegre dourava a poeira da rua. Um menino passava
correndo atrás de uma pipa. A vida lá fora era feita dessas imprecisões
poéticas, dessas belezas que não cabem em formulários. A burocracia era apenas
uma tentativa desesperada de enquadrar o caos divino em linhas retas.
Tomou uma
decisão.
Puxou o
livro de registros, pesado e solene. Molhou a ponta da caneta na boca, um
hábito antigo. Começou a escrever.
"Certifico e dou fé que, revendo os autos do inventário dos bens
deixados por Firmino..."
Sua mão
tremeu.
"...consta um imóvel rural denominado Sítio das Almas Perdidas,
cujas divisas são a saudade ao norte, o esquecimento ao sul, a paixão a leste e
o silêncio a oeste."
Parou. Olhou
para o que escrevera. Era loucura. Ele seria demitido. O juiz corregedor
rasgaria a folha. Mas, naquele momento, Elias sentiu-se mais dono daquelas
terras do que qualquer herdeiro. Ele havia transformado a posse em poesia.
Havia dado à terra sua verdadeira dimensão: a humana.
Fechou o
livro com um estrondo que fez o colega ao lado pular.
— O que foi,
Elias? Matou uma barata? — Perguntou o outro.
— Não.
Salvei uma alma. — Respondeu Elias, levantando-se.
Pegou o
paletó no encosto da cadeira. O expediente ainda não tinha acabado, mas para
ele, o dia estava feito. Tinha cometido seu ato de rebeldia silenciosa. A
burocracia podia ter as chaves do arquivo, mas a poesia tinha acabado de
arrombar a porta. Saiu para a rua, sentindo que Alto Alegre, com suas cercas de
arame e seus pés de tamboril, agora lhe pertencia de uma forma que nenhum
registro de imóveis jamais conseguiria capturar.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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