quinta-feira, 21 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Ponto Final Absoluto

    A mesa de Bento estava limpa. Diferente das noites anteriores, quando pilhas de manuscritos mutilados lutavam por espaço com xícaras de café e cinzeiros transbordantes de angústia, hoje havia apenas uma folha de papel A4. Branca. Imaculada.

    Ele a encarava há três horas.

  Para o mundo lá fora, Bento era o "Exterminador", o carrasco que decapitava advérbios e estripava parágrafos inteiros. Mas, na intimidade de seu pensamento, ele sabia que a destruição era apenas um meio. O fim sempre fora a busca pela essência. E o que é a essência senão o silêncio que antecede e sucede a palavra?

    Ele pegou a caneta. Sua mão, calejada de tanto riscar o excesso alheio, pairou sobre a brancura.

    "A vida é..."

    Parou. A vida é o quê? Complicada? Breve? Um sonho? Qualquer adjetivo que ele escolhesse seria uma redução. Dizer que a vida é "breve" é ignorar os momentos em que ela se arrasta como um caracol em dia de chuva. Dizer que é "bela" é ofender quem sofre. Dizer que é "triste" é negar o sorriso da criança. Qualquer palavra, percebeu Bento, é uma prisão.

    Largou a caneta.

    O silêncio do escritório era absoluto. Podia ouvir o zumbido da lâmpada fluorescente e, mais longe, o som abafado de um carro passando na rua. Aquele ruído mundano não o incomodava; pelo contrário, realçava a pureza do papel à sua frente.

    Ele sempre acreditara que o escritor perfeito era aquele que encontrava a palavra exata. Flaubert e seu le mot juste. Mas e se a palavra exata não existisse? E se a linguagem humana, com suas limitações gramaticais e semânticas, fosse apenas uma rede grosseira tentando capturar a água do mar? A água sempre escapa pelos buracos. O que fica na rede são algas mortas e pedras.

    A literatura, concluiu Bento com um frio na espinha, é a arte do fracasso. Tentamos dizer "amor" e escrevemos romances de quinhentas páginas que, no final, não arranham a superfície do que sentimos quando olhamos nos olhos de quem amamos. Tentamos dizer "medo" e criamos monstros de papel que não assustam ninguém.

    Mas aquela folha em branco... Ah, ela continha tudo.

   Ali, naquele vazio, cabiam todas as histórias jamais contadas. Cabia o romance épico sobre a fundação de Bacabal. Cabia o poema lírico que faria chorar as pedras de cantaria de São Luís. Cabia a confissão do assassino e a oração do santo. O branco não era a ausência; era a potencialidade infinita. Era o Deus da literatura antes do "Fiat Lux".

    Bento sentiu uma vertigem. Ele passara a vida cortando, podando, limpando. Seu objetivo sempre fora chegar ao osso. Mas agora, diante do osso polido, percebia que o tutano era feito de nada.

    Lembrou-se de um velho mestre de caligrafia japonesa que dizia: "O espaço entre as letras é mais importante que a tinta". Bento sempre achara aquilo uma metáfora bonita. Agora, via que era uma instrução técnica. O papel em branco era o maior intervalo possível. Era a música composta apenas de pausas.

    Ele pegou a folha com as duas mãos, segurando-a pelas bordas como se fosse um objeto sagrado e frágil.

    Se ele escrevesse uma única palavra ali, estragaria tudo. Uma mancha de tinta quebraria a perfeição do infinito. "Eternidade", se ele escrevesse, ocuparia um espaço físico, finito, com começo e fim. A palavra "Eternidade" dura o tempo que se leva para lê-la. O papel em branco dura para sempre.

    Ele sorriu. Um sorriso de quem desvendou a piada cósmica.

    A obra-prima não é aquela que diz tudo; é aquela que permite que tudo seja dito na mente do leitor. Ele, o Exterminador, finalmente terminaria seu trabalho. Não precisava mais de caneta vermelha. Não precisava mais corrigir ninguém. A correção suprema era a inexistência do erro, e só não erra quem não escreve.

    Levantou-se e foi até a máquina de escrever, uma relíquia que mantinha no canto da sala por sentimentalismo. Inseriu a folha. O rolo girou com um estalo seco.

Datilografou, bem no topo, centralizado:

    A PERFEIÇÃO

    E puxou a folha.

    Só isso. O título e o abismo branco abaixo dele.

    Olhou para a obra. Era linda. Era terrível. Qualquer um que olhasse para aquela página veria seu próprio reflexo. O leitor triste veria tristeza. O leitor apaixonado veria amor. O crítico veria pretensão. O sábio veria o Tao.

    Bento colocou a folha em uma moldura simples de madeira preta e pendurou-a na parede, bem em frente à sua mesa. A partir de hoje, aquela seria sua musa e seu juiz. Sempre que sentisse a tentação de usar um adjetivo desnecessário, olharia para A Perfeição e lembraria que nenhuma palavra vale o silêncio que ela quebra.

    Apagou a luz e saiu do escritório. A casa estava quieta. Ele sentiu uma paz que nunca experimentara antes, a paz de quem depôs as armas. O mundo lá fora continuava barulhento, cheio de vozes, gritos e discursos vazios. Mas ali dentro, no santuário de sua mente, o silêncio reinava soberano, a única linguagem capaz de traduzir a inefável complexidade de estar vivo. E pela primeira vez, Bento não teve vontade de editar nada. O mundo estava, finalmente, limpo.

 

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundia de Letras da Humanidade

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