O pincel estalou contra o quadro branco na Escola
Joaquim Nogueira, em Fortaleza, desenhando uma guilhotina estilizada que
parecia observar a turma com um apetite aristocrático. O professor de História,
um homem que defendia o Iluminismo com a mesma paixão que defendia o seu
direito a um café quente na sala dos mestres, estava no auge de sua performance
pedagógica.
― Entendam, pessoal! ― Exclamou ele, gesticulando
com tamanha pompa que o pó de giz formava uma pequena névoa ao seu redor. ― O
Terceiro Estado não aguentava mais! Era o peso dos impostos, a fome assolando
as ruas de Paris, a Maria Antonieta mandando todo mundo comer brioche enquanto
o povo clamava por pão. A Queda da Bastilha não foi apenas a invasão de uma
prisão; foi a explosão de uma panela de pressão social!
A turma parecia, milagrosamente, hipnotizada. Até o
fundo da sala, geralmente um território sem lei governado por trocas de
figurinhas e fofocas sussurradas, mantinha os olhos fixos na lousa. O professor
sentiu aquele arrepio sagrado que todo educador experimenta uma vez a cada
cometa: a sensação de que o conhecimento estava, de fato, acontecendo. Ele
respirou fundo, preparou o clímax sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão e abriu os braços.
Foi nesse exato vácuo de silêncio dramático que uma
mão se ergueu na primeira fileira.
Não era uma mão apressada, dessas que buscam tirar
uma dúvida urgente sobre a data da prova. Era uma mão lenta, cerimonial,
pertencente a Maicon. Na fauna escolar, Maicon era classificado como o
"filósofo do nada". Seus processos cognitivos pareciam ocorrer em uma
dimensão paralela onde o tempo e a lógica da BNCC não tinham jurisdição.
O professor parou no meio do gesto. O brilho da
Revolução Francesa vacilou em seus olhos.
― Sim, Maicon? Alguma dúvida sobre o Diretório? Ou
talvez sobre o papel da burguesia na queda da monarquia? ― Perguntou o mestre,
tentando manter o fio da meada histórica preso por um fio de esperança.
Maicon
ajeitou os óculos, que escorregavam pelo nariz úmido de suor, e olhou fixamente
para um ponto vago na parede, logo acima da cabeça do professor, onde uma
formiga solitária percorria o relevo do reboco descascado.
― Professor... ― começou Maicon, com uma voz
carregada de uma gravidade existencial que faria Heidegger chorar de inveja. ―
Eu tava aqui pensando... Por que as formigas não usam tênis?
O silêncio que se seguiu não foi o silêncio da
reflexão histórica. Foi o silêncio do vácuo absoluto, o som de quarenta
cérebros sofrendo um curto-circuito simultâneo. O professor de História sentiu
Robespierre e Napoleão se revirarem em suas tumbas europeias.
― Como é, Maicon? ― O professor piscou, o pincel ainda
suspenso no ar como uma arma esquecida.
― É que elas andam muito, né? ― Continuou o
filósofo do nada, sem se abalar pelo choque coletivo. ― Se a gente andar o que
elas andam, proporcionalmente ao tamanho, a gente estoura a sola do pé. E elas
sobem parede, passam por cima de farelo de biscoito, atravessam o pátio inteiro
no sol de meio-dia de Fortaleza. Se elas usassem um All Starzinho, ou um tênis
de mola, elas não iam tropeçar nas imperfeições do chão? Porque se uma formiga
tropeça e cai de cara, como é que ela avisa pra coluna que vem atrás pra não
fazer um engavetamento?
Davi, o especialista em física quântica da
malandragem sentado duas bancadas atrás, franziu a testa, contagiado pelo vírus
da aleatoriedade.
― Pior que é mermo, macho ― Interrompeu Davi. ― Se
elas tropeçarem carregando uma folha, a folha vira tipo um paraquedas ou esmaga
a coitada? É uma questão de resistência dos materiais, professor.
O professor de História sentiu a guilhotina que ele
mesmo desenhara cair metaforicamente sobre o seu pescoço. A Bastilha havia
caído, mas não para a liberdade; havia caído para o reino do absurdo.
― Pessoal, por favor! ― O professor tentou resgatar
os destroços da aula. ― Estamos em 1789! Luís XVI está prestes a perder a
cabeça e vocês estão discutindo EPIs para insetos? Maicon, formigas não têm pés
como os nossos, elas têm garras e estruturas de adesão. Elas não tropeçam
porque têm seis patas, o centro de gravidade é baixo e, pelo amor de tudo o que
é pedagógico, elas não têm lojas de calçados no formigueiro!
― Mas e se tivesse, professor? ― Insistiu Maicon,
os olhos agora brilhando com a centelha da descoberta inútil. ― Imagina o
mercado de trabalho. Um sapateiro de formigas ia ficar rico. Ia ter tênis de
corrida, chuteira de trava pra gramado... a Revolução Industrial ia começar na
colônia debaixo dessa sala se elas resolvessem calçar alguma coisa.
A turma, que há cinco minutos discutia a fome em
Paris, agora estava plenamente engajada em um debate acalorado sobre a
numeração de calçados para a classe Insecta. Uma garota no fundo sugeriu
que as formigas operárias deveriam usar botas de bico de aço por causa da carga
pesada, enquanto outro aluno defendia que isso atrasaria a produção de mel —
sendo prontamente corrigido por um colega de que formigas não fazem mel, o que
gerou uma nova subdiscussão sobre a utilidade biológica das abelhas no contexto
do capitalismo agrário.
O professor de História encostou-se na mesa,
sentindo a derrota fluir por suas veias. Ele olhou para o plano de aula, onde a
palavra "Iluminismo" brilhava ironicamente. Não havia luz ali. Havia
apenas a sombra vasta e imprevisível da mente de um adolescente de catorze anos
que, no meio de uma crise política global de dois séculos atrás, decidiu se preocupar
com o conforto podológico de uma saúva.
― Sabem de uma coisa? ― Disse o professor, num tom
de resignação que beirava o estado de Nirvana. ― Vamos falar de formigas,
então. Na Revolução Francesa, o povo era como as formigas. Trabalhavam sem
parar, carregavam o peso do clero e da nobreza nas costas e, se um tropeçasse
de fome, os outros continuavam marchando sobre ele porque o sistema não parava.
A diferença é que o povo não queria tênis. O povo queria a cabeça do rei.
Maicon balançou a cabeça devagar, processando a
analogia forçada com uma seriedade assustadora.
― Entendi, professor. O rei era o chinelo que
tentava esmagar o formigueiro. Faz sentido.
O sinal da Escola Joaquim Nogueira tocou,
libertando o professor de sua tortura filosófica. Enquanto os alunos saíam,
Maicon passou pela mesa do mestre, parou por um segundo e disse:
― Mas se elas usassem tênis de luzinha,
professor... ia ser bem mais fácil de ver elas no escuro e ninguém ia pisar sem
querer. Fica aí a reflexão.
O professor permaneceu sozinho na sala de aula,
cercado pelo cheiro de giz e pela poeira do tempo. Ele olhou para a formiga na
parede. Ela continuava sua marcha, sem tropeçar, sem All Star e,
definitivamente, sem se importar com a queda da monarquia. Ele percebeu que a
sala de aula é um ecossistema onde a lógica linear morre para dar lugar a uma
biodiversidade de pensamentos desconexos que, de alguma forma bizarra, mantêm a
máquina escolar girando.
Lentamente, ele apagou a guilhotina do quadro.
Amanhã seria o período napoleônico. Ele já antecipava a pergunta de Maicon
sobre se o cavalo branco de Napoleão sofria de insônia ou se o imperador usava
o chapéu daquela forma para esconder um roteador de wi-fi.
As interrupções são, na verdade, os únicos momentos
de silêncio real da alma discente, quando a pressão de aprender o que já passou
colide com a urgência de entender o que não tem a menor importância. Ele
guardou seu material, ciente de que a próxima batalha pedagógica seria travada
sob a mesma vigilância silenciosa das paredes descascadas, onde a busca pela
verdade histórica estaria sempre a um passo, ou a um tropeço de uma dúvida
metafísica sobre o vestuário dos invertebrados.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabaalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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