A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

Mostrando postagens com marcador alto Alegre do Maranhão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alto Alegre do Maranhão. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Boi e o Som das Estrelas




O ar em Alto Alegre, no interior do Maranhão, costuma ser impregnado pelo cheiro de terra seca e fumaça de lenha, mas nas noites de junho, tudo muda. O vento traz o aroma de pipoca, mingau de milho e o perfume metálico das miçangas novas. Para o pequeno Davi, de oito anos, o mundo não chega em doses suaves; ele chega em avalanches. Cada cor é um grito, cada som é uma martelada e cada toque na pele é como o roçar de uma lixa grossa.

Ele estava sentado no último degrau da escada de casa, as mãos apertando os joelhos, enquanto o som distante das matracas começava a riscar o silêncio da noite.

— Davi, vamos ver o boi? — Perguntou o pai, aproximando-se com cuidado, mantendo uma distância segura para não invadir o espaço vital que Davi defendia com tanto vigor. — O Bumba Meu Boi de Alto Alegre é o mais bonito do mundo, filho. As estrelas descem para dançar no couro do boi.

Davi não respondeu com palavras. Ele olhou para o céu. Para ele, as estrelas não eram apenas pontos de luz; eram agulhas brilhantes que faziam um zumbido fininho, uma frequência que só ele parecia captar. O conceito de "bonito" para Davi era indissociável de "suportável".

Ele aceitou ir, mas apenas porque o pai trazia o par de abafadores de ruído azuis, o seu escudo contra o caos. Enquanto caminhavam em direção ao terreiro onde a festa acontecia, a realidade de Davi se transformava. Para as outras crianças que corriam pelas ruas de terra, o som das matracas era alegria. Para Davi, era um terremoto rítmico. Taca-taca-taca-taca. O som batia no peito dele, vibrava nos dentes e ecoava nos ossos do crânio.

Quando chegaram ao arraial, o impacto sensorial foi avassalador. As lâmpadas de gambiarra, enroladas em papéis de seda coloridos, oscilavam com o vento, criando sombras gigantescas que dançavam nas paredes de pau-a-pique. O vermelho das roupas dos caboclos de fita não era apenas vermelho; era um fogo que ardia nos olhos de Davi. O amarelo das lantejoulas era como pequenos flashes de luz de solda.

Davi pressionou os abafadores com mais força contra as orelhas. O som do mundo diminuiu, transformando-se em um murmúrio subaquático, mas a vibração permanecia. O chão de terra batida sob seus pés descalços dizia exatamente onde os batedores de pandeiro estavam. Ele sentia a batida do tambor-onça como um trovão que subia pelas pernas e se alojava no estômago.

— Olhe, Davi! O Boi! — Apontou a mãe, os olhos brilhando de devoção cultural.

O boi entrou no centro do terreiro. Era uma criatura de veludo negro, bordada com milhares de vidrilhos, canutilhos e espelhos. Na lógica de Davi, aquele boi era uma galáxia inteira. Os pequenos espelhos refletiam as luzes das gambiarras e o brilho das estrelas reais lá no alto, criando um padrão de luz que, para o menino, tinha um ritmo matemático.

Davi começou a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento rítmico que o ajudava a não ser esmagado pela intensidade do que via. Seus olhos se fixaram em um único detalhe: uma fita azul que pendia do chifre do boi e que balançava de forma diferente das outras. Ele entrou em hiperfoco. O resto do arraial desapareceu. As pessoas, o calor humano, o cheiro de suor e pólvora dos foguetes, tudo foi filtrado. Ficou apenas ele e a física do movimento daquela fita azul.

— Ele está gostando? — Sussurrou a mãe para o marido, preocupada com o balanço contínuo do filho.

— Ele está processando. — Respondeu o pai, que já aprendera a ler os sinais silenciosos. — Olhe o olho dele. Ele está vendo coisas que a gente nem imagina.

Davi via a música. Para ele, o toque do pandeiro de fita criava ondas de cor violeta no ar. O som da matraca desenhava linhas serrilhadas e brancas. Era um espetáculo de sinestesia que tornava a festa do Bumba-Meu-Boi uma experiência mística e exaustiva.

A Síndrome de Sensibilidade Sensorial, comum em muitas pessoas no espectro autista, transforma eventos culturais em provações de coragem. Em cidades pequena como Alto Alegre do Maranhão, onde a tradição é o que une a comunidade, não participar da festa é quase um exílio. Mas participar exige que a família seja um anteparo, um tradutor de estímulos.

De repente, um batedor de matraca passou perto demais de Davi. O som seco da madeira batendo na madeira atravessou a barreira dos abafadores como um choque elétrico. Davi travou. Suas mãos subiram para o rosto e ele soltou um gemido baixo. O mundo tinha ficado barulhento demais, brilhante demais, apertado demais.

A mãe sentiu o perigo da desregulação. Ela não gritou com ele, não pediu para ele "parar com o show". Ela simplesmente o abraçou por trás, uma pressão firme e profunda que oferecia ao sistema nervoso de Davi o contorno que ele estava perdendo.

— A respiração, Davi. Um, dois, três... — ela guiava, mantendo a calma enquanto as pessoas ao redor olhavam com curiosidade ou estranhamento.

Pouco a pouco, o menino voltou. Ele não queria ir embora. Ele queria o boi, mas em suas próprias condições. Ele apontou para um canto mais escuro do arraial, longe das caixas de som e da poeira levantada pelos dançarinos. Os pais o levaram para lá.

Daquele lugar sombreado, Davi pôde observar o Bumba Meu Boi em sua totalidade. Sem a agressão direta do barulho e do movimento das massas, ele percebeu a harmonia entre o couro do animal de brinquedo e o firmamento. Para Davi, o boi de Alto Alegre era um tradutor universal: ele trazia o som das estrelas para a terra, transformando o silêncio do cosmos no batido rítmico do coração do Maranhão.

Ele estendeu a mãozinha no vazio, tentando tocar uma das lantejoulas que parecia voar no reflexo de um espelho. Ali, na lateral da festa, Davi encontrou seu lugar de direito. O respeito à neurodivergência em festas populares não significa que a criança deve ser mantida em uma redoma de vidro, mas sim que a festa deve ter espaços de respiro, zonas de baixa pressão onde a beleza possa ser apreciada sem dor.

Quando o boi se ajoelhou para o "batizado" simbólico, Davi sorriu. Foi um sorriso breve, mas que iluminou o rosto cansado dos pais. Ele havia captado a essência da festa. Ele sentira a alma do boi através da vibração do solo e da geometria das fitas.

A caminhada de volta para casa foi silenciosa. Alto Alegre parecia mais calma agora, como se o boi tivesse levado consigo toda a eletricidade da noite. Davi tirou os abafadores quando chegaram ao portão. O som dos grilos era agora um veludo para seus ouvidos.

Ao deitar na cama, o menino ainda via, sob as pálpebras fechadas, o rastro luminoso das lantejoulas. Ele entendeu que o mundo é um lugar imenso e barulhento, e que às vezes é preciso tapar as orelhas para conseguir ouvir o que as estrelas estão cantando. A cultura de seu povo não era um inimigo de seus sentidos; era apenas uma linguagem que ele falava com um sotaque diferente. No silêncio do quarto, Davi adormeceu com a certeza de que o boi voltaria no próximo ano, e que ele estaria lá, com seus protetores azuis e seu olhar de telescópio, pronto para ler novamente a escrita de luz que dança no couro da vida.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônica
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade