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sexta-feira, 22 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Burocracia Poética das Terras Altas

    O cartório de Alto Alegre do Maranhão não é um templo de justiça; é um depósito de poeira e silêncio, onde a vida humana é reduzida a carimbos e assinaturas ilegíveis. Elias, escrivão de terceira classe há vinte anos, passava seus dias transcrevendo escrituras de compra e venda de terras que ele nunca veria, pertencentes a pessoas que ele nunca conheceria. A burocracia, pensava ele enquanto ajustava os óculos no nariz suado, é a arte de tornar o mundo chato o suficiente para ser catalogado.

    Naquela tarde de terça-feira modorrenta, chegou às suas mãos um processo de inventário antigo. O falecido, um certo Coronel Firmino (nome comum naquelas bandas, carregado de autoridade e bigode), deixara uma fazenda de nome curioso: "Sítio das Almas Perdidas".

    Elias abriu a pasta de papel pardo, sentindo o cheiro acre de mofo que se desprendia das folhas amareladas. Começou a ler a descrição do imóvel, esperando a habitual litania de medidas em braças, marcos de pedra e confrontações com vizinhos litigiosos.

    "Item 1: Uma gleba de terras de cultura e campos, situada à margem esquerda do Igarapé do Inferno..."

    Até aí, tudo normal. Nomes geográficos nessa região tendiam ao dramático. Mas, à medida que avançava na leitura, a linguagem técnica do agrimensor começava a falhar, dando lugar a algo que Elias não encontrava nos manuais de Direito Imobiliário.

    "...limitando-se ao norte com a cerca de arame farpado que divide a esperança da resignação..."

    Elias parou. Limpou as lentes dos óculos na camisa. Leu de novo. "Cerca de arame farpado que divide a esperança da resignação". Aquilo não era uma confrontação física. Era metafísica. O agrimensor devia estar bêbado ou poeta, duas condições frequentemente indistinguíveis em Alto Alegre.

    Continuou, agora com o coração acelerado.

    "...seguindo por um valado natural até encontrar o pé de tamboril onde, em 1942, jurou-se amor eterno que durou apenas um inverno..."

    O escrivão sentiu um arrepio. Aquele documento não estava descrevendo uma propriedade; estava mapeando uma memória. A posse da terra não se dava por metros quadrados, mas por quilos de sentimento. O inventário listava bens que nenhum herdeiro poderia reclamar em juízo: o eco de um riso antigo na varanda, a sombra fresca de uma mangueira que viu três gerações nascerem e morrerem, o silêncio pesado das tardes de domingo.

    Elias olhou ao redor. O cartório continuava o mesmo: as estantes de metal cinza, o ventilador de teto girando preguiçosamente, o som monótono do carimbo do colega na mesa ao lado. Pá. Pá. Pá. O ritmo da burocracia. Mas ali, naquelas páginas, pulsava uma vida secreta.

    "Item 4: Um açude de águas paradas, profundo como o arrependimento, capaz de saciar a sede do gado, mas não a da alma..."

    Ele pegou sua caneta Bic azul. Sua função era transcrever aquilo para o livro oficial, torná-lo público, legal, irrevogável. Mas como transcrever "profundo como o arrependimento" sem cometer uma infração administrativa? O sistema do Tribunal de Justiça não tinha campo para metáforas. O formulário pedia "Área Total" e "Benfeitorias". Onde ele encaixaria a "tristeza do poente"?

    Elias percebeu que estava diante de um dilema moral. Se ele alterasse o texto para o padrão jurídico ("açude com capacidade de X litros"), estaria cometendo um crime de falsidade ideológica contra a poesia. Estaria matando a verdade daquela terra para salvar a sua legalidade. Mas se mantivesse o original, o processo seria anulado por "inépcia da descrição".

    Olhou para a janela. O sol de Alto Alegre dourava a poeira da rua. Um menino passava correndo atrás de uma pipa. A vida lá fora era feita dessas imprecisões poéticas, dessas belezas que não cabem em formulários. A burocracia era apenas uma tentativa desesperada de enquadrar o caos divino em linhas retas.

    Tomou uma decisão.

    Puxou o livro de registros, pesado e solene. Molhou a ponta da caneta na boca, um hábito antigo. Começou a escrever.

    "Certifico e dou fé que, revendo os autos do inventário dos bens deixados por Firmino..."

    Sua mão tremeu.

    "...consta um imóvel rural denominado Sítio das Almas Perdidas, cujas divisas são a saudade ao norte, o esquecimento ao sul, a paixão a leste e o silêncio a oeste."

    Parou. Olhou para o que escrevera. Era loucura. Ele seria demitido. O juiz corregedor rasgaria a folha. Mas, naquele momento, Elias sentiu-se mais dono daquelas terras do que qualquer herdeiro. Ele havia transformado a posse em poesia. Havia dado à terra sua verdadeira dimensão: a humana.

    Fechou o livro com um estrondo que fez o colega ao lado pular.

    — O que foi, Elias? Matou uma barata? — Perguntou o outro.

    — Não. Salvei uma alma. — Respondeu Elias, levantando-se.

Pegou o paletó no encosto da cadeira. O expediente ainda não tinha acabado, mas para ele, o dia estava feito. Tinha cometido seu ato de rebeldia silenciosa. A burocracia podia ter as chaves do arquivo, mas a poesia tinha acabado de arrombar a porta. Saiu para a rua, sentindo que Alto Alegre, com suas cercas de arame e seus pés de tamboril, agora lhe pertencia de uma forma que nenhum registro de imóveis jamais conseguiria capturar.


José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade