terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Acaso não Existe

O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.

            Muitas vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem chamar de destino.

A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios tênues de causalidades humanas.

 Fortaleza, com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto, por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais que jamais visitaremos.

Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada, aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.

A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes, olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias. "Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.

 Não somos apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer uma dessas metrópoles brasileiras.

Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.

No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um mosaico perfeito.

É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas. Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade. Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo, na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?

 Essas situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte, uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.

Interessante é pensar nas figuras que compõem esse cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo, os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão olhando.

As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza, São Paulo, Brasília  são mais que meros pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.

Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado, passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.

O tecido da realidade é feito de fibras resistentes e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do fluxo.

Essa percepção nos torna mais humanos e, paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal, aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.

Estamos todos mergulhados nessa sopa de causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando. Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da A cademia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

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