domingo, 24 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: Pituca, o Miolo encantado

 

Junho chegou em Bacabal como chegam certas visitas antigas: sem pedir licença, espalhando música pelos cantos da cidade e acordando até parede adormecida. Bastava o primeiro toque da zabumba ecoar na Rua do Cajueiro que o povo já sabia: o Boi Curupira estava “levantando o couro” outra vez.

E no centro daquela engrenagem encantada existia Augusto Pituca, homem magro, pele queimada de sol, vendedor de mingau na rodoviária, dono de uma sabedoria feita mais de silêncio do que de palavras difíceis. Não sabia citar poeta, mas conhecia o som do tambor pelo peso do vento. Não entendia de filosofia, mas sabia quando São João estava “andando pela cidade”, como dizia.

Pituca era o miolo do boi. Quase um “santo popular de couro e suor”, um homem simples carregando um universo inteiro nas costas

Não virou miolo por talento. Virou por promessa.

Anos antes, Dandara sua filha  mais nova tinha adoecido. Febre alta, dessas que fazem mãe rezar baixinho e pai desaprender a dormir. Sem dinheiro, sem esperança e sem entender as receitas dos médicos, Pituca entrou sozinho na Igreja de São João Batista no bairro Trizidela numa madrugada de chuva fina. Acendeu uma vela torta e prometeu:

“Se minha menina escapar dessa, eu carrego um boi nas costas enquanto minhas pernas aguentarem.”

            Pituca na simplicidade de sua fé não sabia, mas naquele momento assumira o maior compromisso de sua vida.

A menina sarou.

E promessa feita pra santo junino não evapora. Fica rondando igual fumaça de fogueira.

Desde de então, Pituca entrava no couro do boi todos os anos como quem veste uma segunda pele. Não era fantasia. Era sacerdócio de pano, suor e fé. As pessoas percebiam que balbuciava algumas palavras que ninguém sabia o que era, fazia parte do ritual de sua entrada no boi. Conversar com o boi.Tocar o chão três vezes fazendo o sinal da cruz, ritual herdado do avô que também fora miolo no passado.

O povo dizia que ele mudava quando entrava no miolo.

A costureira da brincadeira, Dona Gracinha jurava ter visto os pés dele deixarem marcas viradas ao contrário na lama depois e um ensaio.

— Isso é o Curupira protegendo o boi.  — Cochichava ela, fazendo o sinal da cruz.

Já Zé Telim, percussionista do grupo e mentiroso profissional nas horas vagas, espalhava pela cidade:

— Uma vez Pituca dançou tanto que o boi amanheceu fumando!

Ninguém acreditava totalmente. Mas também ninguém duvidava.

Porque em terreiro junino, verdade e invenção dormem na mesma rede.

Nos ensaios, Pituca era observado de perto por Raíssa, índia guerreira, moça afiada que dançava como se o chão tivesse música própria.

— Tu precisa aprender a sorrir dentro desse boi, Pituca. — Ela dizia.

— Mas ninguém tá vendo meu rosto. – Respondeu Pituca.

            — São João vê. – Insistiu Raíssa.

Deste de então, Pituca passava o ensaio inteiro tentando sorrir escondido dentro da armação, feito menino aprendendo segredo novo.

Havia também Maestro Chagas, homem responsável pela orquestra, dono de um bigode tão grande que parecia reger sozinho os metais. Tinha vindo da paraíba e se apaixonou pela cultura maranhense.

Chagas levava a brincadeira como ciência.

— Atenção! Trombone não é pra soprar feito quem assusta galinha! Isso aqui é emoção sonora!

Mas bastava Pituca entrar no terreiro para toda disciplina desafinar.

Certa noite, durante apresentação no bairro da Trizidela, uma criança correu no meio da roda atrás do boi. Pituca, num reflexo quase sobrenatural, ergueu a estrutura inteira e girou por cima do menino sem derrubar uma pena.

O povo enlouqueceu.

Uma senhora gritou:

— Esse homem tem mola nos ossos!

Na semana seguinte, surgiu o boato de que Pituca tinha aprendido a dançar com entidades encantadas no fundo do Rio Mearim.

O mais engraçado era que ele próprio começava a acreditar.

Nas madrugadas depois das apresentações, sentado na calçada com os pés mergulhados numa bacia d’água, Pituca conversava com o boi como quem conversa com um velho amigo.

— Hoje nós quase caiu, né parceiro?

O boi, imóvel num canto da sala, parecia escutar.

A esposa dele, Dona Neuma, já estava acostumada com o comportamento esquecido do marido.

— Homem, tu tá conversando com madeira. – Perguntou só pra confirmar.

— Madeira nada. Depois de tanto São João, isso aqui já criou alma.

E talvez tivesse criado mesmo.

Porque havia momentos em que o Boi Curupira parecia conduzir Pituca, e não o contrário.

Na grande apresentação da noite de São Pedro, a orquestra explodiu em metais dourados. As índias rodopiavam feito labaredas coloridas. O amo cantava versos improvisados enquanto o povo se apertava nas ruas de Bacabal como se quisesse caber dentro da própria festa.

Então aconteceu.

No auge da toada, faltou energia.

A cidade mergulhou num breu morno.

Por dois segundos, só existiu silêncio.

Depois alguém começou a bater matraca.

Outro respondeu no pandeirão.

Uma zabumba acordou no escuro.

E Pituca continuou dançando.

Sem     luz.
Sem     palco.
Sem enxergar quase nada.

O couro do boi riscava a noite como um vagalume gigante.

As pessoas acenderam lanternas de celular. As crianças correram atrás do brilho improvisado. As estrelas pareciam mais baixas. E o povo inteiro começou a cantar junto, transformando a escuridão numa espécie de milagre coletivo.

Mais tarde, já perto do amanhecer, Neuma encontrou Pituca sentado sozinho atrás do arraial, ainda vestido de miolo.

— O que foi?

Ele demorou a responder.

— Às vezes eu acho que quando eu tô dentro do boi… eu desapareço.

— E vira o quê?

Pituca olhou o céu clareando sobre Bacabal, enquanto os últimos fogos ainda morriam longe.

— Viro encantado dançando... desses que São João solta pelo mundo só no mês de junho.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

 

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