Junho chegou em Bacabal como
chegam certas visitas antigas: sem pedir licença, espalhando música pelos
cantos da cidade e acordando até parede adormecida. Bastava o primeiro toque da
zabumba ecoar na Rua do Cajueiro que o povo já sabia: o Boi Curupira estava “levantando o couro” outra
vez.
E
no centro daquela engrenagem encantada existia Augusto Pituca, homem magro,
pele queimada de sol, vendedor de mingau na rodoviária, dono de uma sabedoria
feita mais de silêncio do que de palavras difíceis. Não sabia citar poeta, mas
conhecia o som do tambor pelo peso do vento. Não entendia de filosofia, mas
sabia quando São João estava “andando pela cidade”, como dizia.
Pituca
era o miolo do boi. Quase um “santo popular de couro e suor”, um homem simples
carregando um universo inteiro nas costas
Não
virou miolo por talento. Virou por promessa.
Anos
antes, Dandara sua filha mais nova tinha
adoecido. Febre alta, dessas que fazem mãe rezar baixinho e pai desaprender a
dormir. Sem dinheiro, sem esperança e sem entender as receitas dos médicos, Pituca
entrou sozinho na Igreja de São João Batista no bairro Trizidela numa madrugada
de chuva fina. Acendeu uma vela torta e prometeu:
“Se minha menina escapar dessa, eu carrego
um boi nas costas enquanto minhas pernas aguentarem.”
Pituca
na simplicidade de sua fé não sabia, mas naquele momento assumira o maior
compromisso de sua vida.
A
menina sarou.
E
promessa feita pra santo junino não evapora. Fica rondando igual fumaça de
fogueira.
Desde
de então, Pituca entrava no couro do boi todos os anos como quem veste uma
segunda pele. Não era fantasia. Era sacerdócio de pano, suor e fé. As pessoas
percebiam que balbuciava algumas palavras que ninguém sabia o que era, fazia
parte do ritual de sua entrada no boi. Conversar com o boi.Tocar o chão três
vezes fazendo o sinal da cruz, ritual herdado do avô que também fora miolo no
passado.
O
povo dizia que ele mudava quando entrava no miolo.
A
costureira da brincadeira, Dona Gracinha jurava ter visto os pés dele deixarem
marcas viradas ao contrário na lama depois e um ensaio.
—
Isso é o Curupira protegendo o boi. — Cochichava
ela, fazendo o sinal da cruz.
Já
Zé Telim, percussionista do grupo e mentiroso profissional nas horas vagas,
espalhava pela cidade:
—
Uma vez Pituca dançou tanto que o boi amanheceu fumando!
Ninguém
acreditava totalmente. Mas também ninguém duvidava.
Porque
em terreiro junino, verdade e invenção dormem na mesma rede.
Nos
ensaios, Pituca era observado de perto por Raíssa, índia guerreira, moça afiada
que dançava como se o chão tivesse música própria.
—
Tu precisa aprender a sorrir dentro desse boi, Pituca. — Ela dizia.
—
Mas ninguém tá vendo meu rosto. – Respondeu Pituca.
—
São João vê. – Insistiu Raíssa.
Deste
de então, Pituca passava o ensaio inteiro tentando sorrir escondido dentro da
armação, feito menino aprendendo segredo novo.
Havia
também Maestro Chagas, homem responsável pela orquestra, dono de um bigode tão
grande que parecia reger sozinho os metais. Tinha vindo da paraíba e se
apaixonou pela cultura maranhense.
Chagas
levava a brincadeira como ciência.
—
Atenção! Trombone não é pra soprar feito quem assusta galinha! Isso aqui é
emoção sonora!
Mas
bastava Pituca entrar no terreiro para toda disciplina desafinar.
Certa
noite, durante apresentação no bairro da Trizidela, uma criança correu no meio
da roda atrás do boi. Pituca, num reflexo quase sobrenatural, ergueu a estrutura
inteira e girou por cima do menino sem derrubar uma pena.
O
povo enlouqueceu.
Uma
senhora gritou:
—
Esse homem tem mola nos ossos!
Na
semana seguinte, surgiu o boato de que Pituca tinha aprendido a dançar com
entidades encantadas no fundo do Rio Mearim.
O
mais engraçado era que ele próprio começava a acreditar.
Nas
madrugadas depois das apresentações, sentado na calçada com os pés mergulhados
numa bacia d’água, Pituca conversava com o boi como quem conversa com um velho
amigo.
—
Hoje nós quase caiu, né parceiro?
O
boi, imóvel num canto da sala, parecia escutar.
A
esposa dele, Dona Neuma, já estava acostumada com o comportamento esquecido do
marido.
—
Homem, tu tá conversando com madeira. – Perguntou só pra confirmar.
—
Madeira nada. Depois de tanto São João, isso aqui já criou alma.
E
talvez tivesse criado mesmo.
Porque
havia momentos em que o Boi Curupira parecia conduzir Pituca, e não o
contrário.
Na
grande apresentação da noite de São Pedro, a orquestra explodiu em metais
dourados. As índias rodopiavam feito labaredas coloridas. O amo cantava versos
improvisados enquanto o povo se apertava nas ruas de Bacabal como se quisesse
caber dentro da própria festa.
Então
aconteceu.
No
auge da toada, faltou energia.
A
cidade mergulhou num breu morno.
Por
dois segundos, só existiu silêncio.
Depois
alguém começou a bater matraca.
Outro
respondeu no pandeirão.
Uma
zabumba acordou no escuro.
E
Pituca continuou dançando.
Sem luz.
Sem palco.
Sem enxergar quase nada.
O
couro do boi riscava a noite como um vagalume gigante.
As
pessoas acenderam lanternas de celular. As crianças correram atrás do brilho
improvisado. As estrelas pareciam mais baixas. E o povo inteiro começou a
cantar junto, transformando a escuridão numa espécie de milagre coletivo.
Mais
tarde, já perto do amanhecer, Neuma encontrou Pituca sentado sozinho atrás do
arraial, ainda vestido de miolo.
—
O que foi?
Ele
demorou a responder.
—
Às vezes eu acho que quando eu tô dentro do boi… eu desapareço.
—
E vira o quê?
Pituca
olhou o céu clareando sobre Bacabal, enquanto os últimos fogos ainda morriam
longe.
— Viro encantado dançando... desses que São João solta
pelo mundo só no mês de junho.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro
da Academia Bacabalense de Letras
Academia
Mundial de Letras da Humanidade







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