segunda-feira, 25 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Silêncio dos Inocentes (e dos Reprovados)






O ar na sala 302 da Escola Padre João Mohana, em Bacabal, estava tão carregado de tensão que poderia ser cortado com uma régua de trinta centímetros daquelas de plástico que os alunos usam como estilingue. O silêncio reinava, mas não era o silêncio respeitoso de uma biblioteca monástica; era o silêncio fúnebre de um corredor de execução pedagógica. Sobre a mesa de cada aluno, repousava a folha de papel almaço, branca e impessoal, contendo as dez questões de Geometria Analítica que prometiam selar destinos.

O professor, sentado em sua cátedra com a postura de quem vigia uma fronteira em tempos de guerra, observava os alunos. Ele conhecia cada microexpressão da agonia discente. Havia o aluno "estátua", que olhava para a primeira questão há exatamente doze minutos, esperando que as fórmulas de distância entre dois pontos se materializassem no ar por geração espontânea. Havia o aluno "ritmista", cuja única contribuição para a ciência naquele momento era o tique-nervoso de bater a caneta esferográfica contra a mesa: clique-clique, clique-clique. Aquele som era o código Morse da ignorância desesperada, uma mensagem enviada ao universo pedindo uma intercessão divina ou um incêndio acidental que forçasse a evacuação do prédio.

— Professor… — Sussurrou uma voz vinda do fundo, carregada de uma piedade que faria um santo chorar. Era o Darlan Caldas, que tentava manter a cabeça baixa para não atrair o olhar fulminante do mestre. — Essa questão três aqui… o senhor disse que ia cair o que tava no caderno, né?

— O que está no caderno e o que eu expliquei durante três semanas, Darlan — Respondeu o professor, sem desviar os olhos do horizonte de nucas suadas. — Leia o enunciado com calma. A resposta está na interpretação.

Darlan voltou a olhar para o papel. No seu rosto, a "interpretação" parecia mais uma tentativa de decifrar o manuscrito Voynich. Ele suspirou fundo, um som que carregava o peso de todas as aulas em que ele preferiu desenhar logotipos de bandas de metal na última folha do caderno a anotar o que era um plano cartesiano.

O silêncio voltava, apenas para ser interrompido pelo som seco de uma folha sendo apagada com tamanha violência que ameaçava romper o tecido do espaço-tempo, ou pelo menos o papel almaço. Alefe, o filósofo de coisa nenhuma, estava agora em um estado de transe místico. Ele não escrevia. Ele massageava as têmporas, os olhos fechados, os lábios movendo-se num sussurro inaudível. Ele não estava revisando a matéria; ele estava, muito provavelmente, tentando lembrar o próprio nome completo para preencher o cabeçalho, ou talvez negociando com forças ocultas a troca de sua alma por uma nota cinco redonda.

— É pecado colar, professor? — A pergunta veio de uma menina na segunda fileira, com uma sinceridade desarmante.

— Não é pecado, é infração disciplinar passível de anulação da prova, Mariana. Concentre-se no que você sabe.

— Mas é que eu não sei nada, professor. O "nada" é um conceito matemático aceitável como resposta? Tipo o conjunto vazio? — Ela indagou, a caneta suspensa como um ponto de interrogação físico.

O professor apenas sorriu, aquele sorriso clínico de quem já viu gerações inteiras naufragarem no mar de Pitágoras. Ele observava a técnica do "olhar periférico" sendo executada com maestria por alguns sobreviventes. Pescoços se alongavam milimetricamente, olhos giravam nas órbitas como radares de longo alcance, tentando captar qualquer sinal de uma constante numérica na folha do vizinho. No entanto, o desespero era tão generalizado que colar do colega ao lado era como pedir orientações de direção a outro cego no meio de um deserto, a chance de ambos terminarem no fundo de um precipício estatístico era de cem por cento.

Um aluno, no auge do delírio provocado pelo branco mental, começou a desenhar uma pequena paisagem no canto da prova. Havia uma casinha, uma árvore e um sol com óculos escuros. Para ele, aquela prova já não era um teste de conhecimento, era um testamento. Ele estava deixando a vida acadêmica e partindo para o exílio das férias de recuperação final.

De repente, o som de algo caindo. Foi apenas uma borracha, mas no silêncio sepulcral da Escola Padre João Mohana, soou como uma granada. Metade da turma saltou na cadeira. O professor consultou o relógio. Faltavam quinze minutos. Era o momento da "fase do improviso literário". Os alunos que haviam desistido de calcular começavam a escrever parágrafos inteiros sobre a importância da matemática para a sociedade, ou juras de amor eterno à coordenação, na esperança de que o sentimentalismo amolecesse o coração de gelo do corretor.

— Professor, eu posso entregar? — Perguntou Alafe, levantando-se com a dignidade de um capitão que afunda com seu navio.

A prova de Alafe estava impecavelmente limpa, exceto pelo nome e por uma única frase escrita em caligrafia gótica no meio da página: "O conhecimento é uma ilusão, e o erro é a única certeza humana".

— Poético, Alafe. Mas a ilusão vai te custar um zero bem real. — Disse o professor, recebendo o papel.

À medida que o sinal se aproximava, o desespero atingia o ápice. Alunos faziam o sinal da cruz antes de chutar a letra 'C' em todas as questões de múltipla escolha, confiando na estatística divina de que "Deus não castiga quem marca C de Cristo". Outros entregavam as folhas com sorrisos amarelos, o tipo de sorriso que as pessoas dão quando batem o carro num poste e percebem que o seguro venceu ontem.

Quando o sino finalmente tocou, a explosão de ruído foi catártica. Cadeiras foram arrastadas, gritos de "eu tava na dúvida entre a A e a B!" ecoaram pelo corredor, e a sala 302 esvaziou-se em segundos, deixando para trás apenas o cheiro de grafite e o silêncio retornado. O professor juntou o maço de papéis, sabendo que o que tinha em mãos não eram provas, mas uma antologia do absurdo, um registro documental de quantos caminhos a mente humana pode inventar para evitar o encontro direto com a lógica.

Ele caminhou em direção à saída, sentindo o peso das respostas criativas em sua pasta. Amanhã seria o dia de enfrentar o bunker, onde o café tentaria lavar a alma do cansaço de corrigir dez vezes a mesma piada sobre "X sendo a letra escondida e não o valor a ser achado". Mas ali, no pátio agora vazio, ele sorriu por um segundo. O drama cômico da ignorância era, afinal, a prova mais cabal de que, mesmo sem saber geometria, aqueles alunos dominavam a arte da resistência existencial. Eles podiam esquecer as fórmulas, mas nunca esqueceriam como negociar com o destino em uma folha de papel almaço.




José Casanova

Professor, Jornalista, escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

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