Na Rua Grande, em Bacabal, as
palavras circulavam mais rápido que moto em dia de feira. Passavam de boca em
boca, de mesa em mesa, de grupo de WhatsApp em grupo de WhatsApp, como se
fossem inocentes passarinhos sem dono. Mas palavra nunca é só palavra. Palavra
é mala antiga: às vezes a gente carrega sem saber o que tem dentro.
Foi
isso que descobriu Leomar numa terça-feira abafada, enquanto tomava café no Bar
do Garrincha, perto do Mercado Central.
Tudo
começou quando seu Leomar, homem de riso quanto a própria estatura
e camisa sempre aberta no peito, reclamou do calor e do movimento fraco
do comércio:
—
Rapaz, a coisa tá preta…
Ninguém
estranhou. A frase caiu na mesa como cai farelo de pão: comum, quase invisível.
Mas
Cristina Miranda estranhou.
Professora
de História recém-chegada de São Luís, ela tinha o hábito perigoso de pensar
antes de rir. Mexeu lentamente o café e perguntou:
—
Preta por quê?
O
silêncio apareceu tão rápido que parecia funcionário público batendo ponto.
Seu
Leomar coçou a cabeça.
—
Ué… modo de dizer.
—
Todo mundo diz. — Respondeu ela. — Mas já reparou que quase tudo que associam
ao preto é ruim?
Jonas,
que também estava no bar levantou os olhos azuis do celular. Nunca tinha
pensado naquilo. Na verdade, nunca tinha pensado em metade das frases que
repetia desde menino, como quem herda um móvel velho sem perguntar de onde
veio.
Lembrou imediatamente da mãe dizendo:
“Esse serviço ficou serviço de preto.”
Do tio reclamando:
“Não sou tuas negas.”
Da vizinha chamando
a menina bonita de:
“Mulata da cor do pecado.”
E até do
cabeleireiro anunciando:
“Vamos dar jeito nesse cabelo ruim.”
Ruim
pra quem?, pensou Leomar. Afinal de contas era branco, mas seu cabelo...não
era dos melhores.
A
conversa cresceu na mesa como chuva engrossando no inverno.
—
E “mercado negro”? — Perguntou Cristina. — Já percebeu como o negro quase
sempre aparece ligado ao ilegal, ao perigoso, ao errado?
—
Mas ninguém fala por mal. — Tentou argumentar Garrincha, enxugando copos atrás
do balcão.
—
Eu sei. — Respondeu ela. — Só que ausência de intenção não apaga o peso da
história.
O
ventilador do bar girava lento, empurrando um ar quente que cheirava a café,
fritura e memória antiga. Quantas vezes Garricha pensou em colocar uma
climatizador de ar no bar e desistiu por causa do preço. Foi então que Dona Ana,
que até aquele momento apenas ouvia, resolveu entrar na conversa.
Mulher
negra de turbante amarelo e voz baixa, ela parecia carregar continentes dentro
dos olhos.
—
Vocês sabem qual é o problema? — Perguntou. — O Brasil esqueceu que muita coisa
bonita daqui nasceu da África, mas continua lembrando da África apenas quando
quer associar algo ao negativo.
O
silêncio foi a única resposta. As palavras de dona Ana tinham força de uma
navalha a cortar consciências.
—
O tambor do bumba meu boi… veio de mãos negras. A comida temperada no dendê…
veio de mãos negras. O samba, o tambor de crioula, a capoeira, o jeito da gente
rir alto mesmo na dificuldade… tudo atravessou o oceano nos corpos de pessoas
escravizadas.
Ela
fez uma pausa curta. Todos os olhares do bar de Garrincha se voltaram para Dona
Ana.
—
Mas aí pegaram a palavra “negro” e transformaram em sinônimo de sujeira, erro e
perigo.
Leomar
sentiu algo estranho no peito. Como se alguém tivesse aberto uma janela dentro
dele.
Dona
Ana continuou:
—
Na África existiam reis quando muita gente aqui ainda morava em aldeia de
madeira na Europa. Existiam universidades em Tombuctu, bibliotecas gigantescas,
astronomia, filosofia, comércio. Existiam tecidos coloridos como festa de São
João e impérios ricos como canções de ouro.
O
bar parecia mais silencioso que a igreja Santa Terezinha em sexta-feira santa.
—
Só que a escravidão não roubou apenas corpos! — Disse ela. — Roubou também as
narrativas. E até hoje tem palavra carregando correntes invisíveis.
Jonas
tomou mais um gole de café engolindo a
seco as lembranças da infância. Das piadas na escola. Dos apelidos que
colocavam nos coleguinhas negros. Das meninas alisando o cabelo para “ficar
bonito”. Dos colegas dizendo que alguém tinha “alma branca” quando fazia algo
considerado elegante.
Agora
tudo aquilo parecia poeira colonial grudada na língua.
—
Quando alguém chama um cabelo crespo de “ruim”. — Continuou Dona Ana. — Está
dizendo sem perceber que a estética africana vale menos. Quando fala
“denegrir”, coloca o escuro como sinônimo de manchar. Parece pequeno… mas
criança escuta isso crescendo.
Seu
Leomar suspirou fundo.
—
Então quer dizer que a gente passou a vida repetindo coisa errada?
Cristina
sorriu de leve.
—
Quer dizer que sempre dá tempo de aprender diferente.
Do
lado de fora, o céu começava a escurecer sobre Bacabal. Um grupo ensaiava
tambor ao longe. Tum… tum… tum… O som atravessava a rua como um coração antigo
lembrando que ainda estava vivo.
O
Tambor parecia conversar com alguma aldeia escondida no outro lado do
Atlântico. Dona Ana ouviu o tambor e abriu um sorriso bonito.
—
Tá vendo? A África nunca foi embora daqui. Mora no ritmo, na comida, na fé, no
corpo, na linguagem… e até no jeito brasileiro de sobreviver sorrindo.
Jonas
sem entrar na conversa ficou olhando a rua.
Pensou
que talvez maturidade fosse isso: abrir espaço dentro da própria cabeça para
revisitar palavras antigas como quem reforma uma casa herdada. Tirar o mofo.
Abrir as janelas. Deixar entrar luz.
Porque
palavra não é vento.
Palavra
é semente.
E dependendo do que a gente planta na
fala, o mundo floresce… ou continua repetindo sombras que vieram de um passado
que já deveria ter perdido a voz.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras







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