domingo, 30 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Segunda Pele

 

   O espelho do banheiro sempre fora o lugar mais silencioso da casa de dona Helena. Durante trinta e dois anos de casamento, ele serviu apenas para tarefas de manutenção: pentear o cabelo, ajustar a postura, conferir se a maquiagem escondia a exaustão. O homem com quem partilhara a vida tratava seu corpo como um móvel da sala, algo que precisava de limpeza e ordem, mas que raramente merecia um olhar que buscasse vida ou desejo.

Agora, aos sessenta anos, com a casa finalmente em silêncio após a partida do marido e a saída dos filhos, Helena olhava novamente para aquela superfície, mas, pela primeira vez, não buscava imperfeições para corrigir.

Ela tocou os ombros, sentindo a textura da pele sob os dedos, as marcas que o tempo desenhara com a naturalidade de quem percorre um território vasto.

Havia um estranhamento absoluto ali. A sociedade  gostava de narrar o corpo da mulher de sessenta anos como uma peça de inventário fechada, um território colonizado pela maternidade e pelo dever doméstico, destituído de urgências. Helena, porém, descobria uma verdade subversiva: aquele não era o fim do desejo, era, talvez, o início de sua forma mais autêntica, livre da necessidade de agradar ao olhar do outro.

Nos primeiros meses de solteirice, ela se vestia com um certo recato, como se ainda estivesse sob o julgamento de olhos invisíveis.

Numa tarde de sábado, Helena voltou da cidade com um vestido de cetim cor de vinho, o primeiro que comprava pensando apenas em si. Vestiu-o diante do espelho do quarto e permaneceu alguns instantes em silêncio. A mulher refletida devolveu-lhe um sorriso tímido, quase adolescente. Era bonita. Sempre fora.

Mas, logo depois, um antigo desconforto atravessou-lhe o peito. Como um eco distante, ouviu a voz do marido dizendo que aquela roupa era chamativa demais, imprópria para uma mulher da sua idade. Sem perceber, levou as mãos ao tecido, despiu o vestido lentamente, dobrou-o com extremo cuidado e o guardou no fundo do guarda-roupa.

Durante uma semana inteira, evitou abrir aquela porta.

Na sexta-feira seguinte, ao preparar-se para a aula de dança, parou novamente diante do armário. Retirou o vestido, vestiu-o pela segunda vez e encarou o espelho com mais calma. A antiga voz ainda existia, mas já não tinha a mesma autoridade.

 Dessa vez, abriu a porta de casa sem voltar atrás.

Mas, lentamente, o desabrochar foi inevitável. Ela começou a comprar tecidos que nunca ousara vestir; sedas leves, cores que antes considerava chamativas demais. Ao deslizar um vestido de cetim pelo corpo uma noite de sexta-feira, sentiu um arrepio que não vinha do vento ou da temperatura fria. Era a consciência de sua própria pele.

O prazer, ela descobriu, não precisava mais do teatro constante da performance ou da validação de terceiros. Era um movimento íntimo, um diálogo entre si mesma e o que sentia. Passou a frequentar uma aula de dança de salão na periferia de São Luís, um lugar onde a idade era apenas um número na ficha de inscrição e o ritmo era o que mandava.

Na primeira noite em que saiu de casa para a aula de dança, Helena atravessava a calçada com passos ainda cautelosos quando uma vizinha, apoiada no portão, a observou de cima a baixo.

— Nessa idade ainda dançando?

A pergunta ficou suspensa no ar por apenas um instante. Helena voltou o rosto, sorriu com delicadeza e desejou boa noite. Depois continuou caminhando.

A cada passo, a música que ainda nem começara parecia fazer menos barulho do que aquela antiga necessidade de viver segundo as expectativas dos outros.

Ali, ao ser conduzida por mãos que não buscavam autoridade, sentiu o corpo despertar. Cada passo era uma reocupação de território. O toque na cintura, o girar, a respiração sincronizada com a do parceiro de dança , tudo isso ressoava dentro dela como uma melodia há muito esquecida, mas nunca desaprendida.

Não era apenas sobre o sexo, mas sobre o direito fundamental ao toque que não fosse uma obrigação ou um dever conjugal. Era sobre o autoconhecimento que levava décadas para florescer. Em suas conversas com as novas amigas de dança, encontrava relatos semelhantes: mulheres que, após um despertar tardio, sentiam a vida vibrar no pulso, prontas para reivindicar o seu tempo. Helena percebeu que a sua pele não era uma barreira, mas um meio de comunicação com o mundo. A "segunda pele", como ela chamava o tecido dos seus novos vestidos, era na verdade a proteção de uma liberdade que ela construíra sobre os escombros de décadas de repressão.

Certa noite, ao voltar da aula, desfez-se das roupas com uma lentidão deliberada. Observando-se no espelho do quarto, não viu as rugas ou a flacidez como sinais de declínio, mas como o mapa exato de uma sobrevivente. Ela tocou o próprio ventre, o quadril, os seios, reconhecendo ali o templo que ocupara durante anos sem nunca ter sido, de fato, a deusa proprietária.

Por um instante, seus dedos hesitaram. A mão afastou-se do próprio corpo quase sem que ela percebesse, como se ainda devesse pedir permissão a alguém que já não morava naquela casa. Existia uma ponta de melancolia diante daquele reflexo aprendido durante tantos anos. Então respirou fundo e voltou a tocar a própria pele, desta vez sem medo, como quem finalmente recupera aquilo que sempre lhe pertenceu.

Havia uma beleza feroz na maturidade,  um desapego do que os outros viam e uma conexão profunda com o que ela sentia.

Ela deitou-se na cama, esticando as pernas no lençol limpo, ocupando todo o espaço com uma satisfação que nunca, nem nos seus momentos mais felizes do passado, havia experimentado. O desejo já não era uma fogueira de palha que precisava ser alimentada por um companheiro para não morrer; era uma brasa constante, atenta e sua. Helena fechou os olhos, sorrindo para a escuridão do quarto, sentindo o pulso do próprio sangue como a revelação de um segredo tardio. O relógio batia as horas no corredor, mas para ela, o tempo tinha parado de ser um verdugo.

 O prazer era seu novo norte, a sua descoberta mais secreta e, finalmente, sua propriedade privada. Ela compreendeu, na calmaria aquela noite, que a maturidade não é um lugar onde a vida encerra suas demandas, mas o único estágio onde a mulher possui, enfim, a sabedoria necessária para ser, simultaneamente, o objeto e o sujeito da sua própria paixão, vivendo a vida não como quem aguarda o final do capítulo, mas como quem aprendeu, aos sessenta anos, a desfrutar, finalmente, do prazer de ser exatamente quem sempre foi, escondida sob camadas de expectativa, esperando a hora certa de aparecer.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

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