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segunda-feira, 16 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA - O Vendaval de Fortaleza: Mães de Luta



O vento que sopra da Praia de Iracema costuma trazer alívio para o calor de Fortaleza, mas, naquela tarde de terça-feira, ele parecia carregar apenas a poeira das obras intermináveis e o som estridente das buzinas do distante entroncamento da Avenida Bezerra de Menezes. Para Clarice, sentada em um banco de plástico em uma sala de espera que cheirava a desinfetante barato e mofo, o vento era um luxo distante. Sua realidade estava restrita ao peso de Pedro, seu filho de seis anos, que dormia um sono inquieto em seu colo, e à pasta de elástico transbordando documentos que ela apertava contra o peito.

Clarice vinha de uma pequena localidade no interior do Ceará chamada Icózinho, uma zona rural onde o silêncio da caatinga era a única terapia disponível para as crises sensoriais do filho. Estar na capital era um misto de esperança e tortura. Ela fazia parte de um grupo de mensagens no WhatApp batizado de "Mães de Luta", uma rede de apoio formada por mulheres que, como ela, haviam descoberto que a maternidade atípica era uma travessia solitária por um deserto burocrático.

— Eles cancelaram a fono de novo, Clarice. — Falou Fátima, uma mulher de semblante exausto que se sentou ao seu lado. Fátima trazia as mãos manchadas de tinta de caneta, resultado de horas preenchendo formulários de recurso. — Disseram que o contrato com a clínica conveniada venceu. Meu filho está há três meses sem terapia. Ele começou a se morder de novo.

Clarice sentiu um nó na garganta. Ela conhecia aquela dor. A dor de ver o retrocesso bater à porta porque o Estado decidiu que a saúde de uma criança neurodivergente era um gasto supérfluo.

— O meu Pedro não consegue vaga na escola perto de casa. — Respondeu Clarice, a voz baixa para não acordar o pequeno. — A diretora disse que "não tem mediador" e que seria melhor eu procurar uma escola especial. Mas a lei diz que ele tem direito à escola regular, Fátima. Eu li o Estatuto da Pessoa com Deficiência de ponta a ponta na viagem de ônibus.

Aquela sala de espera em Fortaleza era o epicentro de um vendaval invisível. Eram dez, quinze, vinte mães, todas com a mesma pasta de documentos, todas com o mesmo olhar de quem dorme quatro horas por noite. A solidão da mãe atípica no interior é geográfica; na capital, ela é institucional. No interior, Clarice era a "mãe do menino doido" para os vizinhos que se benziam ao vê-la passar. Em Fortaleza, ela era apenas um número de protocolo em uma fila que nunca andava.

— A gente não pode mais esperar sentada. — Disse uma terceira mãe, Socorro, levantando-se com uma indignação que parecia iluminar o ambiente enfumaçado. — Se a gente ficar aqui chorando baixo, eles vão continuar ignorando a gente. O vendaval só derruba o que está solto. Se a gente se der as mãos, a gente vira o vento.

Naquela tarde, o grupo Mães de Luta não apenas esperou pelo atendimento. Elas se organizaram. Ali mesmo, entre um choro de criança e um café de copo plástico, traçaram uma estratégia. Elas não queriam caridade; exigiam o cumprimento da Lei Berenice Piana e da Lei Brasileira de Inclusão. Exigiam que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) nas escolas de Fortaleza e do interior deixasse de ser uma promessa de palanque para se tornar uma prática de sala de aula.

Clarice olhou para as companheiras. Havia uma força ali que a medicina não explicava. Eram mulheres que haviam deixado suas vidas, seus empregos e, muitas vezes, suas próprias identidades para trás para se tornarem advogadas, terapeutas e escudos para seus filhos. A solidão que Clarice sentia na pequena aldeia onde morava começou a se dissipar. Ela percebeu que, embora o caminho fosse árduo, ela não caminhava mais no escuro.

— Sabe o que dói mais, Clarice? — Fátima comentou, enquanto Pedro despertava e começava a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento de autorregulação. — É que as pessoas acham que a gente é guerreira por escolha. Eu não queria ser guerreira. Eu queria ser só mãe. Queria que meu filho tivesse o que é dele por direito sem eu precisar virar uma onça todo dia.

Pedro soltou um som agudo, incomodado com a luz fluorescente que oscilava no teto. Clarice imediatamente tirou da bolsa um par de abafadores de ruído coloridos e os colocou nas orelhas do filho. O menino relaxou instantaneamente. Aquele pequeno gesto, o abafador, o lanche sem glúten preparado na madrugada, a paciência infinita diante do olhar de julgamento da recepcionista, era o verdadeiro ato revolucionário daquelas mulheres.

O grupo decidiu que, na semana seguinte, ocupariam a frente da Secretaria de Educação. Levariam cartazes, mas também levariam os laudos, os nomes dos filhos e a prova de que a inclusão escolar em Fortaleza ainda era um mito para muitos. Clarice comprometeu-se a mobilizar as mães de sua região. Ela voltaria para o interior não com a derrota de um atendimento cancelado, mas com a missão de uma rede fortificada.

A maternidade atípica no Ceará é um exercício de resistência sob o sol escaldante. É lutar contra o preconceito clínico que reduz a criança a um diagnóstico e contra o preconceito social que reduz a mãe a um fardo ou a uma santa. Clarice sabia que o vendaval de Fortaleza estava apenas começando a ganhar força. Não era um vento de destruição, mas um vento de mudança, de quem entendeu que a dignidade de seus filhos não era negociável.

Ao sair da clínica, o sol se punha sobre a metrópole, pintando o céu de tons de mel e brasa. Clarice caminhou pela calçada irregular, segurando a mão de Pedro com uma firmeza nova. Ela pensou nas outras mães, em Fátima, em Socorro, e em tantas outras cujos nomes ainda não conhecia, mas cujas batalhas eram as suas próprias.

A solidão ainda estaria lá em certos momentos, no silêncio da noite quando a exaustão física vencesse a esperança. No entanto, agora Clarice tinha um exército invisível ao seu lado. Ela sabia que cada passo dado naquele asfalto quente era um passo em direção a um mundo onde Pedro não precisasse pedir licença para existir.

O vendaval das mães de luta não aceitava mais o "não" como resposta final. Elas haviam aprendido que, quando a sociedade fecha as portas, elas mesmas constroem as janelas. E através dessas janelas, a luz da inclusão real finalmente começava a entrar, pouco a pouco, corrigindo a miopia de um sistema que por tanto tempo escolheu não ver a beleza e a potência das mentes divergentes.

Clarice respirou fundo o ar salgado que vinha do mar. O peso da pasta com laudos e recursos parecia mais leve agora. O objetivo não era apenas conseguir uma terapia ou uma vaga na escola; era garantir que cada criança, do centro de Fortaleza aos grotões mais distantes do estado, fosse vista em sua totalidade. E enquanto houvesse uma mãe atípica de pé, o vendaval da justiça não pararia de soprar, transformando a dor da exclusão em um grito coletivo de dignidade e respeito. A travessia era longa, mas Clarice já não tinha medo do caminho, pois sabia que a força de uma mãe que luta pelo direito de seu filho é o único poder capaz de redesenhar o horizonte.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras dda  Humanidade