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Alcântara volta a viver a Festa do Divino até o dia 24 de maio

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Quatorze horas de uma sexta-feira, em torno de um tronco de Pericurana de, aproximadamente 12 metros de comprimento, cerca de 20 homens se reúnem para enfeitar cuidadosamente, com galhos de murta, mais uma das suas manifestações de fé e registro de uma tradição secular. Quase duas horas depois, capitaneados por seis caixeiras entoando preces, dezenas de homens carregam em seus ombros, pelas ruas de uma cidade histórica, seguidos por milhares de pessoas, o mastro que seria erguido em homenagem ao Divino Espírito Santo, numa das manifestações populares marcantes do Maranhão.
A cidade é Alcântara, cenário de uma das maiores festas do Divino Espírito Santo do estado e que remonta às celebrações religiosas que aconteciam em Portugal, a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos. Com cortejos, visitas e rituais ricos em arte, roupas, canto, dança e culinária, a festa relembra os tempos áureos do Brasil Colonial. Ontem, toda a cidade saiu em cortejo pelo levantamento do mastro da mordoma-régia.
Conceição de Maria Lobato Sousa, mordoma-régia da festa este ano, explica que é uma responsabilidade muito grande estar à frente dessa função, mas que a satisfação é a maior recompensa. “Ao mordomo cabe coordenar o recolhimento de fundos para a festa e coordenar a sua realização, sendo essa função uma forma de pagamento pelo recebimento de uma graça. E eu me sinto muito abençoada pelo Divino, por isso a alegria”, diz ela.
O mastro foi carregado pelas vias de pedra da cidade. Apesar das diversas ladeiras e ruas que formavam o caminho até a Capela de Nossa Senhora do Desterro, em frente onde o mastro foi fincado, os carregadores garantiam que a alegria de manter a tradição lhes dava força para seguir em frente.
Alessandro da Costa, 20 anos, que participou pela primeira vez como carregador, disse que não poderia deixar de seguir o caminho do pai. “É um esforço enorme carregar esse mastro pela cidade, mas quem cresce aqui aprende desde cedo a importância dessa manifestação, ainda mais se a família for muito ligada ao festejo”, afirma.
Cortejo - Foram três horas de passeata pelas principais ruas de Alcântara. Milhares de pessoas acompanharam o cortejo capitaneadas pelas tradicionais caixeiras do Divino. Dona Ana Benedita Ferreira, 89 anos, era a mais idosa do grupo. “Com 16 anos comecei a tocar, incentivada por minha mãe, e nunca mais parei, pois é uma satisfação muito grande”, disse. No entanto, ela lamenta o fato de a tradição das caixeiras estar acabando na cidade. “Hoje somos apenas três, as outras são de outros municípios. As meninas não se interessam pela função”, resigna-se.
Ao longo do percurso, nove paradas foram realizadas em frente às casas dos “festeiros” – pessoas que se propõem a receber a visita do mastro e em troca entregar aos devotos comidas e bebidas como forma de homenagear o Divino Espírito Santo.
Dona Maria de Fátima Ribeiro foi uma das nove festeiras deste ano. Ela, que cresceu acompanhando os cortejos, contou que participar mais ativamente de uma manifestação como essa é sempre uma experiência de fé. “Hoje a festa mudou muito. Tem muita gente que vem só para se divertir, mas quem vive esse momento de fato tem sua fé renovada a cada ano”, assinalou ela.
Antônio José Assis é um dos principais organizadores do festejo em Alcântara. Segundo ele, manter viva a tradição é manter viva a história da cidade. “Sabemos que muita gente vem apenas para brincar, mas o mais importante fica na memória das pessoas: que Alcântara é uma cidade que preserva sua história e que tem um povo orgulhoso disso, por isso, ano após ano, seguimos com esse trabalho”, ressaltou.
FONTE: Jock Dean/ O Estado

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