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NOSSAS CIDADES (NÃO) CRIATIVAS

Por Joãozinho Ribeiro
De volta de uma breve estadia a cidade de São Paulo, coleciono, dentre outras agradáveis surpresas, um jantar com o amigo Zeca Baleiro e sua simpática esposa Mara, a comemoração de aniversário do meu enteado Daniel, a classificação do Santos para a outra fase da Taça Libertadores das Américas, e uma excelente notícia em forma de convite: a defesa da tese de doutoramento da amiga e economista Ana Carla Fonseca, que acontecerá no próximo dia 02/05, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, tendo por tema “Cidades Criativas”.
Trata-se de um trabalho acadêmico de fôlego, original e inovador, aguardado com bastante expectativa pelos estudiosos do assunto, fruto de um conjunto muito bem articulado de estudos e pesquisas, focados em distintas experiências analisadas pela lente acurada da autora em algumas cidades do Brasil e do mundo, dividido, didaticamente, em cinco capítulos, assim distribuídos:
I – Economia Criativa;
II – Cidades Criativas (incluindo a proposta de um conceito);
III – Breve aplicação do conceito cunhado a Londres, Bilbao e Bogotá;
IV – Um olhar sobre São Paulo, em busca de conexões, inovações e cultura; e
V – Aplicação do conceito à capital paulista.
Ana Carla Fonseca traz na bagagem a participação como conferencista em vários eventos de caráter nacional e internacional, além da consultoria a organismos multilaterais, como é o caso da UNESCO. Esteve por algumas vezes colaborando com a discussão cultural no Maranhão, na cidade de São Luís.  A última vez que tive o privilégio de usufruir da sua inteligente companhia foi em março de 2010 durante a realização da II Conferência Nacional de Cultura, em Brasília-DF, onde participou de um painel bastante concorrido, discorrendo sobre o tema Economia da Cultura.
O potencial criativo das cidades é a tônica em cima da qual elabora sua tese e destaca o planejamento como elemento fundamental para a construção de políticas públicas para as áreas da cultura, do esporte e do turismo, incluindo a necessidade da formação de gestores públicos e privados para administração de espaços culturais e a capacitação permanente de mão de obra para o aproveitamento de diferentes tecnologias que se encontram hoje à disposição dos empreendedores culturais , turísticos e esportivos.
Infelizmente, não é esta a vertente que os governantes das nossas cidades têm pautado como referência para os respectivos desenvolvimentos dos seus municípios. Soube a pouco de cidades próximas de São Luís que recusaram até a parceria de projetos de oficinas de capacitação artísticas premiadas pelo Banco do Nordeste por simples birra do prefeito, que queria ver o seu nome destacado em todas as peças publicitárias, embora não estivesse entrando com nenhum recurso municipal.
Ao invés da valorização do potencial criativo do engenho e arte dos nossos artistas e produtores culturais, estes gestores públicos optam pela política do “mais do mesmo”, ampliando o fosso das desigualdades em todos os níveis – social, político, econômico e cultural – deixando como legado de seus mandatos uma população cada vez mais empobrecida, carente de valores identitários e destituída da própria dignidade humana.
Estas práticas vêm causando, ao longo dos anos, um verdadeiro festival de evasão de divisas a cada grande evento que é realizado em terras maranhenses e prejuízos irreparáveis para os habitantes das nossas 217 cidades, sem exceção. Vejam o exemplo da programação montada para as comemorações dos 200 Anos da cidade de Grajaú, e compare o volume de recursos investidos na contratação de bandas e artistas de outras paragens em detrimento dos produtores de cultura da região.
As grandes festas populares dos nossos municípios e até mesmo as datas cívicas e religiosas se transformaram hoje num momento de sangria desatada das respectivas economias, com a contratação milionária da mão de obra artística e cultural de outros estados, abrindo um espaço propício para a lavanderia de recursos públicos e privados de origem quase sempre escabrosa.
Na contramão do rumo para onde aponta a pesquisa científica da nossa amiga Ana Carla Fonseca, caminhamos para uma encruzilhada que já começa a esboçar sinais de um esgotamento, que bem poderia ser abreviado por uma intervenção mais enérgica e institucional do Ministério Público, se cumprisse a contento o papel que lhe confere a Constituição Federal.
Só para termos uma idéia do ralo de recursos públicos que se tornaram esses ditos eventos, basta saber que até hoje não temos nenhum estudo técnico ou pesquisa desenvolvida por órgão governamental, acadêmico ou mesmo privado, que estabeleça a mínima relação custo/benefício de cada real aplicado nestas festas populares com resultados positivos para as cidades, tais como: taxa de ocupação hoteleira, número de empregos formais e informais gerados durante o período, contratação de serviços técnicos e de produção cultural locais, direitos autorais arrecadados, equipamentos alugados, energia consumida, etc.
Governos baianos e pernambucanos desenvolveram de há muito tempo parcerias com órgãos de pesquisas de suas respectivas universidades e hoje possuem um controle de dados que lhes permitem planejar investimentos qualitativos e quantitativos dos recursos públicos, de forma adequada para o desenvolvimento criativo de seus respectivos estados e cidades.
Com conhecimento de causa, e sem nenhum medo de causar constrangimento a quem quer que seja, este é o quadro generalizado que temos dos investimentos culturais em nossas cidades, tanto do ponto de vista público quanto privado; incentivando-as a se tornarem, a cada dia que passa, menos criativas e exportadoras de recursos cada vez mais escassos, que bem poderiam alavancar os seus respectivos potenciais criativos.
 
 

Joãozinho Ribeiro
poeta/compositor

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