domingo, 7 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: JOHNNY ROCK BLUES, O HOMEM QUE MOLDAVA SONHOS

Bacabal tem dessas coisas que só acontecem em cidades banhadas por rios de memória. De vez em quando nasce alguém que parece ter vindo de outro lugar, não por ser estranho ao povo, mas por carregar dentro de si uma centelha rara, dessas que iluminam caminhos e deixam rastros difíceis de apagar.

Foi assim com Ejoão Martins Ferreira.

Mas poucos o conheciam por esse nome. Para a maioria, ele era Johnny Rock Blues. Um nome que parecia música, liberdade e estrada ao mesmo tempo. Um nome que cabia perfeitamente naquele homem que transformava tudo o que tocava em arte.

Dizem que alguns artistas aprendem a criar. Johnny não. Johnny nasceu criando.

Ainda menino, quando outras crianças rabiscavam o chão com gravetos, ele já desenhava mundos inteiros. Seus traços possuíam a delicadeza dos que enxergam o invisível. O papel era pequeno demais para a imaginação que carregava. Havia algo mais a ser conquistado.

Vieram então as tintas. Deram cores a sua vida.

E as telas. Onde projetava  os seus sonhos.

E os primeiros olhares de admiração.

Certa vez foi convidado para expor seus trabalhos em uma feira de artesanato. Levou suas obras sem grandes pretensões, como quem leva filhos para conhecer o mundo. Ao final do evento, todas as telas haviam sido vendidas.

Todas.

Talvez naquele dia ele tenha compreendido que sua arte não lhe pertencia mais. Pertencia ao mundo. E para um artista admitir sua grandeza ´r comprender que não era uma pessoa comum.

Mas Johnny era daqueles espíritos inquietos que não se acomodam em um único horizonte.

Se a pintura lhe servia como linguagem, a escultura tornou-se oração.

A madeira ganhou alma.

O isopor ganhou movimento.

A argila ganhou respiração. Era como se soprasse nas suas esculturas o fóligo da vida.

Das barrancas do Mearim surgia o barro que suas mãos transformavam em santos, anjos, pescadores, mães, crianças, pecadores e sonhadores. Não se sabia ao certo onde terminava a matéria e começava o artista.

Em alguns momentos, parecia que a argila se confundia com o próprio corpo de Johnny.

Era como se ele também tivesse sido moldado pelas águas e pela terra de Bacabal.

Mas limitar Johnny Rock Blues às artes plásticas seria uma injustiça.

Ele era desenhista.

Pintor.

Escultor.

Artista plástico.

Cronista.

Poeta.

Músico.

Compositor.

Cantor.

Ator de cinema.

Um verdadeiro artesão de sensibilidades.

Enquanto muitos escolhem uma única estrada, Johnny caminhava por várias ao mesmo tempo, sem jamais perder o rumo da beleza.

Havia nele algo dos antigos alquimistas.

Transformava barro em emoção.

Palavras em memória.

Notas musicais em sentimento.

Silêncios em poesia.

Por isso sua partida deixou um vazio difícil de explicar.

Algumas pessoas morrem e deixam saudade. Outras deixam obras.

Johnny deixou universos.

Suas esculturas continuam falando.

Seus textos continuam respirando.

Suas canções continuam ecoando.

Sua arte continua caminhando pelas ruas da cidade onde nasceu. Inspirando as anáforas dos poetas distraídos no fim de tarde sob o Mearim.

Talvez os gregos antigos o chamassem de semideus. Virtudes e talento para isso tinha de sobra.

Não por possuir poderes sobrenaturais, mas porque parecia conversar com a própria criação.

Hoje, quando alguém observa uma de suas obras, escuta uma de suas músicas ou encontra um de seus escritos, percebe que Johnny Rock Blues nunca partiu completamente.

Artistas assim não desaparecem. Transformam-se em permanência.

Viram rio.

Viram memória.

Encantam-se no Mearim

Viram lenda.

E Bacabal, que tantas vezes serviu de inspiração para suas mãos mágicas, guarda agora a honra de ter sido o berço de um dos seus mais extraordinários criadores.

Johnny Rock Blues foi um homem.

Mas sua arte continua sendo infinita.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

3 comentários:

  1. Deus está recebendo um grande artista.
    Ejoão recriou com sabedoria as belezas de Deus.
    Descanse em paz meu amigo.

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  2. Um artista nunca morre ele se eterniza em suas obras.
    Ejoão é um desses que estarão sempre na nossa memória.
    Conheci Ejoão em 1990 e a partir daí comecei a admirar o seu poder criativo, recriava a realidade da vida de forma maravilhosa.
    Tive a felicidade de ser presenteada, por ele, com um Cristo em madeira,
    que me acompanha ao longo de 36 anos e tem um lugar especial em minha casa.
    Amigo Ejoão sei que estás ao lado do Deus.
    Descanse em Paz🙏

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