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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

CRÔNICA DO DIA: Um homem de cor

 

Desculpa. Escrevo porque foi toda uma vida de agradável solidão, por isso te provoco a mim entender...  Hoje acordei desconfiado de mim. Não é raro. Há dias em que me observo como personagem mal explicado, desses que entram na história pela porta dos fundos e ainda assim insistem em permanecer. Escrevo para organizar esse incômodo, não para resolvê-lo. A escrita nunca resolveu nada; apenas tornou o caos mais elegante. O espelho é um juiz indiscreto e, pior, costuma absolver o que a sociedade condena e condenar o que ela absolve.

Nasci com a vida estreita. Não de ideias, que essas sempre me pareceram largas como uma avenida ainda por abrir, mas de circunstâncias. Fui menino de morro, de chão irregular, neto de quem carregou ferros na carne e a liberdade nos bolsos furados. A escola me chegou aos poucos, como chega a água a quem aprende a cavar cisterna. Aprendi cedo que as palavras são atalhos. Quando a porta não abre, a frase escorre por baixo.

A epilepsia veio como um relógio defeituoso. Nunca avisa a hora exata, mas cobra o preço do atraso. Em cada crise, uma pequena morte privada, um susto doméstico, uma vergonha pública. Aprendi a sentar-me no banco da praça e observar a vida passar como quem toma notas para um livro que ainda não sabe se escreverá. Talvez daí venha minha mania de narrar a mim mesmo. Há quem me ache frio. Enganam-se. Apenas descobri que a ironia é uma forma educada de chorar.

As mesmas pessoas que fizeram de tudo para apagar minha verdadeira identidade, diziam que sou um gênio da Literatura. Vejo-me como gênio? Às vezes, sim. Em outras, como um burocrata da frase. Mas quando me vejo grande, não é por vaidade. É por defesa. O mundo gosta de diminuir aquilo que não consegue enquadrar. Precisei afirmar minha estatura para não caber no rótulo que me preparavam. Há um prazer secreto em saber-se capaz de mover ideias como quem move peças num tabuleiro invisível. Se sou gênio, é porque sobrevivi ao método paciente de me tornarem pequeno.

Sou um homem de cor e isto era visto como um defeito. Sou consciente que fui politicamente tímido demais. Digo isso aqui, neste papel íntimo, porque o papel não me interrompe. Na vida, calei muitas vezes. Não por ignorar o açoite, mas por saber que há chicotes que mudam de nome quando entram nos salões. O sistema que me cercava preferia que eu fosse discreto, quase transparente. Denunciei quando pude, insinuei quando convinha, sorri quando a denúncia aberta me fecharia a porta. A escravidão me atravessou como atravessa o país inteiro. Não precisei gritar sempre para provar que sangrava.

Escrevi sobre defuntos que falam, não porque os mortos sejam mais eloquentes, mas porque os vivos mentem com mais convicção. Fiz um narrador que se confessa sem remorso, e nisso confessei um pouco de mim. Inventei ciúmes que roem o casamento como cupim de biblioteca, porque conheço o gosto amargo da suspeita e o prazer indecente de observar o outro tropeçar na própria vaidade. Quem me lê atento percebe que não absolvo ninguém. Nem a mim.

Carolina foi meu melhor poema.  Meu parágrafo mais bem-acabado. O grande amor da minha  enigmática vida.  Em dias de crise, basta lembrar-lhe o gesto simples de arrumar a casa para que a desordem do mundo se torne administrável. Amá-la foi um exercício de precisão. Nada de arroubos desnecessários, apenas a constância de quem sabe que o afeto se prova no cotidiano. Se escrevo com economia, é porque aprendi com ela que o essencial não pede adjetivos.

Nunca falei da minha pele nos livros. Não por vergonha, mas por estratégia. Sabia que me leriam menos se me vissem mais. Preferi que a frase chegasse antes do retrato. Ainda assim, mexeram no retrato. Clarearam-me a face, alisaram-me o destino, adulteram-me a certidão de óbito como quem revisa um texto para agradar ao editor. Branco, escreveram. Branco, como se a genialidade precisasse de tinta específica para circular nos salões. Descobri tarde que o papel também pode ser cúmplice.

Há imagens minhas que não reconheço. Parecem parentes distantes que herdaram o sobrenome e perderam o sangue. O embranquecimento foi um acordo silencioso. Para que minha obra fosse aceita, era preciso que eu fosse menos eu. Aceitei? Em parte. Resisti? Também. A literatura é uma arte de sobrevivência. Cada frase minha carrega um desvio, um riso enviesado, uma resposta que parece conversa e é recusa.

Quando a crise existencial me visita, penso se valeria a pena ter sido mais explícito. Se deveria ter gritado nomes, quebrado pratos, incendiado salas. Em seguida, lembro que o fogo ilumina pouco e consome rápido. Preferi a brasa. Ela dura mais, esquenta aos poucos e, quando percebida, já deixou marca.

 Às vezes sinto que converso com um leitores e personagens que ainda não nasceram. Outras, com um país que finge não se reconhecer no espelho. Não me peçam confissões diretas. Dou-as por metáfora. Não me cobrem heroísmo. Entrego lucidez. Se há algo de mágico nisso tudo, não é feitiço. É método.

Continuo escrevendo porque é o único modo que encontrei de permanecer inteiro num país que insiste em fragmentar seus próprios escritores. Se me tornei enigma, foi por sobrevivência. Se me fiz silêncio, foi por estratégia. No alto da rua onde moro, observo a cidade com olhos atentos e ironia afiada, mexendo palavras como quem prepara feitiços discretos. Alguns dizem que faço magia. Não os contradigo. Afinal, sempre foi mais fácil chamar de bruxaria aquilo que assusta no Cosme Velho.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Tutor da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil

domingo, 27 de julho de 2025

CRÔNICA DO DIA: Julho das Pretas

 

A lona branca tremulava com o vento quente da tarde. O sol, feito artista ancestral, dourava a praça como quem reconhece o ouro que ali se reunia: mulheres negras em roda, em palavra, em permanência.

Sob o mastro do microfone, as cadeiras de plástico iam se preenchendo aos poucos. Não era um evento. Era um chamado. Era Julho das Pretas.

Ana chegou contrariada, puxada pela avó, Dalva. Os fones ainda pendiam do pescoço, mas algo naquela atmosfera , talvez o tambor, talvez as vozes firmes , a fez parar. O que acontecia ali arrepiava a pele como quem chama pelo sangue.

A primeira a falar foi Tainá, militante magra de olhos ardentes. Trazia no peito a inscrição da sua urgência:

"Nem recatada, nem do lar. De luta."

- Irmãs  - Disse ela, com voz de aço temperado em afeto  - Nossa existência sempre foi resistência, mas queremos mais. Queremos o direito ao descanso, à arte, ao afeto. Não apenas sobreviver. Queremos o bem viver. Se Tereza de Benguela, em pleno século XVIII, comandou um quilombo e um povo com coragem, não há nada que não possamos sonhar. Ela não apenas resistiu. Ela governou.

O nome de Tereza percorreu o espaço como uma brisa densa, espiritual.

No meio da plateia, uma senhora ergueu a mão. Usava turbante azul e tinha os olhos fundos como o mar de Ilha do Amor. Era professora Ivone, aposentada da rede pública, mas eternamente mestra.

 - O bem viver... começa quando deixamos de ser rodapé. Quando uma menina negra lê um livro e vê a si mesma como heroína. Quando Dandara dos Palmares não é só "a esposa de Zumbi", mas guerreira, estrategista, mulher que lutou até o fim. Reparação também é isso: reescrever o Brasil com a nossa tinta.

Silêncio. Não o silêncio do desinteresse, mas o da escuta profunda.

Ana, até então quieta, virou-se para a avó com uma dúvida que soava quase como uma dor:

- Vó... por que a senhora nunca me contou essas coisas?

Dalva sorriu com ternura, mas seus olhos tinham o peso do tempo:

-  Porque a minha geração aprendeu a correr primeiro. Falar depois. Mas hoje... hoje é tempo de ensinar a falar primeiro. Correr, só se for por gosto. Ou por liberdade.

No palco, subia agora Rosa. Turbante vermelho, voz rouca, corpo feito de arte.

- Quando pinto, minhas cores são heranças. Quando danço, Dandara dança comigo. Quando canto, Tereza me sopra palavra. O que fazemos aqui hoje não é homenagem: é continuidade.

Ela dedilhou um berimbau e o som ancestral atravessou a praça como um rio de memória:

“Pretas de julho, de janeiro, de sempre.

Se o mundo nos feriu com a história,

nós o curamos com memória.”

Ana gravou o poema no celular. Mais do que isso, gravou dentro de si. Gravou no corpo, no ouvido e na parte mais funda da alma.

Na volta pra casa, sem resistência, perguntou baixinho:

- Vó, no ano que vem... posso falar no palco?

Dalva apertou sua mão como quem passa um bastão invisível ,  uma chama antiga, um segredo que já não precisa se esconder:

- Pode, Ana. E deve. Porque julho é teu. E teu é o tempo de tudo mudar.

JOSÉ CASANOVA 

Professor, Jornalista e Escritor Membro da 

Academia Bacabalense de Letras 

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

Tutor da Academia Marahense de Letras Infantojuvenil 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Governo e plataformas de mobilidade fazem acordo para combater racismo


O Ministério da Igualdade Racial assinou, nesta sexta-feira (17), acordo de cooperação técnica com a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), entidade que reúne as principais plataformas de mobilidade e tecnologia aplicada, como Uber, 99, Ifood, Lalamove, Zé Delivery e Ambev.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, explicou que a ideia do acordo é utilizar as ferramentas de comunicação dos aplicativos para promover campanhas de conscientização e combate ao racismo. “São milhões de usuários desses aplicativos no país. Se pudermos chegar a eles com mensagens, conteúdos educacionais e orientações sobre como denunciar, será uma grande contribuição”, disse.

Por iniciativa do ministério, o diálogo com a Amobitec prevê, ainda, uma reunião com os parceiros dos aplicativos para escutar as demandas deles sobre melhorias nas condições de trabalho, além de formas de garantir mais dignidade para esses trabalhadores.


“Para nós, é motivo de orgulho cooperar com o Ministério da Igualdade Racial, uma vez que infelizmente, o racismo e a intolerância religiosa ainda existem no Brasil. Acreditamos que essa campanha terá um alcance grande, já que hoje temos milhões de usuários, motoristas e entregadores nos aplicativos”, afirmou o diretor-executivo da Amobitec, André Porto.

A campanha para conscientização, combate e superação ao racismo será realizada em todo o território nacional, focando tanto nos motoristas e entregadores parceiros quanto nos usuários desses aplicativos.

Conforme o pactuado no acordo, o ministério terá a possibilidade de disponibilizar informações para a população sobre como enfrentar o racismo e suas formas de manifestação. Além disso, a pasta poderá informar sobre as políticas públicas de combate e superação ao preconceito e discriminação racial. Já a Amobitec, por outro lado, se compromete a promover, junto às empresas associadas, a disponibilização de espaço de divulgação para as campanhas e os conteúdos produzidos pelo ministério em seus aplicativos e demais canais de comunicação. A ideia é que o conteúdo produzido possa alcançar um público mais amplo.

O acordo prevê, ainda, que o conteúdo produzido será enviado por push, que aparecem nos aparelhos telefônicos como notificações do aplicativo, ou por e-mail.

FONTE: Agência Brasil

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA - RACISMO: a insistência da ignorância

 

No estacionamento movimentado de um supermercado famoso na Terra da Bacaba, onde as cores e os sons dos atabaques africanos da cidade se misturam, um episódio revelador de nossa realidade se desenrola, como um retrato em negativo de nossa sociedade. Uma professora universitária, negra, chamada Núbia Reis, aguarda pacientemente ao lado de seu carro. Seus pensamentos, talvez mergulhados em questões acadêmicas, são interrompidos por uma voz estridente.

Uma mulher branca, de aparência distinta, se aproxima. Tem todos os traços físicos de uma cigana, talvez com “olhar obliquo e dissimulado”, imortalizada na obra de Machado de Assis. Seus gestos carregam a certeza de quem nunca foi questionado. Ela insiste que a professora cobre panelas, que poderia cobrar no cartão de crédito. A professora, educada e firme, explica que não poderia comprar no momento, apenas aguardava sair no seu  carro.

A mulher branca não aceita a resposta. Sua insistência se transforma em agressão verbal. Ela chama a professora de "negra", com um tom pejorativo que carrega séculos de discriminação. Ela a chama de "fedida", numa tentativa vil de associar a negritude a algo sujo e indesejável. E, por fim, ela a chama de "macaca", utilizando o termo racista mais grotesco, herança de uma época em que os negros eram tratados como animais.

O que sente uma pessoa vítima de racismo? Só que  sofre na pele  e no coração o sabe. Núbia é de fato uma bela mulher negra e empoderada, representa muito bem as mulheres quilombolas de São Sebastião dos Pretos, Piratininga, Catucá  e tantas outras comunidades remanentes de quilombo reconhecidas ou não  neste país. Núbia traz na veias o sangue de Dandara, a força de Zumbi dos Palmares, a energia do tambor de crioula de dona  Maria de Geraldo, patrimônio imaterial de nossa cultura,  que rufa na madrugada espetando o mal olhado do preconceito e da ignorância.

Esse episódio, embora lamentável, não é isolado. Ele se repete pelas ruas do Brasil a fora. É o reflexo do racismo estrutural que permeia nossa sociedade nas escolas, repartições públicas e privadas e até nas instituições que deveriam promover nossa proteção e  garantir nossos direitos. Um racismo que se disfarça em pequenas atitudes do cotidiano, mas que tem raízes profundas em nossa história.

No Brasil, um país construído sobre as costas dos ancestrais escravizados, o racismo se manifesta de diversas formas. As comunidades quilombolas , que lutam pela preservação de sua cultura e identidade, muitas vezes são em sua maioria marginalizadas e esquecidas. Ele está presente na educação, onde o racismo estrutural se manifesta na falta de representatividade e nas barreiras enfrentadas pelos estudantes negros. É urgente e necessário a formação de professores antirracistas para desmitificar a tez da educação.

O racismo também se faz presente no futebol, nas artes, nas relações de trabalho, e, de forma ainda mais cruel, na violência contra a mulher negra. Mulheres como Núbia que são vítimas de um sistema que as coloca em uma posição de vulnerabilidade, onde sua cor de pele as torna alvo de preconceito e discriminação.

Diante desse cenário, iniciativas como a União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro) se tornam ainda mais importantes. Essa entidade luta incansavelmente contra o racismo, buscando promover a igualdade e a justiça social.  Equidade de oportunidade para todos através de políticas publicas que garantam os direitos humanos e fortaleçam a democracia é fundamental na construção de uma nação livre, igualitária e soberana.

As consequências do racismo são devastadoras. Ele gera traumas, perpetua desigualdades e limita o potencial de toda uma população. Por isso, é fundamental que cada um de nós se engaje nessa luta. Precisamos reconhecer nossos privilégios, combater os estereótipos e construir uma sociedade mais justa e inclusiva para todos. Enquanto perdurar o preconceito, não podemos falar em consciência humana, mas fortalecer a consciência negra independente do percentual de melanina que temos em nossos corpos

Quanto a professora Núbia, agora mais do que nunca, precisa de nossa solidariedade e apoio, a mulher branca que a agrediu verbalmente precisa de educação, empatia e consciência de seus próprios preconceitos. Pois só assim poderemos, juntos, desconstruir as estruturas do racismo e construir um futuro onde a cor da pele não defina o valor de uma pessoa.

Ubuntu!

 Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor membro da 
Academia Bacabalense de Letras

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Holiday , o Capitão do Mato - Vanessa Oliveira Professora do ABC


         
Está circulando um vídeo na internet de um jovem negro Fernando Holiday criticando as cotas, ele é um dos participantes do pró-impeachment que atuam de forma assídua a favor do sistema capitalista. É incrível a falta de conhecimento histórico e legislativo dele. Com falas bem rasas e com muitas ofensas, e até incitações machistas, ele alega que negro não precisa de cota, pois tem que conseguir as vagas na faculdade por mérito.
           Vamos lá, será que ele sabe que as ações afirmativas são estabelecidas não só no Brasil, mas em muitos países para reparação histórica?
          Um dos primeiros países que oficializou essa politica pública foi os Estados Unidos na década de 60 do século XX, para combater as diferenças entre brancos e negros. Elas são instituídas depois de uma análise e leitura do contexto histórico e social vivido do país, e assim que comprovada tais desigualdades e suas consequências na sociedade , devem gerar ações para sua reparação, essas politicas possuem prazo de validade e podem ser reavaliadas , ou seja, assim que a desigualdade não existir mais, as ações também perdem validade.
           Sabemos que dentro desse sistema capitalista, tais reparações ainda são mínimas e precisam ser de fato acompanhadas para que realmente aconteçam, não é de forma alguma esse presente apresentado pelo Holiday, aliais o vestibular como sabemos parte dos critérios meritocratas onde a vaga na universidade é daquele que consegue a maior pontuação nas provas.
           Como competir em situações desiguais? A pobreza aqui no Brasil tem cor, e mora em sua maioria em zonas periféricas onde o acesso à escola existe, porém as condições de estudos são precárias, faltam professores, materiais didáticos, acompanhamento pedagógico, o aluno muitas vezes precisa estudar no período noturno, pois trabalhar durante o dia. Enquanto a burguesia, maioria branca, tem escola privada de qualidade, estuda em tempo integral, não passa pelos apertos econômicos e sociais. Será que apenas o esforço individual é suficiente? Será que a pontuação que a ação afirmativa de cotas atribuiu ao negro, consegue equiparar todo o despreparo que os negros carregam desde seu inicio de vida escolar?
           É óbvio que não, o número de negros nas universidades ainda é bem pequeno comparado aos número de brancos. Após a Abolição dos escravos, os negros ditos “livres” foram esmagados pelo processo Imigratório, e encurralados a se entregarem aos piores postos de trabalho. O estudo nessas condições muitas vezes não era priorizado, pois era necessário trabalhar para sobreviver.   E esse jugo pesa sobre muitas famílias até hoje.
           Ao falar que o negro não precisa de cotas para entrar na universidade, por que isso o inferioriza, expressam a falta de compreensão do contexto histórico do período colonial do Brasil, onde os brancos tiveram oportunidades privilegiadas para conseguir ascensão social, e o negro não teve os mesmos privilégios.
           Holiday é o tipo de cara ideal para reforçar as ideologias da direita, onde o mérito está acima de todas as coisas, suas competências só dependem do seu esforço individual, práticas bem neoliberais, onde vence quem é o melhor.
          É nítido que ele reproduz um texto pronto, e que estamos cansados de ouvir, e infelizmente muitos negros ainda concordam por estarem inseridos nesse sistema, que coloca o problema em nível individual, e não como um problema social gerado pelas desigualdades que o capitalismo produz.
          Eu como mulher negra repudio, Holiday e essa posição pró-impeachment , pois seu discurso favorece apenas a Casa Grande, e ele como bom Capitão do Mato está defendendo os interesses do seu patrão. O impeachment de forma alguma irá favorecer as mulheres, estudantes, trabalhadores negros, ao contrário a burguesia com seu discurso saudosista quer mesmo voltar aos tempos da escravidão, vejamos a enorme quantidade de projetos de leis na Câmara e no Senado que estão sendo votados e que desfavorecem os direitos dos trabalhadores .
           Nós como esquerda negra devemos nos posicionar a frente nesta luta, seguindo sim exemplos de resistência como do Zumbi dos Palmares, pois práticas racistas só terão fim quando o capitalismo for abaixo. Essa falácia de democracia racial só existe para quem ainda não percebeu sua cor, e as desigualdades que a cercam. Devemos construir cada vez mais um pensamento crítico e libertador para nos livrar desses grilhões que ainda nos perturbam diariamente, é Holiday é um desses grilhões.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Diga não ao Racismo junto com a ONU e a Fundação Palmares


Divulgação/ONU
Daiane Souza/Fundação Palmares
Racismo, xenofobia e intolerância são problemas comuns em todas as sociedades. Para tratar da questão a Organização das Nações Unidas (ONU) torna pública a campanha Luta contra o racismo! que trata da percepção do racismo por meio dos estereótipos desenvolvidos nos círculos sociais.
Como instrumento de reflexão, a Organização desenvolveu o site www.un.org/en/letsfightracism que tem por objetivo proporcionar ao público a compreenção de seu papel no combate ao racismo. A campanha expõe os rostos de oito pessoas de diferentes raças acompanhados da pergunta O que você vê?. Entre as opções de respostas estão, além de profissões e situações sociais, os estereótipos que tanto perseguem determinados grupos.
Por exemplo, as opções de resposta associadas à foto de um garoto negro são modelo, estudante e líder de gang. Em outra situação, um rapaz pode ser visto como um doutor, um taxista ou um ativista humanitário, enquanto um homem da terceira idade pode ser comparado a um fundamentalista, a um professor ou a um refugiado.
Eloi Ferreira de Araujo, presidente da Palmares, acredita na importância dessa campanha, que surge no Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, o que reafirma o compromisso na luta contra o racismo. “No Brasil, na semana em que comemoramos um ano de vigência do Estatuto da Igualdade Racial, só temos que parabenizar esta iniciativa, pois promover a reflexão por meio da campanha é um importante passo, uma vez que torna os observadores críticos de si próprios. A pessoa percebe que a visão que tem de outras pessoas, é muitas vezes condicionada por estereótipos que as impedem de ver além”, esclarece.
Preconceito velado – Apesar de nem sempre ser admitido no Brasil, o racismo é comprovado pelos estereótipos que vitimizam diariamente a negros e as minorias como homossexuais, pessoas com necessidades especiais e estrangeiros. Exemplos dessa realidade foram detectados recentemente em ferramentas de comunicação como propagandas e até campanhas institucionais.
Na última semana dezenas de cartilhas sobre segurança pública, produzidas pela Polícia Militar do Distrito Federal foram recolhidas após um pedido do presidente da Câmara dos Deputados, Marcos Maia. O material tinha na sessão Como agir em caso de assalto, uma ilustração onde dois homens dotados de bonés e armas assaltavam a um homem branco, trajando terno e com uma pasta executiva.
No mês de agosto, a empresa de cosméticos Nivea se desculpou com o público pela propaganda Re-Civilize Yourself. A peça publicitária que foi veiculada apenas uma vez mostrava um homem negro que, ao utilizar os produtos da marca, teria se tornado civilizado. Nos Estados Unidos a propaganda gerou enorme polêmica, pois além do teor da campanha, houve ainda o agravante da criação de uma peça semelhante pela marca, porém com um homem branco e sem menção à sua civilidade.
Em outra situação, a última campanha da Caixa Econômica Federal foi duramente criticada por um erro grave. Em vídeo comemorativo de seus 150 anos a instituição contou a história de um famoso correntista, o escritor Machado de Assis, afrodescendente, que nas imagens aparecia representado por um homem branco. Após protestos do movimento negro a Caixa suspendeu a veiculação da campanha e em nota oficial solicitou desculpas a população negra.
Combate ao racismo – A fim de evitar distorções sobre as condições de vida das pessoas tendo por condição a sua raça ou cultura, como aconteceu nos casos citados, a ONU busca promover o debate quanto a questão da racialidade no cotidiano. Segundo informações da campanha Luta contra o racismo!, a proposta é que a mobilização tenha início nas pequenas comunidades e cresça para a grande sociedade.
Orientar comunidades contra o racismo, organizar grupos em defesa dos direitos das minorias e recrutar voluntários para campanhas são algumas das sugestões da Organização para a participação mundial no combate ao racismo. Para isso, ela oferece também, por meio do site, material de apoio para campanhas virtuais, acesso a livros escritos por autores de diversas raças e etnias, além de biografias. No espaço, os visitantes podem ainda partilhar as experiências que tiveram em suas lutas.
FONTE: Fundação Palmares

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estudo aponta desigualdades raciais no atendimento público

O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 foi debatido em seminário promovido na última quarta-feira (14), pelas comissões de Legislação Participativa e de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. O documento, elaborado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que a população negra e parda tem mais dificuldades em acessar o Sistema Único de Saúde (SUS) que a branca e, quando consegue atendimento, é negligenciada.
As pesquisas mostram ainda que os negros e pardos estão mais vulneráveis em relação à segurança alimentar, possuem maior defasagem escolar e recebem menor número de aposentadorias e pensões da Previdência Social. Em relação ao acesso à Justiça, o relatório revela que a maioria dos processos por crime de racismo julgados nos Tribunais Regionais de Trabalho (TRTs) é vencida pelo réu da ação e não pela vítima.
De acordo com o coordenador da equipe de elaboração do relatório, Marcelo Paixão, falta vontade dos atores políticos de entender que o tema não poderá ser empurrado com a barriga indefinidamente.
Para o deputado Paulo Pimenta, um dos proponentes do seminário, parte da dificuldade em avançar nos temas de igualdade racial é motivada pelo perfil do Congresso Nacional. “Todos sabemos que esta Casa é, por natureza, muito conservadora e resiste muito a pautar determinadas discussões, provocar determinas reflexões que revelem com mais nitidez as contradições deste País”, disse.
Participaram dos debates Rebecca Reichmann Tavares, da ONU Mulheres para o Brasil e Cone Sul; Sônia Fleury, da Fundação Getúlio Vargas; Jurema Werneck, coordenadora da ONG Criola e o secretário-executivo da Seppir, Mário Lisboa Theodoro.
Assassinatos

Entre os dados apresentados pelo relatório, está um estudo das principais causas de mortalidade entre a população negra. O documento revela que, nos anos 2006 e 2007, das 96 mil pessoas assassinadas no Brasil, 63% eram pretas ou pardas. Em 2007, o número de assassinatos entre as mulheres negras era 41,3% superior ao observado entre as mulheres brancas.
O relatório também traz informações sobre os índices de mortalidade materna no País e aponta que, em 2007, a cada 100 mil nascidos vivos, 55 mulheres morreram em decorrência de problemas relacionados à maternidade. As mulheres negras representavam 59% desse total.
O estudo ainda revela que as negras estão em piores condições quanto à realização de exames preventivos e de pré-natal. Entre as mães brancas, 70,1% realizaram sete ou mais consultas, enquanto entre as negras o número é de 42,6%. “Não quer dizer que as coisas estejam às mil maravilhas para os brancos, mas os pretos e pardos são os mais atingidos”, disse Marcelo Paixão.
Avanços

A pesquisa também mostra avanços em relação à escolaridade da população negra. Em 20 anos (1988 – 2008), a média de anos de estudos de pretos e pardos, com idade superior a 15 anos, aumentou de 3,6 para 6,5 anos. Em relação ao acesso ao ensino superior, os números são mais expressivos: entre as mulheres negras passou de 4,1% para 20% e entre os homens negros, de 3,1% para 13%.
Segundo o documento, os dados positivos são frutos da criação de políticas públicas de promoção da igualdade racial. O relatório cita a Lei 10.639/03, que inclui o estudo da História da África, dos africanos, a luta dos negros no Brasil e a cultura negra brasileira no currículo oficial da rede de ensino brasileira, como uma das principais medidas para “enfrentar o tema das relações raciais dentro do espaço escolar”.
O trabalho mostra, no entanto, que em 2008 quase a metade das crianças afrodescendentes de 6 a 10 anos estava fora da série adequada, contra 40,4% das brancas. Na faixa de 11 a 14 anos, o porcentual de pretos e pardos atrasados subia para 62,3%.
Esse resultado contrasta com avanços nos últimos 20 anos. A média de anos de estudo de afrodescendentes passou de 3,6 anos para 6,5 entre 1988 e 2008, e a taxa de crianças pretas e pardas na escola chegou a 97,7%. Mesmo assim, o avanço entre negros e pardos foi menor.
Com 292 páginas, o trabalho é focado nas consequências da Constituição de 1988 e seus desdobramentos para os afrodescendentes. Para produzir o texto, os pesquisadores recorreram a bases de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Ministérios da Saúde e da Educação e do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros.
Fundação PALMARES

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A cor da pele ainda distancia os brasileiros, apesar de melhorias





Ter sido aluna de escola pública não fazia de Joyce Vieira de Castro Marra, 26 anos, uma minoria representativa dentro da universidade. O que mais tornava rara a presença da aluna de pedagogia na instituição federal que cursou era a cor da pele. Formada em 2008, quando 7,7% dos negros alcançavam o ensino superior no Brasil, a atual professora representa um avanço nas políticas de igualdade racial no país. Isso porque 20 anos antes apenas 1,8% dos negros cursavam uma faculdade. Apesar do aumento no acesso à educação, a disparidade em relação aos brancos ainda assusta.

Essa é uma das conclusões de um estudo apresentado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Comissão de Legislação participativa da Câmara dos Deputados. Organizado em parceria com o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas (Laeser) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 analisa como garantias constitucionais, como educação, saúde e previdência social, têm chegado a negros e brancos no país. E alerta: a desigualdade no Brasil diminuiu, mas ainda continua grande.

"O país avançou muito na universalização do ensino, por exemplo, mas a educação ainda chega de forma diferente para brancos, pardos e negros", destaca a pesquisadora do Laeser Irene Rossetto. Ela usa dados para exemplificar a constatação. Em 1988, ano em que a Constituição Federal foi aprovada, 20% das crianças com 6 anos não frequentavam a escola. Essa taxa hoje é de apenas 6,4%. Analisando mais de perto o cenário, entretanto, é possível ver a diferença. Enquanto 4,8% das crianças brancas nessa faixa etária estão fora da escola, 7,5% das crianças pretas e pardas encontram-se nessa situação.

Mesmo entre os que têm acesso ao ensino há disparidades. Quando considerada a taxa de adequação, se o estudante está na série indicada para a sua idade, os negros continuam atrás. De uma forma geral, entre os jovens com 15 a 17 anos que deveriam estar no ensino médio, a taxa é de 34%. Se consideramos apenas os brancos, fica em 26,2%. No caso dos pretos e pardos, 20,1%.

Irene Rossetto destaca que os problemas atingem todas as etnias, mas alcançam de forma mais acentuada os negros. "A qualidade desse ensino é diferente. Até a estrutura e a segurança das escolas onde estudam (os negros) costumam ser inferiores", analisa. Segundo ela, é fundamental que sejam aplicadas políticas afirmativas para reduzir ainda mais as desigualdades. "É preciso levar em conta que os negros partem de posições iniciais muito diferentes devido à dívida histórica que carregam. É preciso ter políticas que garantam não apenas cotas de participação, mas uma mudança no olhar, para que passem a ser vistas as limitações específicas", defende.

Estar na universidade propiciou que Joyce tivesse essa nova perspectiva. Para ela, ter cursado a universidade garantiu não apenas uma profissão, mas o reconhecimento de sua raça. "Antes, eu achava que era morena. Foi na faculdade que tive contato com a desmistificação da beleza padrão", explica. Quanto a eventuais episódios de preconceito, a pedagoga não dramatiza. "Não gosto dessa coisa de mania de perseguição que alguns têm. Nunca fui impedida de entrar em algum lugar ou coisa do tipo. Mas a gente sente a discriminação de uma forma mais sutil", lembra. "Quando alguém perguntava onde eu estudava e eu dizia que era na Universidade de Brasília, as pessoas se assustavam e perguntavam como eu tinha conseguido."

Segundo Rebeca Tavares, representante da ONU Mulher, o relatório é um primeiro passo para diagnosticar a situação do país, mas ela afirma que a caminhada ainda é grande. "Sem o diagnóstico, é impossível propor políticas públicas que possam resolver o problema. Mas é preciso ser mais incisivo para acabar com o preconceito, ainda forte, persistente e universal", avalia.

Baseado na Magna Carta
Esta é a segunda edição do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil. Ele compila e analisa dados oficiais de órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O novo número analisou como a Constituição de 1988 influenciou a evolução das desigualdades, já que, do ponto de vista social, ela é considerada progressista. Um de seus princípios fundamentais é "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Em queda

As disparidades raciais têm diminuído no Brasil, mas continuam grandes, segundo documento divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU)
FONTE: Correio Braziliense

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Miss Universo 2011 é vítima de racismo nas redes sociais

Logo após ser eleita a Miss Universo 2011, na noite desta segunda-feira, a angolana Leila Lopes foi vítima de racismo nas redes sociais. Um comentário de um usuário do Facebook causou polêmica na internet. "Leila Lopes é a Miss Universo!  Conheci a preta mês passado e fez muito bem de ter prendido aquele cabelo de vassoura. Era a única elegante das 5 finalistas... todas com cara de brega. Ela não... parecia uma Barbie Black Label! HAHAHA Algo me diz que lutará pelas classes! Parabéns, macaca! :)", escreveu Marco Antonio Arcoverde Cals.
Outros usuários da rede social resolveram denunciar seu perfil. O internauta se explicou. "É gente... tão compartilhando isso aqui! MUITO OBRIGADO facebook por ter colocado meu mural ABERTO PRA PÚBLICO como default SEM ME CONSULTAR pra QQ MANÉ ler post meu fora de contexto. Mais uma vez: Quem eu ♥ eu chamo de MACACA. Independente de cor, credo, formação, local onde reside ou se gosta da novela "Fina Estampa". Quem não, recebe OUTROS NOMES. Quem me conhece sabe disso, correto macacas? PS> E SIM, o cabelo solto dela não é dos melhores. E daí? Do meu irmão tb não é! :)", escreveu Marco.

A usuária do Facebook Clarisse Miranda Gomes, que fez campanha para denunciar o perfil do rapaz, se manifestou após a resposta dele. "Não quero espalhar o ódio, nem que o rapaz (do comentário infeliz) seja agredido na rua (NUNCA NA VIDA!!!), só acho o comentário e as desculpas foram péssimas e que o respeito ao próximo esta acima de tudo!!! Eu não acho "carinhoso" ser chamado de viado, viadinho, gorda (o), caolha, macaca, cabelo de vassoura e vários outros nomes... #prontofalei. Quem não respeita o próximo, não merece respeito! E isso vale pra tudo e pra vida!" , escreveu.

Além de receber muitos elogios por sua beleza e ficar entre os assuntos mais comentados no Twitter, Leila Lopes também teve seu nome relacionado a comentários preconceituosos. "Primero Obama depois miss Angola, agora o que falta? Que Deus baixe do céu e seja um negro? Por favor..." escreveu um internauta.

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Chamada de "diamante negro" pela imprensa de seu país, a Miss Universo diz que não se abala com o preconceito. "Felizmente o racismo não me atinge. Acho que os racistas precisam procurar ajuda, não é normal em pleno século XXI ainda pensarem nessa forma", disse. "Devemos todos nos respeitar, independente da raça, do sexo e do meio social."

Leila Lopes quer usar sua fama e beleza para lutar por causas sociais como o combate a AIDS. "Me sinto orgulhosa. Não pela minha beleza, mas porque minha beleza vai ajudar a todos. Vou lutar contra a AIDS, porque este é o principal projeto em Angola".