domingo, 17 de março de 2024

CRÔNICA DO DIA: O legado de Diomar, o Pajé!

 

Em uma tarde ensolarada no Bairro Setúbal, em Bacabal, o poeta Paulo Campos visitava a casa de Diomar, conhecido carinhosamente como Pajé, um verdadeiro guardião da cultura maranhense. Sentados à sombra de uma mangueira frondosa, observavam o ensaio animado do bumba-meu-boi, com seus personagens coloridos dançando ao som dos tambores.

Paulo, com sua voz tranquila, que parecia carregar os segredos do mundo, iniciou a conversa:

_Pajé, meu amigo, tenho pensado muito nos mistérios da vida ultimamente. Como explicar a beleza efêmera dessas manifestações culturais, como o bumba-meu-boi, que alegram nossos corações, mas duram apenas um instante no tempo?

Pajé, com sua sabedoria simples e acolhedora, respondeu:

_Paulo, meu irmão de poesia, os grandes mistérios da vida estão justamente nesses momentos fugazes, onde a alegria e a tristeza se encontram, onde a vida e a morte dançam juntas, como os personagens do nosso boi. Cada batida do tambor, cada passo de dança, nos lembra que somos parte desse ciclo eterno. Catirina pra mim, representa todas as mulheres do bairro, o Cazumbá os encantos que às vezes falam comigo. Acredita Paulo?

O poeta refletiu por um momento, contemplando a dança dos brincantes, e então disse:

_É verdade, Pajé. Em cada batida do tambor, podemos ouvir a voz dos nossos antepassados, que nos ensinam a valorizar cada momento, cada encontro, cada festa. E quando chegar a nossa hora, como acredita o povo, seremos bem recebidos por Oxalá no reino de Aruanda, onde os tambores rufam de forma diferente, mas igualmente bela.

_ Vixe!!!...fiquei todo arrepiado Paulo. Quando eu morrer quero uma festa ,já disse Paulo, muito boi, reggae e carnaval..

Ambos sorriram. Assim, entre conversas e reflexões, Pajé e Paulo Campos compartilhavam não apenas palavras, mas também o profundo respeito pela vida e pela cultura que os unia, celebrando juntos os mistérios que tornam a existência tão fascinante.

A vida é uma grande mistério, que por vezes nos põe em labirintos com saída para  a morte. O tempo teima em dar uma natureza efêmera á vida que quando menos se espera se despede de nós. Com Diomar não foi diferente, ele desencarna deixando  órfã a comunidade que se despediu de um de seus maiores ícones culturais.  

O velório de Pajé foi o reflexo da vida que ele levou, animada e cheia de cores. Enquanto amigos e familiares se reuniam para se despedir, a comunidade se unia em uma celebração de sua vida. Na comunidade Setubal, com todas suas características de um Quilombo urbano um silêncio respeitoso pairava no ar, quebrado apenas pelo som suave dos tambores ao longe. Era o adeus a um grande vizinho. Sua partida deixou um vazio, não apenas na comunidade, mas em todo o coração do Maranhão.

Diomar era mais do que um produtor cultural talentoso; ele era um guardião da cultura maranhense, um defensor apaixonado das tradições e raízes que definem o povo daquela terra. Sua dedicação e amor eram evidentes em cada projeto que ele tocava, em cada evento que ele organizava. Ele não apenas preservava a cultura, ele a celebrava, trazendo vida e cor para as tradições que tanto amava.

Em suas mãos, o bumba-meu-boi dançava com mais energia, as quadrilhas juninas brilhavam com mais intensidade, e o carnaval ganhava um novo significado. Mas o legado de Diomar não se resumia apenas às festas e celebrações; ele também se estendia à culinária maranhense, onde sua paixão e habilidade culinária encantavam a todos que provavam suas iguarias.

Mas além de suas habilidades, era a generosidade e gentileza de Diomar que o tornavam verdadeiramente especial. Ele estava sempre pronto a compartilhar seu conhecimento, a ajudar aqueles que precisavam, a inspirar os mais jovens a seguirem seus passos. Sua presença era como um raio de sol, aquecendo os corações daqueles ao seu redor.

Enquanto a comunidade se despede de Diomar, o Pajé, é certo que seu legado viverá para sempre. Em cada batida de tambor, em cada dança de boi, em cada prato de arroz de cuxá, seu espírito estará presente, lembrando-nos da importância de preservar e celebrar nossa cultura.

 O sol se punha sobre o velório de Pajé.  Paulo Campos, o poeta, lembra o ultimo bate papo: E quando chegar a nossa hora, como acredita o povo, seremos bem recebidos por Oxalá nas terras de Aruanda, onde os tambores rufam de forma diferente, mas igualmente bela.”

Pajé, que sua alma seja recebida com alegria nas terras de Aruanda, onde seu amor pela cultura maranhense continuará a brilhar para sempre.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor membro da
Academia Bacabalense de Letras

 

 

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