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quarta-feira, 16 de julho de 2025

Outdoor de festa religiosa é alvo de intolerância em Bacabal e gera forte reação da comunidade de matriz africana

Um ato de intolerância religiosa ocorrido esta semana em Bacabal, cidade do interior do Maranhão, provocou forte indignação entre praticantes e lideranças das religiões de matriz africana. Um outdoor que divulgava uma festa religiosa da Tenda São Raimundo Nonato foi vandalizado — o painel, montado na Avenida João Alberto, uma das áreas mais nobres da cidade, teve sua lona rasgada na madrugada.

O cartaz anunciava uma celebração tradicional da casa de Umbanda Tenda São Raimundo Nonato. O ato foi prontamente classificado como crime de intolerância religiosa por integrantes da comunidade, que organizaram uma manifestação de repúdio na Praça da Família, nesta quarta-feira(16).

A mobilização foi liderada pela Associação dos Ubandistas de Bacabal , que tem a frente Mãe Jaqueline e contou com a presença de representantes de diversas casas de Umbanda da cidade e região. Dentre eles, destacou-se a presença do Pai Francisco de Folha Seca, conhecido como Babalorixar, vítima direta de ataques por sua atuação religiosa.

Lideranças se revezaram ao microfone durante o protesto, reafirmando a importância da liberdade religiosa e exigindo providências das autoridades. Rita de Cássia, representante da UNEGRO (União de Negras e Negros pela Igualdade), núcleo Bacabal, foi uma das vozes mais contundentes:

“Não podemos permitir que atos como esse passem impunes. Quando atacam um símbolo religioso nosso, atacam toda uma história de resistência, de cultura e de fé, foi um crime  de racismo religioso”, afirmou.

Também usou da palavra Mãe Angela, da Tenda São Raimundo Nonato, que emocionou o público ao denunciar publicamente o crime:

“Não é a primeira vez que tentam nos silenciar. Mas não vamos recuar. Seguiremos de pé, com nossos atabaques, nossos cânticos e nossa fé.”

O ato foi encerrado com o canto do Hino da Umbanda, entoado em coro por todos os presentes. Em seguida, uma roda de tambor foi formada como símbolo de união, resistência e ancestralidade.

O caso reacende o alerta sobre a crescente onda de intolerância religiosa no país, especialmente contra as religiões de matriz africana. Em nota, a Associação dos Ubandistas de Bacabal reiterou o compromisso com a luta por respeito, visibilidade e liberdade de culto, conclamando a população a se posicionar contra qualquer forma de preconceito.



















Se você presenciou ou foi vítima de intolerância religiosa, denuncie. O respeito à diversidade é um direito garantido pela Constituição Federal.

Da Redação do Diário do Mearim 





domingo, 6 de julho de 2025

CRÔNICA DO DIA: No Terreiro de Dona Sinhá

Na rua de paralelepípedo do bairro do Capim Alto, onde o cheiro de café coado se mistura com o perfume do manjericão, ergue-se um portão azul com uma estrela de cinco pontas entalhada na madeira. Atrás dele vive Dona Sinhá, 78 anos,coluna ereta,lenço branco, olhar de rio profundo,parteira de almas,benzedeira de corpo e palavra. 

O terreiro dela — chamado Tenda de Luz de Ogum Beira-Mar — começa onde terminam os muros da descrença. Todo sexta-feira à noite, antes que os sinos da igreja lá de cima toquem oito vezes, já se ouve o toque dos atabaques ecoando no breu, convocando os Orixás e espantando o preconceito com som.

Naquela gira, cada tambor conta uma história antiga, anterior à escravidão, anterior à dor. O toque de Ijexá sobe leve, como brisa de Iemanjá. O de Congo pulsa firme, como o passo de Xangô. Os filhos se alinham em branco, como quem vai pra guerra sem armas , só com fé.

Joãozinho, menino curioso de doze anos, costumava espiar do muro. A mãe, evangélica de carteirinha, proibia:

 - Esse povo é do demônio.

Ele não via nada além de flores, velas e abraços. Um dia, tomou coragem e entrou. Dona Sinhá olhou pra ele e disse:

— Saravá, meu filho. Seja bem-vindo. Aqui ninguém força nada. Mas ninguém sai ileso da luz.

Ele voltou na sexta seguinte. E no outra. E no outra.

Foi lá que conheceu Seu Zé Pelintra, malandro de chapéu branco e sapato engraxado, que falava em rimas e dava conselhos como quem serve um cafezinho forte: quente, direto e revigorante.

— Respeita teu caminho, moleque. O mundo já tá cheio de quem tenta apagar os rastros dos outros.

E conheceu também Maria Padilha, que cantava pontos com voz de trovão e cuidava das moças mal-amadas com banho de rosas vermelhas. E o velho Preto Velho, Pai Benedito, que chorava sem lágrimas e curava com a palma da mão e um galhinho de arruda.

A Umbanda ensinou Joãozinho sobre Orixás: Ogum, senhor da guerra justa; Oxum, dona das cachoeiras e dos sentimentos doces; Iansã, que comanda os ventos e não aceita injustiça calada.

Ensinou sobre obrigação: que a fé exige compromisso, não medo. E que acender uma vela pode ser tão forte quanto levantar uma bandeira.

Mas o que mais aprendeu foi que ser de Umbanda é ser de paz. Não é preciso gritar para defender a fé. Basta mantê-la acesa.

Num domingo, a mãe de Joãozinho foi procurá-lo no terreiro. Chegou de cara amarrada, mas saiu com os olhos marejados, depois que ouviu um ponto para Oxalá que dizia:

"Oxalá quando desce é pra curar,

Traz o pano branco e o amor pra ensinar."

A emoção da mãe de  Joãozinho aumentou quando cantaram o Hino da Umbanda:

" Refletiu a luz divina

Com todo seu esplendor

Vem do reino de Oxalá

Onde há paz e amor."

Naquela noite, não teve sermão. Só silêncio. Silêncio de quem entendeu que intolerância religiosa é ferida sem remédio — e que respeitar o axé do outro é também respeitar o próprio.

Desde então, Dona Sinhá diz que a Umbanda é feita de três coisas: fé, caridade e resistência. E que os Orixás dançam não para serem adorados, mas para lembrar que o mundo pode ser mais bonito quando aceita a dança de todos.

Lá dentro, personagens caminham entre o visível e o invisível:

Seu Marçal, o Ogã, é quem segura o tempo.

Com mãos grossas e jeito calado, ele toca o tambor como quem conta segredos antigos. Dizem que ele não fala muito porque os tambores falam por ele. Ogum caminha no som que ele solta, e ninguém ousa duvidar.

Clara, a filha de Oxum, chegou ali fugindo da vida. Morava na favela vizinha, apanhava do marido e da própria sombra. Um dia, entrou no terreiro pra assistir e nunca mais saiu. Hoje, gira com saia dourada e olhos brilhantes, distribuindo rosas e esperança.

Damião, adolescente tímido e negro como a noite sem lua, incorpora um Exu chamado Tranca-Ruas das Almas.

E foi ali, no corpo magro e hesitante de Damião, que Exu ensinou uma lição para todos:

— Eu abro caminhos... mas vocês é que têm que andar. A fé não é Uber, não.

No fim da gira, sempre vem Pai Benedito.

Curvado, fala devagar. Mas quando põe a mão nas costas de alguém, o peso da vida vira espuma.

— Tenha calma, minha fia... O tempo de Deus não é de relógio, é de axé.

E há os pontos. Ah, os pontos!

Canções que são preces com corpo.

Eles sobem ao céu com a força de mil pedidos, misturam língua de preto velho com gíria de malandro, ensinam com poesia aquilo que a ignorância teme.

Cada ponto é um livro cantado, uma aula sem quadro-negro,mas nem tudo são flores.

Certa vez, um vizinho jogou sal grosso no portão. Outro chamou a polícia dizendo que era "bruxaria". Dona Sinhá não se abalou. Acendeu vela pra Oxalá e disse:

— Deixa falar. A ignorância é cega e o preconceito tem medo do escuro. Aqui, a luz não se apaga.

E é isso que a Umbanda é: resistência amorosa.

Não se prega conversão. Não se vende salvação.

Se oferece acolhimento. Se lava a alma com folhas de guiné e palavras doces. Se canta para sarar o mundo.

Joãozinho cresceu. Virou pai de santo também. Herdou o atabaque e a calma de Dona Sinhá. E no seu terreiro, pintado de amarelo, tem uma placa que diz:

“Entre, traga sua dor. Aqui se cura com amor e ponto cantado.Aqui se dança com fé, se chora com dignidade e se canta com amor. Intolerância, aqui, não entra nem se vier de terno e gravata.”

Saravá!

Por José Casanova,
Professor, Jornalista e Escritor 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 
Tutor da Academia Marahense de Letras Infantojuvenil