Na rua de paralelepípedo do bairro do Capim Alto, onde o cheiro de café coado se mistura com o perfume do manjericão, ergue-se um portão azul com uma estrela de cinco pontas entalhada na madeira. Atrás dele vive Dona Sinhá, 78 anos,coluna ereta,lenço branco, olhar de rio profundo,parteira de almas,benzedeira de corpo e palavra.
O terreiro dela — chamado Tenda de Luz de Ogum Beira-Mar — começa onde terminam os muros da descrença. Todo sexta-feira à noite, antes que os sinos da igreja lá de cima toquem oito vezes, já se ouve o toque dos atabaques ecoando no breu, convocando os Orixás e espantando o preconceito com som.
Naquela gira, cada tambor conta uma história antiga, anterior à escravidão, anterior à dor. O toque de Ijexá sobe leve, como brisa de Iemanjá. O de Congo pulsa firme, como o passo de Xangô. Os filhos se alinham em branco, como quem vai pra guerra sem armas , só com fé.
Joãozinho, menino curioso de doze anos, costumava espiar do muro. A mãe, evangélica de carteirinha, proibia:
- Esse povo é do demônio.
Ele não via nada além de flores, velas e abraços. Um dia, tomou coragem e entrou. Dona Sinhá olhou pra ele e disse:
— Saravá, meu filho. Seja bem-vindo. Aqui ninguém força nada. Mas ninguém sai ileso da luz.
Ele voltou na sexta seguinte. E no outra. E no outra.
Foi lá que conheceu Seu Zé Pelintra, malandro de chapéu branco e sapato engraxado, que falava em rimas e dava conselhos como quem serve um cafezinho forte: quente, direto e revigorante.
— Respeita teu caminho, moleque. O mundo já tá cheio de quem tenta apagar os rastros dos outros.
E conheceu também Maria Padilha, que cantava pontos com voz de trovão e cuidava das moças mal-amadas com banho de rosas vermelhas. E o velho Preto Velho, Pai Benedito, que chorava sem lágrimas e curava com a palma da mão e um galhinho de arruda.
A Umbanda ensinou Joãozinho sobre Orixás: Ogum, senhor da guerra justa; Oxum, dona das cachoeiras e dos sentimentos doces; Iansã, que comanda os ventos e não aceita injustiça calada.
Ensinou sobre obrigação: que a fé exige compromisso, não medo. E que acender uma vela pode ser tão forte quanto levantar uma bandeira.
Mas o que mais aprendeu foi que ser de Umbanda é ser de paz. Não é preciso gritar para defender a fé. Basta mantê-la acesa.
Num domingo, a mãe de Joãozinho foi procurá-lo no terreiro. Chegou de cara amarrada, mas saiu com os olhos marejados, depois que ouviu um ponto para Oxalá que dizia:
"Oxalá quando desce é pra curar,
Traz o pano branco e o amor pra ensinar."
A emoção da mãe de Joãozinho aumentou quando cantaram o Hino da Umbanda:
" Refletiu a luz divina
Com todo seu esplendor
Vem do reino de Oxalá
Onde há paz e amor."
Naquela noite, não teve sermão. Só silêncio. Silêncio de quem entendeu que intolerância religiosa é ferida sem remédio — e que respeitar o axé do outro é também respeitar o próprio.
Desde então, Dona Sinhá diz que a Umbanda é feita de três coisas: fé, caridade e resistência. E que os Orixás dançam não para serem adorados, mas para lembrar que o mundo pode ser mais bonito quando aceita a dança de todos.
Lá dentro, personagens caminham entre o visível e o invisível:
Seu Marçal, o Ogã, é quem segura o tempo.
Com mãos grossas e jeito calado, ele toca o tambor como quem conta segredos antigos. Dizem que ele não fala muito porque os tambores falam por ele. Ogum caminha no som que ele solta, e ninguém ousa duvidar.
Clara, a filha de Oxum, chegou ali fugindo da vida. Morava na favela vizinha, apanhava do marido e da própria sombra. Um dia, entrou no terreiro pra assistir e nunca mais saiu. Hoje, gira com saia dourada e olhos brilhantes, distribuindo rosas e esperança.
Damião, adolescente tímido e negro como a noite sem lua, incorpora um Exu chamado Tranca-Ruas das Almas.
E foi ali, no corpo magro e hesitante de Damião, que Exu ensinou uma lição para todos:
— Eu abro caminhos... mas vocês é que têm que andar. A fé não é Uber, não.
No fim da gira, sempre vem Pai Benedito.
Curvado, fala devagar. Mas quando põe a mão nas costas de alguém, o peso da vida vira espuma.
— Tenha calma, minha fia... O tempo de Deus não é de relógio, é de axé.
E há os pontos. Ah, os pontos!
Canções que são preces com corpo.
Eles sobem ao céu com a força de mil pedidos, misturam língua de preto velho com gíria de malandro, ensinam com poesia aquilo que a ignorância teme.
Cada ponto é um livro cantado, uma aula sem quadro-negro,mas nem tudo são flores.
Certa vez, um vizinho jogou sal grosso no portão. Outro chamou a polícia dizendo que era "bruxaria". Dona Sinhá não se abalou. Acendeu vela pra Oxalá e disse:
— Deixa falar. A ignorância é cega e o preconceito tem medo do escuro. Aqui, a luz não se apaga.
E é isso que a Umbanda é: resistência amorosa.
Não se prega conversão. Não se vende salvação.
Se oferece acolhimento. Se lava a alma com folhas de guiné e palavras doces. Se canta para sarar o mundo.
Joãozinho cresceu. Virou pai de santo também. Herdou o atabaque e a calma de Dona Sinhá. E no seu terreiro, pintado de amarelo, tem uma placa que diz:
“Entre, traga sua dor. Aqui se cura com amor e ponto cantado.Aqui se dança com fé, se chora com dignidade e se canta com amor. Intolerância, aqui, não entra nem se vier de terno e gravata.”














